domingo, 18 de novembro de 2007

Coisa de Mulherzinha


O texto abaixo é dedicado a mim e a todas as minhas irmãs que são as mulheres! Queridas, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...” deveria ser o nosso juramento umas para as outras, um juramento fraterno! Abaixo a competitividade entre as mulheres, viva a cumplicidade daquelas que só são compreendidas por suas irmãs!
Beijos
Elis


Toc, tac, toc, tac, toc, tac… tinha perdido um dos saltinhos do sapato, preso entre uma pedra portuguesa e outra... as pedras portuguesas são as inimigas mais profanas de uma mulher que está tendo um dia de turbulência, na eterna viagem que é essa existência (brega, não resisti!).

As turbulências, como se sabe, surgem de repente, até mesmo porque não teria graça para quem mexe as peças que estivéssemos prontos!

Do ponto de vista fotográfico, seria tediosíssimo se a vítima, no caso desse causo uma mulher, prevendo a tempestade e os rumores de vento forte saísse de seu esconderijo usando os cabelos bem presos, calça jeans, óculos de sol e claro, rímel à prova d`água!!! Se assim fosse, jamais teríamos a imagem emblemática do sofrimento feminino que é o rímel lastrando aquela mancha negra pelo rosto que desaba em prantos... belíssimo estandarte da comovência feminina!

Então, nossa amiga encontra-se, no exato momento em que olhamos, encaminhando-se de volta para seu esconderijo com os cabelos desgrenhados, o rosto devidamente marcado e sem, dentre outras coisas, o salto de um de seus sapatos.

O dia que acabara de escorrer por sua existência amanheceu nublado, o que, pode-se traduzir em: pretinho básico! Sim, uma blusa de manga cumprida, decote moderado, combinando com seu par de brincos preferidos. Saia ou calça? Saia! Hoje seria o dia da mulherzinha e, sentindo esse pensamento, um sorriso de menina lambeu-lhe os lábios.

Pensando bem, tinha tempo que não passava pelo seu calendário o dia da mulherzinha... franziu o cenho tentando espremer a lembrança do último dia de mulherzinha que tinha passado... Não lembrou. Mau sinal! Precisamos de mais dias da mulherzinha – fez uma nota mental disso enquanto vestia sua meia-fina. Cabelo solto ou preso? Solto!

Andavam tão corridos esses dias... trabalho novo, separação recente, apartamento com metade da mudança lacrada, compromissos acadêmicos com prazos apertados... preciso cortar esse cabelo!

Maquiou-se, trocou de bolsa, calçou os sapatos, estava atrasada... só um gole de água antes de sair, vai que desata um nó estranho que apareceu na garganta.

Já em seu caminho, procurando pensar só em coisas boas, toca o celular: Fala mãe... estou bem. Meu coraçãozinho está ótimo. Mãe, estou meio atrasada... já falei, está tudo bem! Não mãe, esse fim de semana não vou poder, talvez no próximo... olha, está tudo BEM! Agora tenho que ir, mais tarde nos falamos.

Mas o que é que é essa coisa que as mães tem de futucar assuntos irrelevantes tão cedo pela manhã?! Diz pra mim: não pareço estar bem? Ora, pois, estou ótima! Vida nova! E este seria mais um dia de luta rumo a glória da solidão bem resolvida para uma mulher livre da ilusão do amor romântico, glória da independência típica daquela que toma as rédeas da própria vida! Uma mulher prática e racional!!! Sim!!!

Pegou o metrô, cheio... horário dos mouros, nem tudo é perfeito! Respira... Sente de repente uma dor... fome! Na seqüência, uma senhora gorda enfia-lhe a bolsa nas costas libertando instantaneamente pelo menos três palavrões que quase passam da fronteira da boca... respira... virou-se e, nova bolsada! Ok, hoje é o dia da mulherzinha e, xingar essa senhora de todos os nomes que me ocorrem, aos berros, dentro do metrô, não combina, se acalma e respira, porra!

Desceu do metrô, comprou o que seria o café da manhã e correu para o escritório onde descobriu que seu chefe já havia chegado e apresentava sinais claros de mau humor, mau sinal!

Engoliu o de comer enquanto a máquina ligava e, teve um dia, digamos, miserável! O azedume alheio lhe concedeu viver impropérios que poderiam ser descritos como exasperantes! E nada, absolutamente nada, podia ser feito a esse respeito!

Ficava um pouco mais difícil respirar, mas alguém tinha de manter a calma! Vamos lá, força!

Nossa heroína luta, bravamente, para manter viva a mulherzinha que existe dentro de si e direciona para a besta com quem precisa interagir, toda a paciência típica de uma mulherzinha.

Contudo (e com tudo mesmo!) o dia não estava correspondendo a suas expectativas! E como o que está ruim pode sempre piorar, depois do almoço que pastou (era alface que não acabava mais!!!), na hora reservada à sobremesa (gelatina diet), o telefone tocou! Sim queridos, o telefone, essa faca de dois gumes... dois? Vamos combinar que o telefone às vezes mais parece uma estrela de ninja, com VÁRIAS pontas dilacerantes!!!

Do outro lado era a voz dele, propondo um encontro em tom de quem marcava uma consulta médica, para resolver questões de partilha ainda pendentes. Misericórdia!!! Pausa... ninguém respira.

Tudo tão recente... aquela era a voz de quem ligava perguntando como estava sendo o dia, de quem prometia amor para a noite... ele adora (adorava!) o dia da mulherzinha... e nem faz idéia de que hoje é o dia da mulherzinha, justo ele que sabia de tudo, sempre...

Uma legião de lágrimas do tipo grossas preparava-se para irromper de seus olhos quando tocaram-lhe o ombro... entrega na recepção, tinha que assinar o comprovante de recebimento... merda!

Olha, preciso desligar agora, mais tarde te ligo e podemos marcar com mais calma... não posso hoje... preciso desligar... não, HOJE NÃO POSSO! Não tenho que lhe dar satisfação, não posso porque não posso porra (lá se foi a mulherzinha)! Bateu o telefone, levantou-se num rompante contendo as lágrimas e rasgou a meia que prendeu no anel enquanto ajeitava a saia...

Mirou a meia, olhou para os céus contrita, em desespero e suplicou: Tempo, uma folga, um refresco, eu sou legal, só um tempinho... Quero rir de tudo isso hoje à noite, quando estiver na MINHA casa, arrumando as MINHAS coisas! Vivendo a MINHA vida!

A meia não tinha conserto e o sapato arrebentava-lhe o pé sem ela... bom, o que não tem remédio... paciência...

Hora do lanche, prepara-se para um pouco de prazer e... morango ao leite na blusa... um retardado que não conseguia andar, falar ao celular e olhar para frente lhe deu uma trombada!!!

Minha santa, que esse dia acabe!!!!

Bom, no pior de tudo, é fim de tarde e logo logo será hora de assistir uma de suas aulas preferidas, o professor é um grande sábio da disciplina que ministra! Vamos manter o foco nisso: daqui a pouco o intelecto será estimulado e, conseqüentemente, um pouco de endorfina vai correr pelo corpo!

Desligou a máquina, pôs-se a retocar a maquiagem e sentiu quando o celular anunciou pelo visor “Mamãe”... Oi mãe... tudo... mesmo! Foi cheio mãe, tive um dia cheio. Não estou aborrecida, estou com pressa! Olha, será que dá para eu te ligar quando chegar? Estou atrasada para aula...mãe eu não quero repetir que estou bem!!! Pelo amor de Deus!!! Tá bom... te ligo!

Então, hora de partir.

A boca da noite lhe insuflava novo ânimo, a paisagem ficava mais fresca, mais bonita com o escuro/claro escorrendo pelos prédios, as estrelas ensaiando para brilhar, as pessoas voltando para suas casas parecendo mais calmas, mais civilizadas.

No caminho para o mêtro ficava aquele lugar proibido para mulheres que levavam suas dietas à sério, um lugar do mal, que faz milkshake de ovomaltine, o lipídio ideal para amenizar a dor de dias como este! Ai... ai... vou ou não vou... Engolfada por essa dúvida suja acabou permitindo que seu corpo a conduzisse para mais e mais perto do local do crime quando de repente, não mais que de repente, avistou uma figura que reconheceria até do avesso, ele... mas o que fazia ali?

Suas sobrancelhas arqueavam com a intrigante questão quando uma coisa estranhíssima aconteceu: eis que surge, vindo algum universo paralelo, um alien, sim, porque aquilo só podia ser uma sacanagem de outro planeta, não pertencia à realidade real do possível... uma mulher, que sentou-se em frente a ele, passou a mão pelo seu rosto e tascou-lhe um beijo, NA BOCA!!! Ele? Beijou-a de volta!!!

O resto de ar que animava seu corpo se foi num espasmo de dor e... e... perplexidade, eu acho... A cabeça ficou vazia e o que acontecia bem na sua frente crescia como se fosse ocupar tudo... Nenhuma palavra existia, era o nada... sentia seus batimentos cardíacos no dedão do pé, seu corpo todo tremia...

Lembrou-se do mundo físico quando tropeçaram nela, e pôs-se a caminhar para longe das portas do inferno que acabavam de se abrir chamando-a para dentro... sem enxergar nada, sem conseguir articular seus pensamentos, aconteceu: o sapato prendeu no buraco, naquele das pedras portuguesas, que está sempre lá! O sapato ficou, ela foi... catando cavaco... pisando aquele chão imundo para recobrar o equilíbrio!

As lágrimas que tinham sido contidas mais cedo lhe inundaram o rosto e, a boca delicada mais parecia a boca de um caminhoneiro (com todo respeito aos caminhoneiros), tamanhas as obscenidades e palavrões por ela proferidos!

Olhou para o sapato com o ódio de quem seria capaz de matar um... mas, era preciso voltar para resgata-lo... enfiou o pé dentro do maldito e empenhou força desnecessária para a tarefa de arrancar-lhe do buraco! O sapato saiu, mas o salto ficou... dentro do buraco! Quem foi? Quem foi que providenciou aquela seqüência de episódios insólitos? Não é possível que, por acaso, tudo aconteça, no mesmo dia, com a mesma pessoa!!! Mais ainda, que essa pessoa tenha quer ser ela!

E a pergunta que não queria calar: O que é que o mundo ganha com tudo isso?!

Começou seu caminho para casa... nada de aula hoje... acho que não preciso que mais nada aconteça! Direto para casa, de volta para o esconderijo, sem olhar para trás, a rezar para que nada mais aconteça! Aliás, não tem mais nada para acontecer certo? Não cabe mais... lotou!

Uma chuva fina começa a se desprender do céu! Sem comentários!

Toc, tac, toc, tac, toc, tac… e esse som dava o ritmo para o fim do dia!

Pegou o primeiro táxi que apareceu e respirando profundamente, tentando recobrar a voz deu ao motorista o destino.

Por caridade do universo o taxista era um senhor bem grisalho, com cara de papai Noel que se apiedou dela... Pode chorar minha filha, finja que eu nem estou aqui.

Permitiu, como não era de seu estilo, debulhar-se em lágrimas e soluços! Puta que pariu!!! Inacreditável!!! Seria tudo aquilo realmente necessário?

O taxista olhando pelo retrovisor meneou a cabeça e arriscou uma interferência... quando minha filha fica assim eu digo para ela que vai ficar tudo bem... fica tranqüila moça, vai ficar tudo bem, tudo vai dar certo!

Balbuciando um “obrigada” ininteligível sentiu sacudir seu peito mais uma onda de soluços e lágrimas... a imagem dantesca que lhe esfregaram na cara fixava-se feito craca na sua mente e a cena repeti-se infinitamente... até que seu choro foi secando. Chegaram. Pagou a corrida, agradeceu e encaminhou-se para a entrada do prédio. Toc.. tac... toc...tac... Esse som a fazia suspirar profundamente.

Estamos, agora, no exato momento em que começamos e ela, já sente a acolhida de seu esconderijo! Abriu a porta e sentiu... o celular tocar! Mãe! Acabo de chegar e não quero conversar. Sim, estou bem (hahahahahaha), só cansada (de viver!)! Amanhã conversamos. Também te amo, beijo.

Entrou em casa, trancou a porta, tirou os sapatos, colocou a bolsa em cima da mesa e, antes de estirar o corpo no sofá, foi até a geladeira em busca da única coisa em que conseguia pensar desde que saltou do táxi, a única coisa que poderia tranqüiliza-la, dar-lhe um pouco de prazer nesse momento, nessas circunstâncias: uma cerveja estupidamente gelada!!!

Sim!!! Acomodou-se no sofá, de posse de sua long neck... estava bem gelada! Respirou fundo... bem fundo!!! Repassou o dia mentalmente e mais algumas lágrimas riscaram-lhe o rosto... Sentia-se cansada, muito cansada! Onde buscar forças numa hora desta? Filosofias, rezas, intelecto, amigas?

Então, lembrou-se dela, o ícone da mulherzinha contra a qual o universo conspira mas, que dá a volta por cima: Scarlet Ohara!!!

Sim!!! Deu um sorriso de canto de boca... ainda estava viva, fato irrefutável, o mundo continuaria a girar, fato igualmente irrefutável... Tomou o último gole da gelada e, para aqueles que pensam que estou derrotada, saibam: “tomorrow is another day!”

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