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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Prólogo


Havia ainda um filete de luz esmorecendo devagar, um pouco arrepiado pelos rumores vindos na respiração das rachaduras da construção condenada. Anunciavam noite sem lua. Depois não havia mais nada. A luz apagou anunciando a proximidade da hora do nascimento. A luz tem de morrer antes dos nascimentos para não cegar quem vem chegando. Suspendem o ar, estendem o suspense na janela para que fique reservado o momento íntimo da passagem, é hora de se lavar, de aprontar-se para receber a novidade que iluminará tudo diferente.

A gravidade do momento punha o indicador sobre os lábios pedindo silêncio, espaço à respiração de quem reúne forças para cortar a corda. Pausa. Vacila? Não, espera resignada acomodar-se a ciência da inexorabilidade do gesto prestes a ser, e no entanto, todos depois disso voltariam a ser, mais nada. Absoluta, a certeza aperta-lhe o braço lembrando de que é hora, o corte necessário tem de ser fundo para que venham tempos limpos do mofo acumulado com a umidade salina das lágrimas suadas.

Olhos cerrados, corpo retesado de conhecer o significado que o gesto carrega, era chegada a hora, avistava já o olho do furacão e ao ser alcançada não resistiu, procurou o lugar menos doído, conhecido de outras tempestades. Acomodou-se, e se deixou arrastar pelo momento, cuja urgência de vida fazia-se maior que o medo de abandonar o sonho morto. Estivera ali velando e chorando por ele desde quando, há tempos atrás, avisaram da contagem regressiva dos dias. Quando é assim, o aviso da morte antecede ao do nascimento, sem que essa ordem tenha nada que ver com um possível consolo, nada consola das despedidas abominadas, a ordem do aviso obedece as leis da natureza, só isso.

Partira. Olhos vazios, forças rasgadas, a certeza lhe dando a mão direita, a tristeza a esquerda, não havia espaço para mais nada além do susto diante da própria coragem de ter olhado nos olhos da verdade feia que amparava a decisão de partir a corda.

Perder para a morte não é novidade, o trágico do momento marca mais uma passagem, como tem de ser. Vai-se o sonho, fica o amor guardado nos alfarrábios a conter as histórias reais e as inventadas. O recomeço ficará a critério da continuidade inelutável imposta pela passagem comprida e eterna dos dias distribuídos nos pacotes semanais. O luto enche a escuridão da noite com sonhos confusos e tristes, as manhãs não querem acordar secas e chamam as lágrimas para umedecer o chão que virará tarde lentamente.

Isso também passará, e depois que a tempestade se for, voltará a ser terra fértil o que agora é fadiga exaurida. Abrir-se-ão portas e janelas e precipitar-se-á luz sobre o novo caminho de nuances conhecidas, haverá novo ânimo, será sentido afinal o propósito do movimento, como se a repetição do ato de cortar e sarar daquilo que não faz mais sentido servissem de prólogo para o que ainda será vivido.

- Elis Barbosa

sexta-feira, 15 de julho de 2011

HeiGhT


Da pedra mais alta de todas abre-se, muito disponível, embora um tanto imprevisível, um cenário amplíssimo feito de todas as chances que tem quem resolver explorar o que adiante se apresenta. Tem de um tudo, mas grudada nos meus olhos sorridentes, a imagem que se destaca por todas as metáforas que guarda coerente e carinhosa, é a casa suspensa no ar por milhões de balões coloridos.


Mesmo aqui sendo isso tudo de alto, acho muita graça de não ter, agorinha mesmo, aquela agonia de pular, de não ter agonia com nada, de gostar de ficar e pronto.

E lá dentro, agora que a casa também é minha, posso inventar tudo de novo, posso contar a história que me der na telha.

- Elis Barbosa

domingo, 8 de maio de 2011

Trilha


Não coleciono fantasmas, desgosta-me deveras a idéia do sobrepeso considerando a lonjura da viagem.  Entedia-me a impressão de repetição infrutífera sobre uns assuntos mortos. Desagrada-me encontrar defuntos, não por temor ou desprezo, mas por gostar de encará-los como fatos, memórias acessíveis no museu das lembranças, se e quando me aprouver.

Tem que desconheço as regras aplicáveis aos sonhos, às lembraças e ao uso da crase, de modo que pode acontecer de as noites serem invadidas por imagens carregadas de cheiros e vozes que faz muito se foram. Acordar de sonhos que transformam o relegado ao ostracismo em obscenidades é constrangedor, como quando se molhava a cama da infância, o desconforto frio anunciando que tudo seria mais trabalhoso e irritantemente explícito. Melhor nessas ocasiões é acordar só, o amassado da cara de outras vidas, se temos acordada testemunha atenta é flagrante certo.

O enredo dessa noite foi especialmente intrigante, sugeria a vivência de uma maternidade adiada, com a participação especialíssima do príncipe da Branca de Neve, que, comprometido não podia estar presente naquele sonho, nem acompanhar o processo daquilo que estava em formação, fato celebrado por mim por achar que havia muito fora de lugar. Embora não admitisse ainda que era um sonho, algo dizia claro que a realidade não poderia ser assim tão fantástica e tão arbitrária. Afinal, que hisória é essa? De quem? Nossa é que não haveria de ser.

Tal qual todo o resto das coisas que se despem abruptas aos meus olhos, esse arroubos oníricos vêem sempre quando a guarda está baixa. A vida bem comportada, os problemas disciplinados, os prazeres bem distribuídos, e aquela sensação insana de eternidade. Tenho medo de mudar de fase, de estágio, tenho medo de subir mais um degrau, é quase instintivo saber que crescer, mudar, envelhecer (entre outros) é avassalador, de arrepiar as almas mais indiferentes. Penso em propor negócio, gostaria de entrar num acordo, acredito ter com o que barganhar, afinal, até aqui sigo obediente, embora não resignada, ao que vem sendo posto em pauta. A vida manda e eu obedeço, mereço uma pausa, recreio, uma aliviada na tensão. 

Resolvo não tomar em casa o café de amanhecer os dias, fazer recender seu cheiro ressuscitador de esperanças naquela atmosfera ainda indivisa poderia desgarrá-lo do lar a que pertence agora, sem falar na boca ainda amarga com o gosto do reencontro despropositado, vai que não é identificado o amigo resignificador de todas as emoções? Seria arriscar marcar desnecessáriamente uma relação imensamente prazerosa de uma vida inteira. Sendo assim, verificada a bolsa, parto em jejum para as expectativas marcadas na agenda do dia.

Comprada a passagem é hora de acordar, ainda pensando no sonho acho melhor ir de expresso, é impessoal, mais forte que o caseiro, chega com seu gosto executivo e sai fechando tampas, abrindo janelas, transitando pelo espaço com referências comerciais. Distraída com a imagem de duas senhoras que também tomam seu café, mas na mesa ao lado, debruço sobre a imagem e vejo que são mãe e filha, passadas no tempo, cuidando com carinho e silêncio uma da outra. Na caderneta mental que carrego para o que não pode ser dito tão logo seja concebido, passo a anotar os elementos que comporiam a equação, cuja incógnita seria algo sobre maternidade, very funny.

Sinto a gravidez do sonho e me irrito, lembro do bebê que visita minha casa toda semana e tenho saudade, toca o telefone e atendo. Minha própria mãe quer saber de mim, se, quando e pra onde vou hoje, domingo devemos passar juntas mas ela não liga de estar se antecipando em dois dias, ela é louca por mim, morre de saudade dos tempos em que morávamos juntas, e humana que é posso afirmar sem pudores que trapacearia se assim pudesse ter um pouco mais de nós como era antes. Mamãe assume hoje com certa tranquilidade suas incoerências e absurdos, o que alivia a todos nós da impressão de que o resto do mundo é que era louco.

No ônibus frio não durmo, cochilo, tenho encontros importantes, marcados por mim e pelo acaso, acostumei, a surpresa é com quem, se bem que nesse caso já nem isso é surpresa. Chegada ao lugar onde as imagens que alimentam meus sonhos estranhos nasceram, onde um encontro gratificante, elucidativo, e promissor se daria, e ainda onde o que não marquei sucederia acolhedor, acendo o intervalo consumido em fumaça mentolada, sento junto a um gato preto e espero que todos os elementos contidos em espaços de tempo tão diferentes sosseguem um pouco. 

Horas depois, cheia de novidades costumizadas, encontro minha irmã, minha mãe, meu eterno começo. Falamos das vidas dos outros, das nossas, e colocamos o pão do dia seguinte pra descansar. Acordo sem promessas, o dia passa e encontro minha tia, minha mãe, minha irmã, meu eterno começo. Volto a ser pequena, escorrego no sofá para caber naqueles colos que me suprem com o imprescindível para continuar. Assino a promissória da dívida que farei com certa ausência inadmissível e durmo, só um pouco, ao lado da irmã que ressona. Sinto a gravidez do sonho já quase esvaido, mas não me irrito, entendo. Somos todas prenhes do universo que vamos reproduzindo, algumas em gente, outras em palavras, algumas em gente e palavras.

Desperto brava, a promissória cobrada por telefone, abraço meu pai e meu irmão, olho nos olhos das mulheres que acompanho e compreendo a perenidade de tudo que é construído com amor. Abrando a rudeza, firmo no propósito de amar como me foi confiado. Toco de volta para a casa que venho construindo com tudo que levo desde sempre. Sinto a gravidez do sonho que se despede e tenho já saudade dele e dos vivos chamados fantasmas preventivamente, para que não me marejem os olhos, posto que são conservados por amor e gratidão, reconhecendo-os mais meus que nunca.

Grata e contente, seria desonesto furtar o sorrir advindo de se notar que tudo isso somaria só num monte de palavras não fosse a gula de quem se apropria de cada momento para saber mais, passatempo primordial dos que não têm nada de útil pra fazer.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

QuImErA


Cumprimentando o dia de lado, deixou o formato do corpo na cama e depois acordou. Esfregava muito os olhos para desmanchar as imagens do que ainda não secara o suficiente para se saber de ser só sonho. A noite não havia sido das mais generosas. Isso considerando o que é conveniente de se ter em fartura. O sonho insistente, a continuar entre um e outro despertar de consciência, teria sido de generosidade redentora fossem outros os tempos.

Os olhos inchados de não chorar reclamavam no espelho lhes ter sido negada a chance de entrega às lágrimas. Agora mais essa, o corpo ressentido de não ter podido viver às cegas um simulacro dos mais bestas! Era muito antiga a despedida, cujo processo arrastou o tempo e o resto, atravessado o pântano com o corpo e o espírito, cada qual embaixo de um braço, partiu quando julgava não haver mais saída, foi sofrido, todavia passado, portanto história, e das que não se fica mais a repetir o lado B. Honestamente, ela não ia passar aquilo tudo em revista de novo, o residual  fora já mais que processado.   

A falta de coerência é que irritava, mémoria traidora a ressuscitar fantasmas numa despropositada perspectiva de talvez, quando tudo, absolutamente tudo estava tão bem assentado. Havia inclusive um jardim esplêndido, cultivado com amor, boa vontade e alegria, onde antes era tudo luto. Ofendia a clareza com que ainda estavam guardadas imagens, vozes, sinestesias. Estava tudo ali por dentro, mas onde? 

Enquanto o cheiro do café passando pelo pó separava a noite do dia, lembrava-se da conversa que tivera com seu espelho espiritual, dando conta que, talvez, o teor do assunto tenha mesmo levantado certa poeira, eriçado sensibilidades adormecidas. Certo, mas daí a inventar discursos renovadores de votos?! Não foram essas as curvas percorridas na conversa, falamos sobre perdas, sobre resignação, sobre reconfiguração de impossibilidades antigas transformadas agora em vias passíveis de trânsito. Entende?

A tristeza de ter revisitado tantos lugares em um corpo só, e de tê-los desejado, era ofensiva à realidade de um presente cheio de outro amor, que participou do sonho tão somente em consciência de compromisso. Será verdade que amor multiplica sem substituir? A culpa de ter descoberto algo mais na dimensão de sua bagagem, dos desconhecidos componentes da banda que também participavam da composição de sua história, era violenta, mais amarga que o café que não podia adoçar. Acabara o acúcar sem que tivesse se dado conta. Muito engraçado.  

O tempo quase todo sabia estar sonhando, a intuição do melhor caminho despertara-a algumas vezes, mas adormecendo voltava ao ponto de onde saíra, e num reflexo curioso do que foi a realidade percorreu o caminho até o fim, sem que nada tenha sido concluído. Posso passar essa vida inteirinha sem desvendar o mistério que é esse não fechar de portas, essa inconclusão, fazendo o favor!  

O sonho estranho orquestrara seus símbolos com maestria, estavam representados os maiores medos, as frustrações mais irremediáveis, até o mar apareceu naquele delírio egoísta, mas foi diferente. Dessa vez, dessa única vez, o mar era tranquilo, embora em movimento. Havia ondas gigantes que ladeavam seus passos, sem respingar nela o sal, bem uniforme e comportadas elas passavam imensas, acenando tranquilas que não era hora de bater, que por agora não passavam para afogar.

- Elis Barbosa

fotografia por Edward Hopper, Morning Sun, 1952.

sábado, 16 de outubro de 2010

Benção de Despedida


Perdi.

Perdi numa fatalidade o que refrescava minha sede de maternidade. Fatalidade – nunca gostei da palavra, desprezada agora desesperadamente, genuinamente, ela e sua abrangência, que só fazem alimentar a impotência de quem perdeu – aconteceu comigo.

Fatalidade, segundo o Aurélio (claro que fui procurar!), carrega dentre outros significados o de destino inevitável que se opõe a liberdade (nada que eu odeie mais!), coincidência deplorável, acaso infeliz, funesto. Feia toda vida, essa palavra é dita sempre com gravidade que convém aos que não querem ou não podem se rasgar com o acontecido, com a desgraça. Tal qual eu mesma estou fazendo, exaurindo a palavra, transformando-a no Judas a ser malhado, estendendo-a o mais que posso para não contar o que realmente aconteceu.

Perder dói, de qualquer jeito, eu sei, mas ninguém me convence de que algumas formas de perda são menos possíveis à compreensão humana que outras. Golpes muitíssimo rápidos, definitivos e sanguinários trazem uma dor toda adornada de acessórios tipo ponta fina, como a perplexidade impotente frente à desgraça fresca arremessada dos infernos sobre os desavisados.

Perdi, faz noites, a encarnação do amor sem vergonha, sem motivo, gratuito e abundante, que morava conosco. Perdi meu filhote, minha menina, minha pretinha. Perdi um pedaço da família que vivemos zelosa e apaixonadamente. Perdi minha criança canina, meu exercício diário de viver com as diferenças, de amar o que não tem de refletir ideal algum, tem só de ser. E fatiava o coração de quem ralhava com ela, malandragem assumida em olhos que não mentem, nem pretendem nada que não a traquinagem da hora.

Aconteceu, como é dado às putas das fatalidades, muito rápido. Durou o mesmo tempo que levei para amá-la, tiraram-na de mim num instante. Foi um corte só, sem chance.

E eu que tinha alguns sentimentos para o jantar transtornei numa afluência desabalada de confusão dolorida. Seria possível? Para não haver dúvida foi bem na minha frente que o carro lhe abateu. O inexplicável me deu na cara algumas vezes, o corpinho a virar corpanzil de cão de caça, alimentado, abraçado, catado, examinado, amado, estendia-se em meio aquela poça de sangue, a língua pra fora, a alma ida. Diante dos meus olhos todos os detalhes. Por pouco não tentei trazer de volta ao corpo a alminha que, quem sabe não queria voltar. Sei não, sei nada.

Sentada no meio fio, corpo chacoalhado de gritos, soluços e dor, proibida de fitar a cena, todo o trabalho feito até aqui esvaído. Espiritualidade, racionalidade, tudo espalhado pelo chão, em cacos.

Soltei palavras cheirando a naftalina de tanto tempo guardadas, mal disse Deus e adjacências, quis saber do quanto podia e descobri que não podia nada.

Passadas horas milenares, vou me acalmando, sigo com o amargo na boca, mas os mecanismos de preservação da espécie já se pronunciam, vêem pra mim as memórias boas, como o olhar da Flor, e seus matizes de significados. Era muito comunicativa de olhares a minha pequena, ela pedia, questionava e se indignava (espirrava ao se indignar), e amava com o olhar, sem reservas. A minha Flor era todo dia lição de ser, confrontava-me ininterruptamente com sua certeza inabalável de que sendo ou não amada, importa é amar. Jogava-se sobre nós na certeza feliz de que não a deixaríamos cair, dando-se por satisfeita só com a tentativa se não conseguíamos. Num de nossos episódios argumentei com meu cúmplice o que nela me intrigava: a carência, a necessidade de contato físico constante em formas de abraço ou brincadeira, estar sempre conosco, num apelar sem fim e uma falta de pudor em pedir, uma persistência em expor sua disponibilidade feliz, atendida ou não atendida, lá estava ela, sempre de humor refeito, pronta, resolvida.

A resposta dele foi sorriso, daqueles de quem sabe o que vai por detrás da máscara e, portanto não precisa dizer palavra para comunicar. Desconcertada, mudei o assunto. Essas trocas silenciosas acabam com minhas resistências, com minhas barreiras, não têm filtro, saem de lá num canal direto pra cá.

E como me falta a Flor pra praticar viver, pra cuidar dessa casa e da família através da qual nos recriávamos protegidas.

Sei que a transformação das coisas exige um tempo que passa, cá estou submissa a esperar, tratando de viver etapas, e me despedir é uma delas. Vai meu filhote, vai nesse trotar estabanado todo seu, vai que eu fico aqui cuidando de tudo, vai que uma tia me disse sobre um céu para os animais e achei que lá te pertence. Saudade? Eu sei pretinha, mas me disseram também que depois melhora, confia que melhora. Vá logo amalucar o seu entorno, que hora dessas a gente volta a se encontrar. Te amo.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 10 de junho de 2010


às minhas amadas amigas
Repetidas vezes falo em saudade, eu sei.

Talvez alimente a ilusão, como pessoa essencialmente da palavra – esse farol cuja luz dialoga – de que repetindo a coisa ela possa vir a gastar, e quem sabe assim, desapareça.

É ilusão, eu sei.

Só tem que, saber de algo nunca resultou necessariamente em saber lidar com a coisa, então continuo alimentando a ilusão de gastar a palavra para sentir desmanchar a saudade, é tudo que tenho nesse momento.

Estou indo embora, eu sei.

Fui eu quem planejou essa ida, foi um plano gerado de um sonho que descobriram embaixo do meu tapete e não pude mais escondê-lo de mim. Eu sei, eu sabia, eu sempre soube.

Tem que hoje fica evidente (quando é quase chegada a hora), para todos os defeitos, a ruptura entre a realidade de “até agora” e a que será “a partir de então”. E estou surpresa, como se nada disso tivesse que ver comigo, como se a outra fosse quem vai. Saber que fui protagonista de toda a história só aumenta meu ar de estupefação, acordei sem saber onde. Susto.

A postura é polida, o sofrimento é contido todo nos olhos, e dói o machucado que dá toda vez que passo pela lição do desapego e reprovo no final. Essa eu ainda não sei mesmo.

Fazendo o inventário do que levo comigo, concluo que é mais ou menos tudo o que preciso para continuar, me vejo muito melhor, e me reconheço muito melhor, graças aos olhares que compartilhamos sobre tanto, às nossas diferentes perspectivas lançadas de maneiras tão diversas, aos gestos de generosidade e incompreensão, às explicações de si que foram tantas vezes postas na mesa francamente, aos conselhos dados com a contrição de prece, por amor, pelo amor mais completo que há, por amizade. Disponibilizamo-nos a ser do outro a testemunha necessária para se pertencer, se estender, libertar.

Nunca poderei expressar de verdade tudo o que representa ter estado e estar indo, eu sei. Mas, leal ao que foi até agora, divido como posso o que tenho e agradeço por tudo o que me foi dado.

Beijos,
- Elis Barbosa

p.s. manifestem-se sobre o acima, de preferência, quando não mais puderem me ver chorar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sufoca

e o diafragma está agora apertado pela mão que seguraria a minha durante a travessia… e a dor do aperto se mistura à de não respirar… e as reticências são os intervalos necessários para que se articule algum raciocínio linear em meio a todo esse caos…

O elemento surpresa pode ser a coisa mais assustadora de todo o mundo inteiro, particularmente quando se trata de o chão ser sacudido justo quando só a Impotência está na sala, sempre sentada, lamentando-se de nada poder fazer. E de cenho franzido, expressão que empresta algum (senão o único) sentido à perplexidade, repetem-se as tentativas de entender, faz-se o caminho de volta, sozinho, pasmado, investigativo, na tentativa de encontrar o que se perdeu, pois decerto que algo se perdeu!
Mas o quê, o que poderá ter sido?

Ao fim, começa-se a reviver tudo novamente, daí talvez a má digestão... Todo fim inaugura um processo de transformação, mas sendo abrupto o fim instaura-se ainda outro processo, o de acreditar que não, não é um sonho mal, é verdade, acabou!

É justo isso?

Mesmo não sendo, é ao fim que tem início o laborioso exercício de pinçar-se dali, de recolher-se para si, de revisitar minuciosamente tudo, do começo ao... Sim, só que agora como expectador que, além de não poder interferir, já conhece o desfecho da história que lhe abafa o peito!

Não respirar dói, mas respirar dói também, pior, faz chorar. Pensando bem, não é isso que fazem os bebês para nascer? Talvez respirando eu chore, e quem sabe, chorando,acabe por renascer…

- Elis Barbosa

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Mais uma vez!


Sim, sim, vai acontecer de novo. Mais um ano passou e vem chegando a hora de mudar os números no painel da estação. São 28 anos os que coleciono, achando que isso é tempo demais para consciência de menos, confesso, surpresa ainda. Será um ano unidade de tempo uniforme?

O efeito do tempo, Sr. Regente Supremo da Silva que vai virando as páginas do livro, condenadas a serem preenchidas e nós a preenchê-las.

Seja como for, por costume fuço coisas antigas essa semana, e não pude deixar de olhar para uma com carinho especial. Aconteceu para catarsear uma dor imensa que curtia meu coro. Superava-a, lenta e gradualmente, imbuída de vontade feroz de viver.

Tesão, é um texto de tesão pela viagem, não apesar dos percalços, mas trazendo-os na algibeira.

Reproduzo abaixo a coisa, pensando nos ciclos que começam e terminam, através dos anos que passam por nós.

Viver é nascer lentamente.
Antoine de Saint-Exupéry

Dói! Nascer dói. No primeiro momento chora porque ao se encherem de ar os pulmões o recém parido sente dor. Acontece que todo dia é um parto. Acordar pela manhã sacudida pelo despertador dói. Abrir os olhos na claridade do dia que cutucando para o movimento necessário dói de verdade. Assim que acorda, a bexiga cheia dói, vai passando o tempo de acordado o estomago ronca doloridamente.

Todo dia é um parto. Todo parto é esforço, marca, amarrota, é doloroso, intenso. Viver é um parto lento, um parto diário, paulatino e ininterrupto, dura enquanto se estiver respirando. Conclusão: dói tudo!

Todo nascimento é começo. Todo começo é um parto que ainda se processa, é uma dolorosa invasão de qualquer coisa inevitável, intrusa, fundamental, como o ar inflando pulmões. Ar, esse que de necessário só tem o oxigênio, de resto pouco ou nada se aproveita, sem opção leva-se sempre o pacote. Parece que não se pode ficar só com o necessário. Olhando ainda pelo buraco da fechadura, pela fresta estreita a que tenha acesso, parece que o processo inclui tudo: sangue venoso e um sistema inteiro para processar o que vem sem que se peça ou precise, o que se impõem.

Todo começo dói. Todo dia é um parto. A dor está subjacente. Parece condição humana ser o que sofre-dor. Ouvi do doce famoso-poeta-músico “E toda dor, vem do desejo de não sentirmos dor”, círculo perfeito, sem começo nem fim definidos. Todo dia é um novo começo que não termina quando acaba, porque vamos levando tudo na memória.

Há dias que levam anos para serem digeridos.

Todavia, entre tanto, continua-se, há compensações, há o prazer. E se o que chega tem peito para mamar, coloquemos nossos óculos de sol, que o despertador seja um cavalheiro lindo beijando-me a boca libidinoso. O ar, que seja perfumado, que me limpem depressa e venha um aconchego morno para consolo, um abraço quente como recompensa pela coragem de ser no mundo.

Apesar de ninguém pedir pra nascer, não se deve desejar a precipitação do fim.

Nascer dói. Todo dia é um parto.

Mesmo quando se trata do prazer, há certa dor envolvida, a do fenecer de todas as coisas, a verdade do efêmero. Há que se tirar a dor para dançar, posto que tudo tem de acabar hoje para nascermos amanhã. Saber disso dói. “Viver é nascer lentamente”, nascer dói e todo dia é um parto.

De modo que não se deve, portanto, fazer da dor inimiga horrenda, nem tão pouco torná-la bem-vinda, pois sendo inevitável, inerente, que seja posta em seu lugar devido, com a naturalidade que lhe cabe.

A poesia de todo nascimento vem desse duo, prazer e dor. A busca pelo prazer na tentativa ávida de um descanso para a dor perene. Nascer é inevitável e quem sobrevive não deve querer morrer. Todo dia é um parto que tão carregado está de dor quanto de expectativas, verdade e força. Renovação! Viver é irresistível!

- Elis Barbosa