quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mistério


Ela amava as meninas, amava mesmo, do fundo do coração! Eram suas filhas e ela as amava, muito. Havia planejado e desejado as duas. A segunda faria companhia à primeira, tão solicitante, tão interativa, tão precoce.

Era precoce a filha ou era ela menina ainda?

Fora privilegiada de ter duas assim, tão diferentes, uma morena e outra loura. As duas lindas, mas não havia que se importar com isso, o importante é que tinham saúde.

Preocupava-se com elas, de maneiras diferentes, eram muito diferentes uma da outra. Amava-as.

Todavia o menino, o que sempre quisera ter tido, vindo assim de um susto bom, de uma aventura amorosa com o próprio marido, vindo do homem por quem faria muitas famílias, esse venerava veladamente.

Era lindo, doce e muito, muito amoroso! Parecia que sabia que por ele ela morria. Morria todo dia um tanto porque sentia que amava demais o menino. Parecia mais com ela que com o pai. O varão que havia se prometido. O queria como primogênito, viera como caçula. Viera para ela aquele menino, era o que importava. Sentia sua missão cumprida, orgulhosamente sustentava ter feito o que seria homem um dia.

As meninas, amava, como podia não amá-las? Eram suas filhas amadas. Mas eram feitas, assim como ela, daquela matéria feminina, sabia delas. Dele, não sabia. Sabia só que era menino, que era lindo, que era seu. Fazia tudo direito, era levado, sonhador, gentil, simpático com todos, parecia que o mundo o saudava como ela, lívido ante a existência daquele um que era o seu pequeno varão.

Olhando-a nos olhos, em meio às manhãs atribuladas, dizia o que lhe vinha fácil de dentro do peito infantil:

Mamãe, te amo!

Sem dor.

Dado momento em que aquilo pesou sobremaneira, começou a se perguntar, será normal esse amor? Não deve ser, pois se eu amo o meu filho acima de todas as coisas, e acima de todas as coisas deve-se amar a Deus, certamente que esse amor não é normal, não pode ser.

Sabe que houve um tempo em que eu pedia a Deus para tirar aquele todo de mim?

Deus, tira de mim um pouco desse amor, faça eu amar meu filho o tanto que se deve amar a um filho. Leva um pedaço, não há de fazer falta um pedaço, dói viver amando esse monte, mesmo sendo a um filho.

Sem querer nem pensar, passou a dividir o dito amor entre as meninas, que por sua vez uniram-se para amar o irmão com todo amor do mundo. O que era para diminuir cresceu.

O menino também cresceu, sufocou, afastou-se para poder ser. Houve choro e ranger de dentes.

Depois voltou sem dizer palavra.

Com dor.

As meninas, sabia das meninas, mas do menino ignorava, permanecia vendo no homem seu pequeno varão, eternamente menino, guardando naquela matéria outra o amor misterioso que suscitara outrora.

Meu filho.

- Elis Barbosa

4 comentários:

  1. Carlos Vinicius Ribeiro15 de dezembro de 2009 14:25

    Olha, quanta propriedade seu texto transmite...

    Fiquei com vontade de antecipar meus planos de ter filhos, embora, infelizmente, tenha certeza de que minha visão sobre essa experiência jamais poderá ser comparável à visão feminina. Pelo menos, através de seu talento sou capaz agora de imaginar, e por isso lhe agradeço.

    Parabéns mais uma vez, Elis, e muitos beijos!

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  2. Veja só que curioso, propriedade de quê? Pergunto e morro (curiosa) pela resposta! Pensas que sou mãe? A propriedade de quem escreve vem de que olhar? Do seu ou do meu?

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  3. Carlos Vinicius Ribeiro20 de dezembro de 2009 03:41

    Nem do seu olhar nem do meu. A propriedade é do seu texto, acho. Você me convenceu pelo próprio talento. Por outro lado, você é mãe, sim: colocou-o (o texto) no mundo e daqui a pouco será ele a dar frutos, gerar outros textos, outras vidas. Já ouvi falar em paternidade textual, mas maternidade... Digamos, então, que se trata de um texto fundador!

    Desculpe-me. A essa hora da madrugada, nem eu mesmo estou me entendendo mais!

    Beijos, Elis.

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  4. Então fica assim, maternidade textual, combina comigo! Pois volte querido, volte desperto, mesmo que de dentro da madrugada.
    Beijos,
    Elis

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Troca comigo, meu texto pela sua impressão dele ;O)