quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Amuada



Sem razão, sem motivo e sem sentido. É na ausência mais absoluta que impõem ainda não comer tanto, não fumar nada, não dormir de menos, não trabalhar demais. Reclamo sem ter sequer o desejo de fazer o inverso de tudo isso.

Vazio. Calor. Coisa demais no peito, razão de menos permeando meias palavras. Reticências.

O quarto iluminado, limpo, temperado, construído com resignada persistência parece absolutamente obsoleto.

Resignação, palavra que vem aparecendo com mais e mais freqüência, penso se isso não é um sinal e tenho ímpetos de insurgir contra alguma coisa, mas não há nada que justifique qualquer movimento nesse sentido. Em nenhum sentido.

O tempo que já passou dá a impressão de ter sido muito para o pouco que foi feito dele. As epifanias me escolheram para a berlinda, deixando uma sensação de inaptidão plena. São dez anos vividos num sentido todo diferente do que o desejo de agora. Mas como saber o que seria agora, quando antes parece outra encarnação de tão distante?

Como se todas as possibilidades que existiam até então não passassem de, na verdade, pretexto para uma passagem menos tediosa do tempo que tenho. Agora talvez já não ajudem tanto.

Arrependimento é uma palavra tão dúbia, venal até, some e aparece. Não é arrependimento, mas como deixar de pensar no que teria sido então se tivesse sabido como é agora?

Infrutífero, pensamentos infrutíferos nascendo da esterilidade das idéias, dos sentidos. Pensamentos infrutíferos e humanos natimortos não deveriam sequer ser concebidos.

É uma tristeza profunda que abate os ânimos, uma tristeza universal vinda da consciência de alguma coisa que não consigo nomear. E sei que escrevo buscando tenazmente nomes que possam ser decodificados em palavras, sempre acalmam os nomes, os endereços, a objetivação do desejo. Isso é tão antigo.

Acabaram os cigarros que não deveriam ser fumados. Angústia mole isso de não os ter, sabendo que posso tão logo me disponha a ir buscá-los.

Tão pouco otimista essas palavras todas juntas. Passa querida, logo, logo passa. Talvez tenham vindo junto com esse princípio de gripe, com esse calor que tem “derretido até intenções”.

Elis Barbosa

13 comentários:

  1. Elis!

    A cada texto que leio por aqui fico mais surpresa com a sua forma sensível e assertiva de escrever.Que maravilha encontrar essas palavras!

    Beijos,
    Anita.

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  2. Anita!

    Seja muito bem vinda, entre, sente-se, e compartilhe!

    Obrigada pelos adjetivos, o prazer é mútuo, teu espaço é muito rico. Passemos então pelos blogs da vida, uma da outra.

    Beijos,
    Elis

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  3. Olá, Elis.
    Seu texto me passa um desânimo, contudo, um desânimo frutífero. Inúmeras reflexões e questionamentos chegam com as suas palavras.

    Obrigada pela visita no meu blog e pelo comentário!

    Um abraço!

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  4. Elis...

    Me encanto com suas idéias.
    (Pensamentos infrutíferos e humanos natimortos não deveriam sequer ser concebidos.)
    Isso poderia se transformar num projeto de lei, concordas?rs...

    Abraço!

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  5. Concordo flor, concordo! Obrigada por passar e comentar, é muito importante para mim.

    Beijos e volte sempre,
    Elis

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  6. Segui uma amiga que seguia você, gostei do blog, das postagens e principalmente sua reflexão crítica de uma realidade, realidade a qual me identifico.
    Meus parabéns!

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  7. Carlos Vinicius Ribeiro3 de fevereiro de 2010 21:00

    Sua escrita nos coloca a todos na berlinda epifânica. Impressiona esse desprezo pela afetação, pela breguice, pelo drama digno de pena, por tudo isso que infestaria um texto sobre o tema que você escolheu (ou que escolheu a você)caso fosse feito por qualquer outra(o). Você passa ao largo disso, nem toma conhecimento, pois sua escrita não é "qualquer outra", dessas que a gente encontra por aí aos montes de kbps. Disfarçado de abstrato, vejo um texto que exige uma leitura em pause a cada período ("Como se todas as possibilidades que existiam até então não passassem de, na verdade, pretexto para uma passagem menos tediosa do tempo que tenho"), para que não se perca o peso de nada. Há muito para comentar, o espaço não é suficiente. Vou parar pelo engolir seco do sentimento de culpa que algumas passagens me provocam, como a respeito do calor que derrete até intenções.

    Putz, 48 hits combo.
    Sorte minha ser empedernido.

    Beijos, Elis; está ficando difícil acompanhar sua evolução natural.

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  8. Meu amigo, faltava mesmo o seu comentario :)

    Engraçado, você falar em desprezo pela afetação, breguice e tudo mais, sbae que me acho um ser meio breguinha? Fiquei pensando: será que por ser assumidamente afetada a breguice acaba por não me pegar de jeito? Mas entendi o que quis dizer sobre isso em relação ao texto e te agradeço muito, este feedback é importante. Morro de medo de texto dramático, digno de pena.

    Quanto à falta de espaço para todos os comentários, francamente...

    Bem, empedernido como és a culpa já deve ter passado, culpa não pode. Viva o cantinho da reflexão!

    Beijo,

    Elis

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  9. Elis, Elis...

    Você vocaliza os pensantes dos outros. Você simboliza e vocifera... eu injetei tuas palavras e vesti a carapuça. E coube.Certinha.

    Sorte minha não ser empedernida.

    Beijos beijos beijos

    Eloise

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  10. Que linda! Obrigada pelo sua nobre presença! Sorte sim querida, se fossemos todos empedernidos que seria do azul… Fiquei feliz de te ver por aqui, volte mulher, volte sempre.

    Um beijo,
    Elis

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  11. Fico orgulhosa como coloca de maneira tão nítida e verdadeira os sentimentos. É impressionante como se expressa bem, como coloca em palavras a descrição de sentimentos que parecem inexplicáveis para quem os senti. As vezes o silêncio vale mais que mil palavras mas o dia que se calar não será você.
    Te amo e estou aqui para ouvir quando precisar e falar, mesmo que em poucas palavras o que penso.

    Beijos,
    Ligia

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  12. Ah! Irmã, que bom ouvir isso de você! Sabe que seus comentários têm outra pegada pra mim, né? A pegada no coração, vai direto na veia onde corre o sangue que compartilhamos. Te amo Branca!

    Eu falo e você escuta? Eu complico e você define, eu alongo a história e você fecha daquele jeito que só você sabe. A dinâmica do café com leite, perfeita!

    Beijos e obrigada por acompanhar,

    Elis Barbosa (sem revelar sua identidade secreta de irmã)

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  13. Fazia tempo que eu não passava aqui. Aliás, tempo tem sido artigo de luxo, que presentemente não posso pagar.

    Saudades de vocês duas. Beijos, Kk

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Troca comigo, meu texto pela sua impressão dele ;O)