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domingo, 17 de janeiro de 2010

Ciranda Irresistível


Choravam à beira mar melodias de tempos já idos, que ainda reverberam bem aos que, de alguma forma, permaneceram por lá. O sol despedia-se vaidoso, vibrando seu dourado de fim de tarde, beijando de leve as nuvens que passavam distraídas.

A moça de vestido de barra florida comungava com tudo sem falar com ninguém. Alheia, recusava a dividir o que lhe ia pelas idéias, até mesmo porque, ponderava, não interessava mesmo a questão.

Enquanto deixava-se ser ali, amolecida pela maresia, a música entra-lhe pelas ancas propondo indecente o empréstimo do corpo bronzeado e fresco ao desfrute do movimento. Os batuques lhe faziam cócegas. Sorriu, corou, sentiu.

Pensava para não ir, pois que se não pensasse iria. Com a noite, com a música, com o movimento que vibrava agora no baixo ventre.

A balburdia crescia, o ritmo lhe acariciava a cintura, aliciando. O silêncio dentro dela faz movimentos de se recolher, já vira tudo, e sabendo do que ia acontecer começa a catar as questões espalhadas, junta os poréns, guarda todos na cestinha de praia e vai-se embora.

A graça que vinha de mãos dadas com a brincadeira acena um adeus faceiro ao silêncio resignado. O acaso que passava resolve ficar por ali assim, traquinas. De modos que fazer a saia rodar era o que seria, e as flores fixas, tontinhas, não saberiam bem o que contar do que se passaria.

- Elis Barbosa

terça-feira, 28 de julho de 2009

Suspiros


Cai, com a força de um aconchego saudoso, chuva de fazer amor, bem na boca da noite, e quem fica embriagada?

São os rompantes de inverno no Rio de Janeiro, cidade que parece até mulher bonita (morena, quem sabe?) cheia de caprichos e quereres e, para as que as têm, rabugices.

Acordou ela hoje preguiçosa, fria, com vontade de não ver o sol, acho até que brigaram (ou estará ele de campana por outras paragens?), pois que tem já uns dias que ele não aparece por aqui, justo ele, tão apaixonado por ela que não falta nunca, mesmo quando se supõe que o faria, como em tempos de inverno, aparece nem que seja no domingo, de tardinha, para dar-lhe um beijo de céu azul e ir de novo embora.

Aliás, é mister que nos domingos seja assim desse jeito, o sol e a cidade querendo-se. Sendo domingo o primeiro dia da semana é o certo deixar solar a segunda-feira destes pobres mortais que a habitam!

Tarde de domingo com sol é feito sobremesa para criança que comeu tudinho, biscoito recheado de chocolate com leite (puro!), piscina nas férias de verão, refresco de caju em casa de tia, tirar sapato alto, tirar sutiã apertado, soltar cabelo preso, achar dinheiro no chão, surpresa de amigo, surpresa de amor, companhia de irmã, é um descanso, uma fuga, uma brecha para ilusão, um acalanto doce para o meu coração!

- Elis Barbosa

domingo, 5 de julho de 2009

Indefinivel

Time is a misterious thing… transforma tudo sem que percebamos o quê ou o quanto, por mais atentos que estejamos. Sempre alerta, sempre alerta é o lema dos escoteiros, e o meu também. Contudo, dou conta, de tempos em tempos, que olhar em volta não basta para reconhecer a mim e a tudo que me cerca como meu mesmo! Os ciclos parecem concluir-se antes que possa dar conta deles...

A janela da minha sala dá para a rua, entrega muitas vezes minha atenção à vida dos que por aqui passam deixando sempre um pouco de si pelas calçadas íngremes que levam à Santa (Teresa). Falam, incautos, de suas próprias vidas como se não houvesse quem os ouvisse, falam das vidas dos que conhecem, desafiam-se, odeiam-se, amam-se, como se por alguma razão essa rua oferecesse o abrigo da invisibilidade! Talvez o faça, talvez por isso mesmo eu a tenha escolhido para aqui ser acolhida com o tanto e o tudo que minha estreita percepção é capaz de captar. Passo aqui, de frente para esta janela, a maior parte dos domingos que me sobrevêm, ruminando o que não passa despercebido.

Os domingos, confesso, têm se tornado dos meus dias preferidos, a despeito de toda sua nostalgia característica. E isso do tempo, aqui na janela dos domingos, é tão claro, tão marcado, que posso quase passar seu ritmo e melodia para o caderno de música, como quando dos ditados musicais na casa da professora de piano. Vejo o dia passar todo, enquanto atualizo minhas leituras periódicas, fingindo ao tempo que passa minha indiferença mal disfarçada... vejo o dia adormecer preguiçoso, despedindo-se lentamente, como quem não quer ir! Com o canto dos olhos, vejo da minha janela sua tentativa inútil e letárgica de seduzir a noite trajando o pôr-do-sol mais exuberante, enquanto a escuridão fria e delicada expulsa-o sem remorso.

São incontáveis domingos, e histórias que não se pode narrar, só se pode viver, vivem-nas quem as conta, quem as ouve e quem as protagoniza, passam pela minha janela pululando obviedades, repetindo-se do começo ao fim, dando-se ao luxo de apresentar diversos atores a cada vez que se repete, sempre com os mesmo papeis... as mesmas inquietações, as mesmas surpreendentes alegrias, os mesmo encontros inusitados, as mesmas frases de efeito, sempre tão impactantes aos seus protagonistas!

Há vezes em que até eu, espectadora atenta dessa repetição inédita de todo dia, quero ver novamente aquele mesmo final feliz... O tempo é um elemento curioso, o mais paradoxal que conheço, é absoluto, mas relativo; ameniza dores, mas aumenta saudades; envelhece o corpo, mas engrossa a coragem; marca o rosto, mas apaga mágoas; passa, mas nem sempre... há ainda o que fica suspenso no tempo e no espaço, indefinidamente, a ser vivido.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 5 de março de 2009

Brinca, brinca...



Num ritmo seu, no qual raramente tenho a oportunidade real de interferir, o movimento vai seguindo a trilha necessária. Os dias repletos de recados, sins, nãos e muitos, muitos talvez. Sempre a brincadeira da adivinhação e eu péssima com sinais. Pistas a cada esquina e só me resta recolhe-las para, quem sabe um dia, conseguir montar o quebra-cabeça, já que agora tudo bóia numa tigela imensa, cheia até a boca , de sopa de letrinhas.

É no que dá infância entre livros, revistas e histórias, mas brincava bem muito de passa anel e ninguém nunca acertava quando era a minha vez de soltar a jóia na mão escolhida. Sabia fazer mistério, mas ainda não sei desvenda-los. E pareço sabe o que? A cabra-cega, de olhos bem cobertos tateando, tentando encontrar.

Contam, contam indefinidamente, e era tão fácil encontrar esconderijos então. Os lugares me cabiam, o corpo obedecia às manobras mais tortas, o coração batendo forte quando quase descoberta, e a corrida desesperada, se enfim descoberta, na tentativa de isentar-me da tarefa de ser a próxima a procurar. Afinal, já disse, fazer os mistérios sempre foi infinitamente mais fácil que desvenda-los.

Caí, como eu caí, as marcas no corpo denunciam sempre nossas aventuras, esta testemunha inquieta, saliente, fazendo rastro dos lugares onde estivemos, cheio ainda das frutas que comíamos sem lavar (amoras, amoras), impregnado das gargalhadas e excitações das brincadeiras que brincávamos.

Muda tão pouco de tudo isso, ao menos assim me parece quando atento para dentro, muda tudo quase nada. E me pego, mais uma vez, bem quietinha, respiração contida, de coração na mão, só esperando o momento, às cegas, tateando cuidadosamente, com a jóia na mão, sem fazer a menor idéia de em que mãos ela irá cair, tudo pulsando aqui e agora, aquele sangue misturado com alegria e medo.

1, 2, 3, 4, 5....

- Elis Barbosa

sábado, 29 de novembro de 2008

Conexões



Nada como revirar pertences afetivos num dia chuvoso e solitário… pois deparei-me com uma fotografia, esta fotografia querida de duas meninas e uma mulher, a mãe, as filhas e as irmãs…

Elis Barbosa

terça-feira, 24 de abril de 2007

Dias + Dias


Os dias vão passando por mim e eu por eles. Multiplicam suas horas por conta do sem número de pensamentos que vou amontoando. Pensamentos sortidos e diversos dentro dos dias, como nos saquinhos-surpresa das festas de aniversários das crianças, das festas de S. Cosme e S. Damião.

Para os pequenos ainda é permitido viver todos os minutos das horas e as horas do dia. Quando se é quiança o tempo passa devagar, as projeções são mais doces, pode se devanear compriiiido, cuidar do que é o motor dessa vida, o sonho.
Depois, dizem que para essas coisas não há mais tempo, que tem que estudar, crescer, ficar forte, bonita, educada, ganhar a vida com labor e algum sacrifício, que algum sacrifício pega bem.

Sei não, acho mesmo é que me engambelaram! Eu, mesmo grande, gosto de festejar alegria, de vibrar contentamento, de sofrer gozo, de viver prazer, sonhar felicidade, alimentar ambição, mergulhar no tédio, derreter de tristeza, chorar de saudade. Ser boa, ser má, princesa, borralheira, bruxa de narigão.
Reflexões profundas? Também gosto, mas porque não desfrutar de futilidades cor de rosa,  dos paetês dourados e azuis, véus laranja, cheiro de bala de morango, Juquinha e chocolate, tudo junto e misturado nuns olhos que vão até onde os anjos deixarem?

Quero viver a realidade do agora, mesmo que esta se passe num lugar ou num tempo muito diferente do que se convencionou chamar real.
Tenho uma coisa minha cabeça, acho engraçado, tudo que está lá dentro, deve ser de verdade, mesmo que não case com a realidade. Então, vamos dividir um pouquinho pra cada um, um pouquinho pra cabeça que vai levar o coração e um pouquinho pra esse outro palco que chamam real, que tal?

-Elis Barbosa