sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Delirante


Dentre tantos e todos os sabores que estar aqui inclui, consolam minha perturbada não matéria (a qual me nego nomear, cansada da repetição dos nomes de sempre) duas vistas de janelas, a do possível regresso, e aquela donde não se vê muito, posto que pertencendo ao imprevisível os movimentos ali são rápidos, guardam surpresas.

Vê como a perturbação é real? Isso de a saciedade não passar de brevidades, e cultivar a fome (sem qualificá-la para que não se limite) ser considerada mesmo uma arte necessária à resignificação de si, e para tanto do entorno. Será salutar essa atenção ao que sequer está ali?

Sem querer resposta sugiro propositalmente despretensiosa que desdobrar-se e passear por horizontes ausentes é absolutamente usual e até razoável, uma vez que nada. Não há razão nenhuma para se cultivar imaginação, dar-se ao prazer da brincadeira de faz de conta é só conseqüência das estórias contadas cheias de encantamento fazendo brilhar os olhos da criança, imprimindo no que se carrega ao eterno o desejo pelo sonho.

Renego solene e teimosa abandonar o presente, o passado, e o futuro à naturalidade de serem tão somente passagens. Ficam todos comigo o tempo todo em imagens sempre redecoradas pela fantasia, são estórias reinventadas ao gosto da hora, à necessidade da saudade, ao desejo do que projeto no que seja o por vir. Ardil perigoso é a imaginação, especialmente se temperada à atenção constante do que pode estar por detrás da neblina risonha que se compraz na traquinagem do esconde-esconde.

Ardil perigoso imaginar, sonhar, mais perigosa ainda é a coragem que, de mãos dadas à excitação de sentir mais e de novo, confere ímpetos de liberdade aos que, então, se lançam a viajar. Ora, mas se estar aqui já não é em si tarefa de grandes riscos?! De modo que se não há saída (nem eu a desejo) resta a integridade na conduta comprometida em ser inteira.

Sem as travas de segurança, seguindo o cheiro do vento, que é viajante por natureza, anseio nervosamente pelos insondáveis caminhos e inevitáveis acontecimentos rompedores de previsões feitas pelo velho maltrapilho e fedorento que é o Tédio. Todavia, não se enganem, ele nem é velho de verdade, é criança sem estórias a fim de provocar malcriação certa por parte dos que lhe desprezam.

Anseio pelo que ignoro para enfim sabê-lo, e sabendo-o poder colorir fantasias, espalhar no chão imagens e dispô-las de modo que a cada vez configurem invenções diferentes, inesgotáveis estórias, fontes lindas de chocolate, chás, cafés, e água do tipo fresca e insipidamente doce como são as águas boas. Lugares que alimentem aquelas fomes que nunca passam, servindo igualmente ao propósito de cenário dos encontros que já foram, mas por pertencerem à eternidade se repetem ali, dos que estão sendo nesse exato momento e enchem os olhos de muitas coisas, e dos que serão sem nunca, jamais suspeitarmos disso.

Agora preciso ir, meus animais me esperam para uma mesa redonda sobre novas rotas para os passeios vespertinos.

- Elis Barbosa

7 comentários:

  1. A pena é só que os passeios vespertinos não dêem com a esquina da minha baia: janela de tantos aconteceres. Nem se precisava entrar. O olhar tinha a conivência do vidro e sublinhava acontecimentos subliminares, entrelinhas do dia, códigos que só a cumplicidade era capaz de traduzir fidedignamente.

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  2. Pois eu conheco tão bem a vista dessa janela! Podíamos ficar ali, debrucadinhas na fronteira mesmo, horas, e nunca que acabavam as estorias :O)

    Saudade Bob!!!

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  3. Gosto da maneira como escreve.
    Gostaria inclusive de desenvolver alguns de seus assuntos em meu blog.
    Abraço

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  4. Caro Diougnes, fique à vontade. Seja bem-vindo!

    Abraco,
    Elis

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  5. Quantas paisagens se debruçam em suas janelas. Lamentavelmente minhas mãos não podem tocá-las. Estão amaldiçoadas.

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  6. Colocando a leitura da Elis em dia. Sabia que desde que você mudou de cidade a sua escrita ficou mais leve, e mais feminina ainda?

    Aqui é pouso certo para o meu prazer de ler.

    Beijo, Kk

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  7. Queria Kk, não é que assim parece?! A Betinha também achou que minhas palavras mudaram um tanto depois que a maresia passou a fazer parte dos cheiros que me entram pela alma.

    Beijos!

    Elis

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Troca comigo, meu texto pela sua impressão dele ;O)