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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Brevidades Seculares - As que acabam


As trilhas daquele início foram exploradas em espírito de rebeldia contra o que havia antes de mim, clichê adolescente que transcendeu sem ser superado, quem supera adolescência esquece o b a ba, pois de tanto andar,  conheci no caminho uma alegria mansa em passar os dias que não são perfeitos, mas ainda assim muito bons. O negócio é saber lidar com eles, qualquer distorção pode vir a ser um simulacro de euforia ou vazio, e detesto simulacros. 

Faz falta enorme dividir as horas entre irmãs, não tê-las por perto desequilibra o essencial. Tenho sobrevivido de breves contatos muito leves e fundamentais. Detesto essa corda que puxa para baixo, a melancolia de olhos fundos e voz maviosa me esperando para o chá das cinco, bem quando o crepúsculo começa a bocejar. Leio Adélia, fica claro o quanto poderia ser mais grave, mais fundo, caso eu não tivesse aprendido que tudo isso passa e que mesmo sem luxuosas contribuições para a humanidade, todos fazemos nossa parte. Pego firme na caneta para fazer o roll das tarefas dos dias que, como já disse, ainda não vieram, acontece que depois que Clarisse associou o ato banal de fazer rolls em brincadeira de pensar ficou muito difícil passar incólume à provocação.

Acho, honestamente, que nem toda distância deságua em afastamento, concorre mais, certos casos, para o embotamento da clareza de quando se está muito perto, a distância edita imagens, cria ilusões. Aquelas que tornam leves as reaproximações. Sabendo disso, ideal é a aproximação se dar medida em que possa ser mantida alguma ilusão (diferente do simulacro). A mentira relativa à verdade absoluta de algumas incompatibilidades ultrapassam ideologias, são viscerais.

A saudade que existe nasce da lembrança boa do amor distribuído à maneira que cada qual sabe dar, o que pode ser imperdoável num primeiro momento, mas do avesso vira conforto. Não podia ser diferente.

Há o que fazer em todo lugar, mas só consigo me mexer por dentro. Diferente do casal que briga em algum quintal muito perfeito das imediações. Nesse bairro os jardins inspiram à abolição dos muros. O casal consegue listar muitas coisas, ouço daqui suas vozes descabeladas, olha que até eu estou conseguindo listar, conto até agora uns cinco arrependimentos cada, a conta vai ser alta, ela sempre vem, mais tempo menos tempo. A certeza é por já ter repetido frase ou outra das que ouço, a Discórdia é agiota perigosa, empresta as ofensas a juros absurdos. Calaram-se. Briga mais besta, em nada original.

Silêncio depurando, tempo escasseando, agora é a hora, amanhã vou ao banco, preciso fazer contas. Sombra, sombra sem metáfora no papel. Sobre mim os olhos do zelador da escola, incomodando, sempre assoberbado com a falta de importância que julga ter para o mundo, finge discrição, mentira precária mesmo que só para si. O sujeito respinga carência para todos os lados, por onde passa deixa pocinhas gosmentas, não gosto de estar perto dele, tenho ânsia de vomitar palavras indigestas, tenho vontade de pedir que pare tudo e caia na real em todos os sentidos, queria poder contar pra ele da rede de proteção que existe para quem se joga, às vezes machuca muito, mas quase ninguém morre disso. Penso se romper com o medo não é o que machuca mais que todo o resto.

Essa falta de compaixão para com ele, que se estende a outros, é constrangedora, embora pareça também justa na medida em que os tais outros não tendem a mostrar sinais de indulgência para com a minha pessoa. Isso é bom, já que estou aqui melhor ficar integramente. Penso nos presentes de natal que preciso escolher, esbarro num copo de café oferecido pelo zelador, ele mesmo adoçou a despeito de meu pedido que não o fizesse. Exige que eu prove, covardemente não o encaro, quero que vá sem machucado. Provo, está melado de tão doce, faz arder a garganta, quem sabe não queime as palavras que ficaram agarradas por ali. Agradeço e volto à minha lista, mais concentrada que nunca. Toca o sinal, é hora de entrar em sala, a lista vai ter que esperar.

- Elis Barbosa

domingo, 19 de dezembro de 2010

Brevidades Seculares - Parte I

Tento ordenar os afazeres preenche-dores dos dias que ainda não vieram. São muitos, mas de rápida solução, a cidade, agora pequena, apressa o tempo gasto no centro miúdo, embora o estique para quase todo o resto.

Agenda em punho, vejo finalmente se acabando o ano que começou há poucos meses, essas unidades de tempo passam cada vez mais relativas. Faz muito desde o início, o que não quer dizer que tenha de passar tão rápido agora. A ironia de o tempo não parar quando a lucidez acena do outro lado da rua (tão mais próxima!) tentando, em vão, atravessar no momento exato em que dela temos a maior avidez. Preciso listar compromissos, tomar nota do que não pode ser esquecido, organizar tudo de modo a nada faltar.

Lembro de ter anunciado minha ausência por dez dias, planejo esse regalo faz meses, como pode me doer pensar em partir da cidade que nem minha é. Só eu sei o quanto irrita sentir essa pena de não ser onipresente. Isso, além de maluquice é muito chato, só pessoas chatas pensam assim, às que falta espírito aventureiro. Tenho essa limitação, meu olhar é manco, lanço-o a imensidões, mas não vai longe, detém-se na primeira flor que lhe aparece, demora-se nela, e logo quer ficar ali para ver como será amanhã para a flor, quanto dura, se mudará de cor, se buscará o sol, como será a coreografia quando o fizer.

Hoje estou especialmente dispersa, não consigo concentração para nada, é respirar mais comprido e volto a olhar para dentro. Tem, que preciso listar essas coisas, preciso me organizar, afinal já não é possível viver assim, postergando a ordem expedida pela realidade. Vamos então à agenda, sem mais delongas!

Toca o telefone. Adio a agenda para ler na tela histérica do aparelho “chamada desconhecida”. Ótimo, essa foi boa. Talvez seja mesmo para melhor interromper o balanço enjoado desses pensamentos. Atendo ou não atendo? Atendo que não agüento sem saber quem chama, pois era uma moça mecânica contando a novidade de minha operadora telefônica ser agora amiga de um banco, e ambos muito atentos à satisfação de seus clientes, “estariam oferecendo” uma promoção vantajosa, de meu interesse. O pêndulo agora batia “desligo” ou “não desligo”. Fiquei na linha intuindo que a piada seria daquelas.

Confirmados os dados, ela sem brecha engata dizendo, muito atenciosa, a senhora sabe que hoje em dia existem muitas balas perdidas, os acidentes por balas perdidas têm aumentado cada vez mais e por isso estamos oferecendo um seguro de vida que retornará para a senhora em ligações. Desatei a rir silenciosamente, um pouco confusa com o benefício oferecido, perdida no rastro de números que a mocinha ia citando sem emoção. Serão ocupadas assim mesmo as intermitências da morte? Fazes-me falta querido, tu e a acuidade de tuas palavras!

Sacudido o momento, foi inevitável olhar o entorno, quis certificar-me de que não havia por ali movimentos de balas perdidas. Acho intrigante ser conferida tamanha naturalidade aos acidentes por balas perdidas. Não aceito isso, não posso morrer de bala perdida antes de parar de fumar, seria um disparate. Coerência em primeiro lugar.

Sim, ano que vem devo parar de fumar, mas isso não entra na agenda. Preciso completar essa agenda, fazer uma lista de compras, não posso esquecer os panetones, que, diga-se de passagem,  não gosto. Só dos de chocolate, aliás, como puderam demorar tanto para inventar os de chocolate? 

Não sou nenhuma autoridade em precisar a tempestividade das coisas, comumente tropeço sobre os acontecimentos, se os antevejo então, falta só dar de completar seus pensamentos. Todavia, isso de os dias felizes serem raros e caros, repito sem qualquer convicção, a troco de ver outro dizendo diferente do que se gastaram em me ensinar. Diziam ainda, que além de raros os tais dias só se dariam em condições de pressão e temperatura perfeitas. Pois nem com as informações assim postas, de modo tão claro, me furtei eu de buscar ser feliz.

- Elis Barbosa

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Vazante

Quê dê essa menina?!

As cabeças para o chão procurando o que havia de pequeno e fujão nas bordas daquele momento. Era hora, estavam no acabamento.

Pois fugira. Dos maus momentos, o da despedida era dos piores. Notava, mesmo recente no mundo, haver coisas de regalo e coisas de contrariedade. Ambas começavam na barriga, vibrando até os limites do corpo. Sensível demais ela era, de chorona acusavam-na sempre, diziam que chorava por tudo.

Vivia mesmo grande emoção em existir, talvez toda essa comoção se desse por força de os anos serem poucos, de a literalidade do mundo transformar fatos em fantasia e o contrário. Podia ser, mas olhando com cuidado, já se notava que tinha uma deformidade no olhar a transformar tudo em coisa muito grande. Já se vê daqui o “fundo-de-garrafa” embutido nos olhos muito atentos, quase arregalados. 

Além desse problema, nascera apegada, viera adicta a um pertencimento difícil de rastrear.

Carregava na cabeça insone a certeza mais absoluta de que todos os seres sentiam coisas, de que eles todinhos andavam no mundo a precisar de interação compreensiva, que precisavam de amor, que havia muitas novidades a aprender, muitas coisas mesmo. E se possível fosse, traria consigo sempre o que lhe rodeava, ligava-se às coisas com uma solidez e entrega desproporcionais, excessivas, a julgar pelos olhares dos outros.

Daí as despedidas configurarem mistério sinistro, quase mórbido. E todo ano era a mesma coisa, o mesmo sofrimento, despedir-se das pessoas que ali ficavam sozinhas umas com as outras, e ela sozinha, os pais, os irmãos sozinhos também, como se as despedidas soltassem bolhas enormes que isolavam as pessoas umas das outras.

Ficavam lá com seus pensamentos e não conseguiam mais falar por um tempão.

Era doído sair da casa onde despejava diária e torrencialmente sua pequena vida, os objetos passariam a inacessíveis, os cheiros de cada canto, a luminosidade das partes do dia. As pessoas, não veria mais, a paisagem das janelas seriam abandonadas, mas não era por mal, era inevitável. Despedir-se lhe doía de véspera.

A mãe garantia que partir não devia ser para tanto, que era, no fundo, coisa muito corriqueira, de todo dia, mas tinha paciência com ela, às vezes mamãe dizia mesmo grandes besteiras, e pra não preocupar a pobre fazia o seu melhor, fingia compreensão.

Agora imagine ser corriqueira a perda do abraço daquela tia gorda e quente, cheirando a bolo com café?! Os primos comparsas deixados sem reforço, a bisa ali perenemente a reclamar sem seus ouvidos ocos de criança, as primas grandes sem ter quem levar nos passeio de bicicleta pela cidade. Imagine se isso podia ser corriqueiro. E o vazio deixado de parte a parte. A impressão de nunca mais ou de pra sempre que ninguém consegue deixar pela estrada sem fim.  

Então era pegar de novo o longuíssimo caminho do tapete cinza, e pronto?

Pensar na hora do abraço de adeus dava dores na barriga, prendia o ar no peito, dava uma vontade de chorar que era muito maior que as coisas mais grandes. Seus olhos ardiam muito tentando fazer barreira contra o que cismava em transbordar. Descobrira, fazia pouco, que seu queixo também a denunciava, nunca soubera da traição, até outro dia quando a mãe, num ato de generosidade liberou “quer chorar, chora”. Como ela havia adivinhado? O queixo contraía-se, delator.

Mas esse ano tudo seria diferente, não ia mais chorar, não ia se despedir, e o esconderijo era bom, dentro do carro não havia o risco de ficar pra trás. Estava a salvo. Não responderia aos chamados lá de fora, ficaria ali bem firme e não ia chorar.

Olha só quem está aqui?! O que você está fazendo aí?

Ué, estou indo embora.

Você não vai se despedir das pessoas?

Não.

Mas minha filha, elas amam você, vão ficar com muita saudade, se você não se despedir elas ficarão sem o abraço de recordação!

Pronto, tarde demais, as lágrimas faziam já enchente no rosto miúdo.

Vem cá vem, sem chorar, enxuga esse rosto, não precisa chorar minha filha, a gente volta nas férias.

Aos soluços era impossível responder à mãe. Chorava pela tristeza da despedida, por conta da frustração de ter sido mais uma vez vencida pelo que vinha sem explicação e não tinha necessidade. Chorava de não conseguir obedecer à mãe.

Mas o que é isso?! Tem necessidade dessa choradeira toda? Se acalme, pare de chorar, é só um abraço, dizer tchau e pronto.

Nunca foi assim, nunca seria. Houve até um tempo em que acreditou na conquista de algum controle sobre as emoções, mas ilusões têm prazo de validade. Despedidas a fazem chorar, experimenta a finitude real das coisas e a riqueza infinita da troca amorosa, duas realidades que se olham, refletidas na despedida. Sempre o mesmo nó na garganta, o mesmo aperto no peito, o mesmo gosto salgado de choro preso tornando a saliva espessa, a mesma pontada na barriga. Desistiu de dominar, de esconder e de não mais chorar. Os abraços são regados à lágrimas prenhes de amor assumido.

- Elis Barbosa

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Delirante


Dentre tantos e todos os sabores que estar aqui inclui, consolam minha perturbada não matéria (a qual me nego nomear, cansada da repetição dos nomes de sempre) duas vistas de janelas, a do possível regresso, e aquela donde não se vê muito, posto que pertencendo ao imprevisível os movimentos ali são rápidos, guardam surpresas.

Vê como a perturbação é real? Isso de a saciedade não passar de brevidades, e cultivar a fome (sem qualificá-la para que não se limite) ser considerada mesmo uma arte necessária à resignificação de si, e para tanto do entorno. Será salutar essa atenção ao que sequer está ali?

Sem querer resposta sugiro propositalmente despretensiosa que desdobrar-se e passear por horizontes ausentes é absolutamente usual e até razoável, uma vez que nada. Não há razão nenhuma para se cultivar imaginação, dar-se ao prazer da brincadeira de faz de conta é só conseqüência das estórias contadas cheias de encantamento fazendo brilhar os olhos da criança, imprimindo no que se carrega ao eterno o desejo pelo sonho.

Renego solene e teimosa abandonar o presente, o passado, e o futuro à naturalidade de serem tão somente passagens. Ficam todos comigo o tempo todo em imagens sempre redecoradas pela fantasia, são estórias reinventadas ao gosto da hora, à necessidade da saudade, ao desejo do que projeto no que seja o por vir. Ardil perigoso é a imaginação, especialmente se temperada à atenção constante do que pode estar por detrás da neblina risonha que se compraz na traquinagem do esconde-esconde.

Ardil perigoso imaginar, sonhar, mais perigosa ainda é a coragem que, de mãos dadas à excitação de sentir mais e de novo, confere ímpetos de liberdade aos que, então, se lançam a viajar. Ora, mas se estar aqui já não é em si tarefa de grandes riscos?! De modo que se não há saída (nem eu a desejo) resta a integridade na conduta comprometida em ser inteira.

Sem as travas de segurança, seguindo o cheiro do vento, que é viajante por natureza, anseio nervosamente pelos insondáveis caminhos e inevitáveis acontecimentos rompedores de previsões feitas pelo velho maltrapilho e fedorento que é o Tédio. Todavia, não se enganem, ele nem é velho de verdade, é criança sem estórias a fim de provocar malcriação certa por parte dos que lhe desprezam.

Anseio pelo que ignoro para enfim sabê-lo, e sabendo-o poder colorir fantasias, espalhar no chão imagens e dispô-las de modo que a cada vez configurem invenções diferentes, inesgotáveis estórias, fontes lindas de chocolate, chás, cafés, e água do tipo fresca e insipidamente doce como são as águas boas. Lugares que alimentem aquelas fomes que nunca passam, servindo igualmente ao propósito de cenário dos encontros que já foram, mas por pertencerem à eternidade se repetem ali, dos que estão sendo nesse exato momento e enchem os olhos de muitas coisas, e dos que serão sem nunca, jamais suspeitarmos disso.

Agora preciso ir, meus animais me esperam para uma mesa redonda sobre novas rotas para os passeios vespertinos.

- Elis Barbosa

domingo, 24 de outubro de 2010

Galopes do Tempo

Seguem os dias, alheios aos que deles vivem, inalteradas caminham as horas, contadas pelo que é a melhor representação da angustiante passagem do tempo, o relógio. É sempre motivo de perplexidade dar conta de quão competentes são os homens nisso da representação. Protagonistas mansos de incríveis metáforas cósmicas, dedicados co-autores das mais finas ironias. Refiro-me ao relógio nesse caso específico, a pretexto mesmo de passar o tempo até que chegue a hora exata de dizer o que me vai por dentro.

O relógio é máquina dotada de elementos que fazem do tempo tormento. O de sol, primordial marcação da natureza, reflete imediatamente o caminhar luminoso e finito das horas. Foi abandonado por modelos mais portáteis, estes emitem despudorados os sons da dança constante dos ponteiros, o tic-tac-tic-tac-tic-tac que não cansa, nem se contradiz, nem tem vontade própria, seguindo indefinidamente num ritmo só e nada mais. Os mais sensíveis acharam de inventar ainda os modelos silenciosos, que torturam às cegas por não pronunciarem seus caminhos.

A passagem do tempo guardado dentro das horas contadas angustia se temos pressa, arrasta-se. Tenciona ao escapar veloz antes que se finde a necessidade das obrigações. De todo modo há beleza nessa invariável corrida repetida nos limites da circunferência, sabidamente infinita, dos relógios: a ânsia pela invenção de certeza. Concederam-se os inventores do relógio a ilusão de pelo menos uma certeza em meio ao caos imprevisível que nos cerca, a saber, o formato do correr das horas, dos dias (igualmente numerados e nomeados). Conforta-os o enquadramento seqüencial dado à passagem do tempo, depois das duas horas vem as três horas, sem chance de haver poréns vão se sucedendo.

Ora, se quero dizer que as horas são iguais e que há certa beleza nessa ilusão, posso também querer dizer que o recheio delas traz deliciosas repetições, como se estas pertencessem às horas. Assim, vou sendo tomada pela lembrança dos cheiros da manhã misturando o café, o marido morno e sonolento na cama que nos oculta do mundo, a pasta de dentes, o cheiro da casa dormida rareando ao abrir das janelas.

Ponteiros a correr, o alho e a cebola tiritam no refogado para o almoço, o vento de fora pitado de maresia, o cigarro aceso, a comida servida quente, mais café. O cheiro do banho abrindo a tarde vinda sempre mais cedo que o desejado. Não que a tarde seja indesejada, só o emprego dela é mal entendido pelos homens, cuja estúpida maioria cisma em trabalhar nas horas da tarde, deixando essa impressão de descanso roubado. As manhãs e as noites são começos, e entre os começos a continuidade pede uma pausa, daquelas de botar em ordem a vida de dentro. Tarde, moram nela as horas do pensamento, pensar entre o dorme e não dorme revela mistérios que, se muito indigestos, ficam por ali confundidos com sonhos.

As horas marcadas por partidas e encontros vêm acompanhadas de seus respectivos beijos de despedida e regresso, cada qual embrulhado nas ansiedades próprias de quem chega, de quem vai, de quem fica, de quem espera. São possíveis certas variações de sentimentos, mas as horas seguintes a tais marcos têm uma intensidade toda particular.

Os movimentos de breves saídas são igualmente repetidos às mesmas horas para que se cumpram os rituais dos compromissos mundanos, confere na bolsa os celulares, carteira (dinheiro!), chaves de casa, livro pra qualquer eventualidade. Saudade do que ainda nem foi deixado e para o que se retornará dentro de poucas horas “considerando que temos a eternidade”, fala que certamente pertence a outrem, já que não tenho ilusões de tempos desconhecidos, e assim me parece a eternidade. Teimosamente finjo algum consolo ouvindo essa sentença, afinal, é de bom tom ficar com a ansiedade que nos cabe.

São infinitas as repetições prazerosas e pesarosas que certas horas trazem em seu bojo generoso, de modo que, sem mais delongas chego à hora de dizer, e o faço muito crente, que só no aconchego do ninho do tempo pode se desenrolar o milagre da recriação nossa de cada dia, é lá que se fazem as vidas. Só lá , olhando atentamente, damos conta do fato indelével de que “todas as vidas são extraordinárias, que todas são uma bela e terrível historia”.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Back and Forth


O caminho era longo, luminoso no campo, na cidade. O mar era possível e os dias certamente se apresentavam assim para a fruição de toda a extensão da vida. Entenda-se vida aqui como a coisa em si, os dias sucedendo, o corpo respondendo saudável, limpo, certo, muscular, posto que pelos vinte anos quase tudo vibra é no corpo mesmo, e por mais profundo que se pense há tão somente a possibilidade do vir a ser, o percurso a explorar.

As iniciações têm mania de marcar, e a carne era tenra, fresca, sequer sabia que estas mesmas iniciações serviriam de alimento para quando já soubesse mais de si e de alguns caminhos a tal ponto de estes não passarem de replay, reestréia.

As cortinas estavam bem próximas de se abrir sem que se tratasse mais de ensaio, agora era de verdade, agora se libertaria de todas as amarras e ranços que vendavam seus olhos para um universo ainda desconhecido. Assim intuía. Ninguém mais saberia de seus percursos, caso não fosse seu desejo fazer sabê-los, seria finalmente dona de si, desbravando corajosamente a cidade imensa. Não tinha medo, na mochila carregava tão somente certezas, ia leve de jeans e camiseta. Mulher em botão ajeitava os óculos e seguia sempre em frente.

A ignorância é a primeira mãe da gente, é tão menina quanto somos nas estréias, e por isso não conta dos perigos nas curvas, dos acidentes de percurso, dos obstáculos imensos, ela também não os conhece, embala-nos alegre e amorosamente até a porta das coisas e despede-se confiante justamente por não saber.

Aquecida pela própria natureza, num abril que antecipava maio, necessariamente, entra em cena a heroína tragicômica (como convém aos anos juvenis) do que estava em cartaz, construindo o roteiro da história que contaria mais tarde, rica de tudo que achava fácil na teoria, cheia de ternura.

Dez anos passados aprendeu que por força do tamanho do mundo é necessária alguma cautela, portanto nunca mais se despediu da ignorância definitivamente, melhor deixá-la ficar, junto ao tempo, ambos parte do elenco fixo. O tempo, esse que passa a conhecido depois de não se ter sabido esperar, exibe muito garboso de si seus desdobramentos multidimensionais. Aprendeu que ter coragem é admirável, mas a prudência pode fazer economias incríveis; que desbravar é um compromisso às vezes subliminar, sem o qual não se cresce; que é a entrega irrestrita o seu caminho para a compreensão das coisas, e que essa deve ser praticada ainda muito para se considerar aprendida; aprendeu que nem todo mundo morre literalmente de amor, mas que a ingenuidade de se acreditar que a passagem do tempo restituíra o que se foi com a história é coisa de amador.

Refaz as trilhas conhecidas para não perder o mapa de si, tem vício por rever os caminhos, sofre de um apego terrível à memória, posto que não pode carregar consigo o que embala a saudade, acaso pudesse a danada viveria a ressonar suavemente e deixaria de lhe causar insônia. Reedita histórias, sempre mais lindas, à medida em que suas fronteiras se ampliam, que novas paisagens surgem e o olhar suaviza de tanto se surpreender. Volta, é bobagem omitir, a visitar amados que já não fazem parte deste Ato, mas que ama ainda com um carinho indizível por serem lindos, humanos, e por a terem amado, guardando em seus alforjes a pedra do desejo pela eternidade.

Blimundamente me alimento do pão do passado para melhorar as vistas do presente e não ter fome de previsões futuras.

- Elis Barbosa

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

?!?!


Peito para fora, barriga para dentro. Morena ela, puxou ao pai. Não chora menina, por tudo você chora! Tem coxa grossa ela, olha, e ainda nem botou corpo.

Pensa demais essa garota. Postura menina, fecha essas pernas. Cala essa boca. Mania que ela tem de achar que sabe das coisas. Não sente mais no colo do seu avô, nem dos seus tios. O que é que tem não fazer sentido, é assim e pronto! Declama lindamente. Só você tem que criar problemas. Escreve muito bem. Abusada. Vai. Devagar. Fala você.

Muito inteligente ela, toca piano sabia? E essa postura, vai ficar corcunda. Sabe que às vezes eu tenho vergonha de você. Parabéns, você falou muito bem, mas não esqueça que as pessoas não estão prontas para ouvir tudo. Vai ser um mulherão. Controle-se. Nada de vaidade.

Ela é assim mesmo. Acho que você nasceu na família errada. Acalme-se. Fale alguma coisa. Me ajude. Está ficando uma moça ela. Se você não mudar esse gênio ninguém vai te querer! Como pode ser fria assim. Essa sua sensibilidade exagerada não vai te levar a lugar nenhum. Não sorria tanto. Não seja tão antipática. Minta. Não falte com a verdade.

Se você continuar desse jeito vai ficar gorda. Inteligência é mais importante que beleza. Feia? Não. Ponha-se no seu lugar. Você pensa que pode enganar todo mundo? Só essa bunda que não diminui. Saia cumprida! Ela é grandona né? Bico do peito escuro. Morena, puxou a família do pai.
Saia deste lugar! Você pode o que quiser. Fica. Você não merece. Vai ter coragem?

Vai longe essa menina. Se não fizer o que eu digo não vai a lugar nenhum, escuta bem, você nunca vai conseguir e vai voltar para esse mesmo lugar! Quer fazer psicologia, não adianta, é uma teimosa. Está prestando vestibular para direito, tem dom para coisa.

Muito difícil ela. Não adianta falar.

Vem cá, volta aqui! Traidora, foi-se embora, e antes de ouvir tudo o que tínhamos a dizer!

Essa menina...

- Elis Barbosa

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Súbito

As notas musicais que escorriam insinuantes por toda a sala, à meia luz, pediam entrega, elas mesmas pareciam render-se, e ficava ainda mais sedutor deixar a alma sublimar.

Fluido, a sala, o vinho, o som, os cheiros. Substanciadas as coisas em fluido ficava tudo tão mais leve, tão mais fácil, dava a impressão de ser inofensivo e inevitável o inusitado.

Prever é parte de planejar, só tem que dessa vez a previsão tomou um susto e os fatos ocorreram à revelia dos planos. Combinavam, os tais fatos, tão mais com o desejo presente que com o bom-senso de organização do universo, que ficou o dito pelo não dito.

Pois que na foto ficou quase nítido que talvez seja mesmo o improviso que acorde os melhores arranjos....

- Elis Barbosa

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Classificando gente... classificando eu?!



Esse fim de semana, numa daquelas situações curiosas que a vida, tão generosa, nos proporciona, encontrei-me em meio a uma discussão, digamos, interessante (?!), cujo interlocutor me interessava, na verdade... Enfim, atenta, pus-me a ouvir sobre a teoria de que as pessoas, no geral, podem ser enquadradas dentro de um perfil específico, dentre os diversos perfis dados pelo senso comum, que podem ser classificadas mesmo e que, desdobrando, pode-se inclusive saber antecipadamente “onde” chegar com cada uma delas se houver algum conhecimento de causa na questão dos perfis. And so on...

Direto ao ponto que de fato me interessava conhecer pergunto a pergunta óbvia e necessária, para ouvir que sou uma mulher de difícil classificação, que apresento algumas complexidades que tornam o meu enquadramento nos vários perfis existentes por aí uma questão delicada, mas que, com certeza absoluta (o absoluto foi contundente!), não sou a única a ser assim do jeitinho que eu sou.

Se foi um elogio ou um comentário honesto demais para a ocasião, eu mesma não saberia dizer, de qualquer maneira, olhando pelo lado bom da coisa, pode ser... então, decido não concluir nada de tudo isso, a não ser, talvez, de que sou assim, desse jeito aqui mesmo.

Idiossincrasias à parte, contradições à parte, peculiaridades à parte, e não sei nada de que parte falo aqui, fica o conforto da certeza alheia, que pego emprestada, de que não sou a única a ser assim, lembrando que “assim” não ganhou descrição específica, nem vago enquadramento, mas enfim, não sou a única.

Isso de, certamente, não ser a única me deu uma vontade enorme de fundar um clube, um clube de pessoas que são “assim”. Sendo o “assim”, dito pelo outro naquele esforço hercúleo de descrever algo que simplesmente lhe escapa, como a única palavra que pode conter tudo que te cabe, vindo a palavra “assim” acompanhada de uma expressão facial contraída com um sorriso cheio de dentes e um olhar de incompetência ao que se propõe (?!).

Houve efeito, não se pode negar que todo esse falatório teve o seu efeito e, de repente, me ponho a escrever na tentativa de reordenar o universo para inserir nele esses elementos descritivos de mim, ou ao menos, de um mim que o outro simplesmente contempla em total perplexidade.
Confesso, eu quase, mas quase, me senti especial.
- Elis Barbosa

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Tentando



And I keep on making up stories, hoping that through them I might finally find one that makes sense, giving me the possibility to then, put my heart at rest…

Eu gosto daquele da carta, sabe qual é? “Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas!” como não? Olhavam-se, partilhavam um segredo público...

Mas essa história não é como as outras, teve um final horrível... você sabe, você estava lá! VOCÊ viu, sabe exatamente como tudo foi destruído! Quebrado, aparelhos domésticos, minha cara! Tudo na véspera do meu aniversário! "Nunca conheci quem tivesse levado porrada, todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, esse é outro bem bom! Segunda chance, cara: você não ia gostar que houvesse uma segunda chance?

Não!!! Não, me interessou a época e não me interessa agora!!! Rindo o outro joga, digo em geral, na vida, ideologicamente? A recobrar-se do embaraço segue o balaço, na vida, no mundo das idéias sim, mas para isso não, é tão passado que me deixa enjoado...

Tudo bem, não esta mais aqui quem falou, esquece...
............................................

“Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra...”

O que?

Nada, estava me lembrando do poema daquele cara, como é mesmo o nome dele? O Carlos Drumond de Andrade?

Isso! Isso, genial ele! Não foi esse cara mesmo que escreveu aquele: E agora José?

Laughs

Foi cara, foi esse mesmo!

Pois é, como diria ela mesma: a pertinência temática é coisa muito curiosa!

Como assim, como diria ela? Sabe dela?

Eyebrows up.

Que?

Que o que cara, responde... sabe dela? Pausa dramática!

Sei, sei sim.

Cara de espanto, eyes wide open, seguida de lábios apertados. Pausa dramática e indefinida... Bom, vou indo nessa, ele diz levantando-se de braços abertos para o abraço de despedida.

Espera, sabe dela? Eu sei, mas você não. Além do mais, vamos manter aqui uma ética, certo?

Sim, sim, claro.

Valeu então cara! Valeu!

Te ligo para avisar da festa da minha festa, e vê se não esquece o presente! Risos nervosos.

Beleza, fica com deus! Não, obrigado, melhor levar ele com você.

Abraço apertado, com direito aos tradicionais tapinhas nas costas.

O outro, enfim a sós consigo mesmo, senta de frente para a máquina que, fria, não lhe deixa opção que não a de ser manipulada...

Entra, abre................. fade out.
- Elis Barbosa

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fechando malas, abrindo portas




Acabo de fechar a mala que venho desarrumando faz uns dias e dou pelo fim de uma viagem ao contrário, fiz uma viagem de volta. Chego agora de longe, de um tempo que não afastei do coração. Fecho a mala e tomo um susto ao me deparar com o presente.

Evitei tanto quanto pude o amontoado de palavras que havia guardado naquela mala, já que nunca me pertenceram, foram palavras emprestadas num tempo em que era tênue e transponivel a linha que nos dividia um do outro e nós do mundo. A mala que guardava os últimos resquícios materiais, as últimas pistas, os últimos recados deixados em papeis que diziam tão menos quando não tinham sua assinatura.

Não tenho mais melancolia, tenho saudade, guardo o desejo de podermos um dia, quem sabe, trocar sorriso e nos cumprimentar, pois foi uma luta justa.

Dividir novamente, talvez, tudo aquilo que só pode ser dividido naquela configuração, e em nenhuma outra. Sou grata por tudo.

A mala, descomposta, continua existindo, as palavras se foram, quase todas dispensadas. Mas algumas, decido que ficam, inclusive e especialmente aquelas sobre as quais seu nome foi rabiscado, não resisto, essas tiveram sua redenção marcada no dia mesmo que queimou teu duplo no meu peito!

Brega! Vejo tua cara linda se retorcendo enquanto fantasio que me lês, mas como sempre, nem ligo! Ora, também como poderia eu ligar se não tenho seu número? Não, esta não é uma mensagem subliminar, é um grito de saudade da amizade resistiu.

Todas as cartas de amor são ridículas, senão já sabe, o que seria de mim e de todos aqueles fulgurantes seres epistolares que até em cartas deixaram legados literários (não me incluindo nessa coisa de seres fulgurantes), que tiraram corações do saco, descascando-os impiedosamente com todas aquelas palavras de entrega!

Amores, melhor não tê-los, mas se não temos, já sabe de novo.
Quem lê entre linhas? Quem lê as letras miúdas anyway?

A verborragia acima exposta se deu ao som de muita Bethânia. Sim prezados, ando ouvindo Bethânia e respirando horrores, gozando Ney para ver se consigo, nem que seja por osmose, uma pitadinha daquela graça andrógina, e nesse momento o Monobloco (ao vivo) chama minhas cadeiras para o baile!

E ela disse que tinha o seu próprio gosto musical agora! Deus me livre! Ups, ainda sou ateu.

Fechei a mala, mas não as portas.

Beijos querido,
- Elis Barbosa

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Para o ano nascer feliz...


Dizem que a boca fala do que está cheio o coração… e por que não dizer: também os olhos vêem através do véu tecido pelas emoções que abarrotam o peito do indivíduo?

Era uma vasta multidão a que me rodeava... e dizer vasta de multidão não é tentativa de fazer graça ou de bancar a estilosa, é a redundância necessária para dar a idéia exata do mar de gente fazendo margem comigo.

Então:

Era uma vasta multidão a que me rodeava... fazia margem comigo um sem número de pessoas de todos os tipos, vindas dos mais diferentes cantos, cada uma buscando seu lugar ao calçadão, a areia havia sido tomada desde muito antes daquelas horas. O objetivo comum era comemorar a virada do ano de 2008 para o ano de 2009.

Uma passagem, uma passagem apenas, por onde queriam “passar” dois milhões de pessoas ao mesmo tempo, tudo aqui e agora... todas as preces, todas as expectativas, todas as curas, todas as concretizações, todos os sonhos, tudo sendo vibrado num coro silencioso de olhos arregalados, bocas levemente apertadas, mãos retesadas e um grito surdo que os fogos estourando desordenadamente em meio a uma fumaça muito espessa tentavam abafar.

Pode até ser traição, mas o que meus olhos viram nos olhos dos que me cercavam foi um medo que tinha o mesmo tamanho do desejo, uma solidão na exata mesma proporção do amor que se tinha a oferecer, e ausência de esperança. Foram poucos os abraços distribuídos, foram poucos os gritos de euforia, foram muitos corações apertados pela mão que tenta esganar, a todo custo, a esperança de dias menos conturbados.

Se possível fosse, providenciaria uma mãe, ou coisa que o valha no sentido do acolhimento, para cada um dos que ali estavam (eu incluindo). Tive uma dó bem muito grande e uma vontade de poder garantir que tudo vai ficar bem...inclusive para as crianças de Gaza que ao contrário dos que ali estavam não tem qualquer previsão de quando os estouros que lhes arrepiam vão parar!

- Elis Barbosa

domingo, 21 de dezembro de 2008

Atenção ao toque sutil do Oriente



Ainda bem que o inusitado faz parte do cenário onde atuamos nesse mundo! Para ser honestíssima, tenho a impressão de que se trata de 90% de improvisação e 10% de episódios ensaiados, previsíveis, o que no meu universo dizem respeito às contas, que sempre vêem, e à morte, única certeza que podemos ter na vida! Tudo tão irônico e gozado...

Bom, isso tudo para dizer que graças ao inesperado chegou às minhas mãos um livro que muito provavelmente não chegaria por outras vias, A DANÇARINA DE IZU, do ganhador do Prêmio Nobel de 1968 Yasunari Kawabata. Um livro breve, como o descreveu o rapaz na livraria... mas tão intenso na sua descrição viva dos acontecimentos que é como se acontecesse agora. As palavras simples e a construção direta do texto são como os golpes de arte marcial que vejo por aí, belos, precisos e sobremaneira eficazes.

A dança das sensações e o tempo em que elas são descritas é oriental, viver um dia após o outro sendo cada momento a única possibilidade real de se viver a intercessão entre passado/presente/futuro. O tempo deles parece diferente do nosso. Esta é mais uma historia oriental em que a origem das coisas não importa, a narrativa começa onde começam os acontecimentos que serão narrados e volta-se ao passado somente o necessário para as referências de família. Que alívio... não se vai ao futuro que não seja o que vem imediatamente amanhã é o que dá para tentar planejar... quem sabe....

E finalmente o que mais me impressiona até agora (não terminei de ler essa peça) : o frison que causa a imagem, e tão somente a imagem do ser que inspira o desejo no outro, não é preciso nem se tenta o contato para a posse, há apenas o desejo... a dançarina é o que é e como é e isso não se questiona, há apenas o desejo de que o seja nos limites do campo visual de quem a ama.

Tudo bem que essa não-posse pode ter muito mais que ver com o fato de o rapaz que a ama ter apenas 19 anos, tempos em que não se pretende mesmo possuir nada, pois temos sobejando de um tudo dentro do frasquinho de nada que é o corpo... mas não quero saber dessas racionalizações ocidentais, quero só acreditar que existem outras formas de amar que não apenas as que eu conheci até agora... afinal, ainda tenho muita estrada para caminhar!

- Elis Barbosa

domingo, 14 de dezembro de 2008




Os dias vão seguindo-se um ao outro e depois de novo ao um… cada qual ocupando seu lugar na fila e caminhando no passo de 24 horas cada um... a fila não anda! A despeito de o conselho ser “vai fazer essa fila andar garota!”, a realidade é que simplesmente não pode ser assim...

A despeito de qualquer feita, a despeito do valor da coisa em si, de ela estar boa ou ruim, perder, chegar ao fim, terminar, despedir-se, separar-se na bifurcação do caminho que era um e volta a ser dois é uma MERDA! Sim, uma merda!!! E não, não encontro palavra mais triste, suja e irk que possa expressar o estado em que fica o indivíduo ao separar-se de, seja lá o que for, depois de um tempo considerável envolvido, na concepção literal da palavra, com o outro.

O momento do adeus magoa pela sua natureza mesma de separação (não há separação sem dor!), o que pode sempre piorar se em cima do couro magoado vierem sentando o sarrafo com desdém, fazendo pouco da tristeza do momento, da tristeza do outro, de tudo que foi feito, falado, beijado, cheirado, amassado, consolado, despendido de energia e afeto... dói pra lá de bem muito!!! E fiquei assim ó, de queixo caído com as coisas que ouvi, que vi e que senti... Uma coisa assim que não se descreve, só todos nós que já passamos por isso sabemos do que estou falando! E parece que só para compor o cenário chove no fim de semana... Caracas!

E esse texto só esta essa porcaria porque até sem palavras eu fiquei... mas descansem, não hei de sumir, vou dando notícias...

- Elis Barbosa

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Texto inacabado


A aridez natural com que os dias correm a passar um pelo outro, e depois pelo um e de novo pelo outro, e assim sucessivamente, não satisfaz a sede de intensidades diversas que têm algumas almas inconformadas.

A aridez pode ser e, normalmente o é, intensa à sua moda, e vazia, vai deixando tudo sempre como sempre foi e vai cuidando para que se tenha o mais absolutamente necessário à sua reprodução. Essa ao menos é a aridez que conheço. E confesso: às vezes posso até gostar dela, depende do grau de canseira que tenha me dado a vida, mestra em dar na gente corridas dignas das “corridas de cachorro” que me acometiam na infância brejeira!

As “corridas de cachorro” eram emocionantes, não há como negar, pois promoviam um rebuliço interno, várias emoções... vejamos: havia o medo da fera horrenda em que se transformava o vira-latas, adrenalina à mil; havia a força física empenhada na corrida com a certeza/esperança de que mais uma vez se escaparia de mais esta prova de fogo; havia finalmente o gozo de se passar por todos os obstáculos deixando para traz o animal que ainda ladrava mas agora sem assustar! – Vitória! Ponho novamente a ilusão de o homem estar no controle de alguma coisa sobre a face desta terra.

Curioso como não é possível fugir às analogias que essa situação banal suscita! Bem, de qualquer maneira, falávamos de aridez e não de aventuras, logo...

Todas as almas, “o primeiro princípio do seres vivos”, são diferentes umas das outras, mas...

Voltando: existem as almas inconformadas, almas que sairão das fôrmas com defeito, que não se enquadraram direito no momento em que se concebiam, ou sobrava, ou faltava ou simplesmente não se encaixa adequadamente à forma. Agora veja você, que coisa mais intrigante, almas com defeito... sim, porque a matéria é passível de deteriorar-se ou ainda de já começar a existência apresentando diferenças tão drásticas entre uma forma e outras formar que chamam essa matéria de defeituosa, embora esse chamamento seja politicamente condenável, mas almas?

Pois é, ao que me dizem as fadas, acontece com as almas que elas têm de sair para algum lugar e que não há lixão nem hospícios para almas com defeito, onde muito provavelmente elas não incomodariam ninguém! Então acaba que, mesmo inconformadas elas são jogadas no mesmo lugar que as almas boazinhas, sem defeito de fabricação. Almas que passam sua existência naquele estado de contemplação celestial que não atrapalha ninguém, como os anjinhos-criança pintados nas catedrais!

O que acontece então? Arrazoemos um momento sobre isso utilizando um método bem objetivo, a equação:

AI + AB / EF = ?

AI = Almas Inconformadas (com defeito)
AB = Almas Boazinhas (tilintando de normalidade)
EF = Espaço Físico (as Almas dividem o mesmo espaço físico!)

Olha só como serviu para alguma coisa todas aquelas horas de tortura infinita da mente que, feita de palavras, tinha de ler números e falar com eles através de outros números!
- Elis Barbosa

segunda-feira, 30 de abril de 2007

De novo e de novo

Como se fosse a primeira vez (50 Dates)

Estou assistindo um filme que conta de uma mulher esquecida. Foi um acidente de carro que não mais permitiu a transformação de memória recente em memória. Durante o sono tudo que se passara no dia anterior desvanecia. Como se sonhasse ao contrário?
Todos os dias voltavam a ser o dia em que ela se acidentou, àquela exata manhã em que tudo aconteceu antes de acontecer, mas ela não se lembra!

Então, chega essa cara, que não se acidentou de carro mas que, acidentalmente se apaixona por ela, justamente por canta de ter de conquistá-la todos os dias. Fantástico, perfeito, já que para os mais medrosos esse é um dos caminhos contundentes, e forma “casual” de se apaixonar, a saber: tentar fazer o outro se apaixonar por você!

Bem, só quem já se apaixonou assim sabe do que estou falando!

No fim do filme é claro que apesar das dificuldades eles ficam juntos, e todos os dias pela manhã ela é lembrada de quem é surpreendendo-se com a vida feliz que, de alguma forma, está vivendo. Todo dia é um recomeço literal e o identificaram como uma lesão no cérebro, soou para mim quase como um presente. Pense, todos os dias recomeço?
O que você faria se pudesse recomeçar? Pense em pelo menos uma coisa que pudesse recomeçar do começo, como seria?

Com todo amor do mundo,
- Elis Barbosa

terça-feira, 24 de abril de 2007

Então...


Hoje eu conversava com umas amigas e nós falávamos de evolução... lançamos no ar, junto com nossa fumaça, frases clichês e fáceis e que de tão verdadeiras que são não se importam de ficar por aí, de boca em boca, ajudando sempre que nossa genialidade superficial nos falha...
Então, conversávamos e cheguei à essa hora pensando em como é preciso coragem para viver essa porra de vida incrível (incrível de se poder acreditar nas coisas que nos acontecem)! E você pode ter tudo, mas se não tiver coragem parece que o carro não parte, que a coisa não engrena...
Isso de viver é um eterno salto no escuro. Realiza: você na beirinha tem que pular ou vai ficar na beirinha pra sempre e vamos combinar, pra sempre é tempo que não acaba mais... e você pula, ou cai de cansaço daquele pra sempre grande e pesado, fato é que você não pode deixar de ir! Não tem como evitar...
Isso de viver é como um surf louco com as ondas mais surpreendentes e lindas... uma pessoa uma vez me perguntou como é que eu ia fazer para segurar a onda?! Eu pedi uma receita... como é que eu faço pra segurar a onda?
Resposta: Imagina uma onda do tamanho de um prédio de 10 andares... agora Elis, prepara, e segura a onda!!! hahahahaha
Sabe que me pego de queixo caído diante da magnitude de tudo isso... e tantas reticências se devem ao fato de que nem todas as palavras que estão passando do coração para a cabeça conseguem sair, receio que cheguem à boca tortas e por isso prefiro não expô-las.
A vida é dura, as pessoas são más, nós incluindo... o mundo vai acabar, pode ser verdade mas não tem saída, uma hora a gente acaba sendo feliz! Nada é para sempre não se preocupe! Daqui a pouco outro bonde passa e você vai acabar tendo de ir... mas quer saber, vai com Deus e com tudo que for teu para coisa continuar nossa!!!
Vidão... não temos mesmo do que reclamar!
Antes que eu esqueça, ouvi outro dia em um programa esportivo um conselho de um campeão brasileiro de surf que quase morreu de onda, ele dizia que quando ela chega, tem de relaxar o corpo totalmente pra deixar ela te levar onde ela quiser, senão acaba te quebrando! Sendo assim: Relaxa e goza!!!!

Palavras adoraveis...

Significados...

Ternura:
qualidade de terno;
carinho;
meiguice;
afeto brando e carinhoso;
tristeza suave.

Curioso como tudo que significa ternura tem a ver com algo morno, exatamente como a sensação que tenho quando penso na ternura que sinto.... até a tristeza pode ser morna quando suave...

Terno:
do Lat. teneru,
mole mole, brando;
suave;
meigo;
sensível;
afetuoso;
que causa dó.

Por que causa dó coisas que são meigas e moles???? Não entendi?!

Dó:
Lat. terni,
de três em três,
grupo de três;
trio;
trindade;
dado ou carta com três pintas;
São minhas conclusões muito minhas ou o dicionário afirma na minha cara que Ménage a Trois é, por assim dizer a concretização mais carnal da ternura??? Bom, se é assim a divina trindade jamais haveria, realmente, de se revelar em um ou dois seres, mas sim em três que parece ser, pelo menos pra mim a partir de agora o número mais terno de todos (será que vem daí a expressão fuleira “trio ternura”????) São os mistérios...

Marcas


Lei no. 9279 de 14 de maio de 1996
Art. 122 – São suscetíveis de registro como marca os sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais.


Penso em como seria se o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI para os íntimos) pudesse regular as marcas nos homens.... e como tudo tem seu lado bom não posso deixar de divagar... e se.... só carregássemos marcas que se distinguissem visual e perceptivelmente? Mais, e se ficassem em nós apenas marcas que não fossem contrárias a moral e aos bons costumes? Hahaha isso seria bom, diz aí!!! E se só pudéssemos apresentar marcas distintas de todas as outras pra não comprometer a concorrência! Já pensou!!!!


Mas não.... estamos fadados a carregar todas as marcas que recebemos... e são inúmeras....Inevitáveis (estou me repetindo?) e formadoras do desenho que vai transformando nossas almas em historias que perambulam dentro de corpos caminhando pelas ruas, passando por nós, que somos também historias ambulantes oferecendo-se, expondo-se, mesmo que sem querer... historias que marcam os corpos nas linhas do rosto, nas palmas das mãos que as cartomantes pretendem ler!


Como se fosse necessário algum dom maior para se sentir as aflições e alegrias que moram nos corpos que vagueiam pelo mundo! Somos tão parecidos que Deus (se ele existe mesmo) deve ter certa dificuldade de nos diferenciar... será que é por isso que existe o tempo como remédio universal para amenizar todas as dores? Sei lá, me escorreu, me ocorreu... me ocorrem tantas coisas quando olho as marcas!


Não carece dom pra se ler as marcas, carece alma! E caso não tenha feito cursos de quiromancia ou de Propriedade Industrial, ainda assim deve se saber ler mãos, olhos, testas, afinal todos temos alma! Ou deixou-a escapar em algum momento por julgar desnecessário aprender a sentir! Caso não saiba ler o que está inscrito em si e/ou no próximo, atenção meu caro, pode estar lhe faltando alma, lhe faltando reconhecer e acolher as histórias de si mesmo!!!


Busque... a busca interna de marcas pode ser algo de muito curioso, interessante e surpreendente, com certeza! Quando você pensa que não vai encontrar qualquer conflito, surpresa! Lá está o puto, gritando que já existe uma marca registrada como a que estão tentando te impingir novamente... o lance é que como quase sempre há uma certa distintividade entre uma e outra marca provavelmente você não vai conseguir escapar e mais uma marca entra pra sua coleção de histórias!

Correndo o risco de plágio, mas sem conseguir resisti-lo eu digo (ou repito?) O TEMPO NÃO PÁRA!!!


- Elis Barbosa

segunda-feira, 23 de abril de 2007

INEVITÁVEL


Do momento em que se vive ao momento em que se morre, literalmente, é inevitável sentir. Digo literalmente posto que ao longo do caminho muitas metáforas destes momentos passam a nos ensaiar, repetindo-se tantas vezes ao longo da efêmera existência.
Vibra a vida, por vezes em tom de morte – tão necessária a segunda quanto a primeira, já que sem contraste não há poesia – para todos os gostos e desgostos nossos de cada dia, vibra quando se repete diversa, insensível, sublinhando as incapacidades, as hipersensibilidades, as distâncias. Nunca estaremos preparados para o que virá, ponderando se nota que para a vida sentida não existe a indulgência da seleção natural, a vibração atinge a todos, nos mais diferentes graus, podendo partir a onda do farfalhar das asas da borboleta, como naquele filme. Não escapa ninguém, somos todos salpicados, batizados por e para existir.
As reflexões aqui espalhadas têm como referência o último turbilhão de acontecimentos que me chacoalham ainda, sobre os quais arbitrariamente escolho não ser explícita, mas que sacodem tudo dada minha própria intensidade e a dos que me rodeiam (cada qual tão particular e inesperada!). De modo que não tem sossego esse meu coração, agitando-se entre possibilidades expostas, como fraturas de ossos, pela sinestesia que o mundo impõe.
Posso ser diagnosticada (e como eu queria um diagnóstico preciso e perene) pelos psicólogos como histérica, de pós-moderna (tão fragmentada) pelos sociólogos, de prolixa pelos ignorantes (que, aliás, nem sabem do que se trata), de eloqüente para os que não tem mais com que se ocupar e dão atenção às palavras que evocam algo tão etéreo como o sentir, em dias onde o que não se prova simplesmente não existe.
Seja como for, escrevo na tentativa, de temporariamente esvaziar o peito tomado por um zumbizar interminável. As perguntas não param de se repetir e ao que parece leva-se uma vida inteira de pesquisa de si, e do mundo, para poder dar conta de identificá-las e poder então, quem sabe, tentar respondê-las. 

- Elis Barbosa
Ansiedade. É na ansiedade que me debato freneticamente por saber que existem tanto as perguntas quanto as respostas, mesmo que ainda não tenham chegado todas a mim nem eu a elas, o fato é (Deus como eu preciso de fatos e verdades que me ofereçam alguma solidez, mesmo sabendo que esta não existe!) que os dias passam calmamente por todo o rebuliço guardado dentro de um corpo só, nesse caso o meu.
Escrevo na esperança de, consubstanciando sentimentos em objeto através das palavras, alcance algum esclarecimento, alguma clareza, alguma coerência, quem sabe alguma resposta que talvez não tenha ouvido sair de mim, mas que se apresente nas entrelinhas destas tantas linhas ordenadas no espaço desta folha de papel virtual, que nem posso tocar, aparecida na tela do computador. O cursor parece tão inquieto quanto o resto do mundo inteiro, será que é ele o responsável pela velocidade com que o tempo, as pessoas, e as coisas têm passado umas pelas outras?
Não sei, não entendo, não me ocorre.
- Elis Barbosa