Dentre tantos e todos os sabores que estar aqui inclui, consolam minha perturbada não matéria (a qual me nego nomear, cansada da repetição dos nomes de sempre) duas vistas de janelas, a do possível regresso, e aquela donde não se vê muito, posto que pertencendo ao imprevisível os movimentos ali são rápidos, guardam surpresas.
Vê como a perturbação é real? Isso de a saciedade não passar de brevidades, e cultivar a fome (sem qualificá-la para que não se limite) ser considerada mesmo uma arte necessária à resignificação de si, e para tanto do entorno. Será salutar essa atenção ao que sequer está ali?
Sem querer resposta sugiro propositalmente despretensiosa que desdobrar-se e passear por horizontes ausentes é absolutamente usual e até razoável, uma vez que nada. Não há razão nenhuma para se cultivar imaginação, dar-se ao prazer da brincadeira de faz de conta é só conseqüência das estórias contadas cheias de encantamento fazendo brilhar os olhos da criança, imprimindo no que se carrega ao eterno o desejo pelo sonho.
Renego solene e teimosa abandonar o presente, o passado, e o futuro à naturalidade de serem tão somente passagens. Ficam todos comigo o tempo todo em imagens sempre redecoradas pela fantasia, são estórias reinventadas ao gosto da hora, à necessidade da saudade, ao desejo do que projeto no que seja o por vir. Ardil perigoso é a imaginação, especialmente se temperada à atenção constante do que pode estar por detrás da neblina risonha que se compraz na traquinagem do esconde-esconde.
Ardil perigoso imaginar, sonhar, mais perigosa ainda é a coragem que, de mãos dadas à excitação de sentir mais e de novo, confere ímpetos de liberdade aos que, então, se lançam a viajar. Ora, mas se estar aqui já não é em si tarefa de grandes riscos?! De modo que se não há saída (nem eu a desejo) resta a integridade na conduta comprometida em ser inteira.
Sem as travas de segurança, seguindo o cheiro do vento, que é viajante por natureza, anseio nervosamente pelos insondáveis caminhos e inevitáveis acontecimentos rompedores de previsões feitas pelo velho maltrapilho e fedorento que é o Tédio. Todavia, não se enganem, ele nem é velho de verdade, é criança sem estórias a fim de provocar malcriação certa por parte dos que lhe desprezam.
Anseio pelo que ignoro para enfim sabê-lo, e sabendo-o poder colorir fantasias, espalhar no chão imagens e dispô-las de modo que a cada vez configurem invenções diferentes, inesgotáveis estórias, fontes lindas de chocolate, chás, cafés, e água do tipo fresca e insipidamente doce como são as águas boas. Lugares que alimentem aquelas fomes que nunca passam, servindo igualmente ao propósito de cenário dos encontros que já foram, mas por pertencerem à eternidade se repetem ali, dos que estão sendo nesse exato momento e enchem os olhos de muitas coisas, e dos que serão sem nunca, jamais suspeitarmos disso.
Agora preciso ir, meus animais me esperam para uma mesa redonda sobre novas rotas para os passeios vespertinos.
- Elis Barbosa



