quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Az

A repetição do caminho para o banco era religiosamente mensal. Aspásia fazia o mesmo caminho, sempre, pensava melhor não tendo de se orientar em mais essa geografia. Era tão sabida aquela rota, que fazia-se caminhar nela. Seus pés eram mais por ela que ela por eles, cultivados ao natural. Seus pensamentos não serviam a grandes propósitos, pouco se referiam a considerações de elevado valor moral ou material, pensava por mania, e percebia ter por protagonistas, como objeto primeiro das falas tecidas internamente, mais as falas dos sujeitos que faziam corola ao miolo perfumado de sua alma, que qualquer coisa original.

Ensimesmava-se de momento pela passagem dos dias e o mistério do tempo que se guardava neles para, num suposto anonimato, afligir melhor as alquimias mais díspares. Isso "a passagem dos dias" era tão repetitivo, soa tão surrada a expressão, se algum dia conteve poesia certamente a perdera, virara clichê, rasura. Mas Aspásia é modesta no pensar, e como quem mistura o refresco quente com o dedo indicador, suspira: Pobre de nós que sequer temos a chance de ser, posto que somos inexoravelmente acossados por ele a passar sem maiores explicações. O negócio é estar e pronto. E mudar e tentar enxergar o borro das imagens que passam rápidas demais para serem capturadas em seus contornos pela objetiva dos olhos. 

Aparentemente, nada pode ser capturado em linhas bem definidas, há um transbordamento. 

Tropeçando numa pedra conhecida Aspásia vê assomar na testa do horizonte, o outdoor inescapável, donde se lia: 

MESMO CAMINHO SABIDO DESENROLA SURPRESAS

Dinâmicas irregularidades no solo liberavam disparates de pensamentos assim: fosse o caminho pavimentado, enformado, alinhado e bem medido, não ficaria menos suscetível aos assaltos dessas novidades nascidas dele mesmo?

Coração disparado, constata, e logo vê a palavra perder o fim virando a esquina antes dela. Virava outra coisa díspar: díspar. Rodopiante no sentido anti-horário a diferença transcende em diáspora, que pode ter muitos sentidos, mas nasceu mesmo foi de uma separação. Talvez fosse bom parar um pouco para descansar, sol na cabeça embaça pensamento, e essas palavras à luz excessiva do meio do dia vão tecendo corrente traiçoeira de embolar visão.

- Elis Barbosa

2 comentários:

  1. "Posto que..."
    Tá levinho este. Sempre bom de ler!
    Bjim

    ResponderExcluir
  2. Os códigos...
    Que bom que gostou.
    Beijo

    ResponderExcluir

Troca comigo, meu texto pela sua impressão dele ;O)