quarta-feira, 7 de março de 2012

Estrela


Dedicado à Preta que eu tanto gosto, e que também atende por Essencial.

Refestelava-se à cada gota que o ventilador refrescava. Nesse calor de avidez sufocante não secava o banho, abria-se para o sopro contínuo da máquina. Deixava-se estalar conforme esticava a pele, gozava férias, carnaval, um quintal imenso de solidão consentida, o calor do sol da manhã amolecendo-lhe as carnes. E embora tudo atendesse ainda ao horário comercial vinha no cheiro das gentes qualquer coisa de suspenso, um quase manifesto sorriso diante da promessa, agora próxima, de gentios e judeus misturarem-se mascarados.

Era bom ser, entregava à festa mais que os sentidos, um saber ancestral do que podia o carnaval. A festa lhe aprazia pelo som que tinha, pelo cheiro de liberdade suada, pelo desnecessário que era ter destino, pelos disfarces possíveis. Lembrava sempre da história da mulher de quem herdara o nome, a Rainha Ester. Mulher de trajetória peculiar, pode-se dizer. Teve mais de um nome e dupla nacionalidade, vindo à público a judia no momento exato em que era a água do rei. Cumpriu a missão de salvar seu povo. Partiu-se para depois integrar-se em multidão.

Inquestionável era a beleza de Ester, juntava a estrela do segundo nome com a flor do primeiro, Hadassa. Foi o que determinou o rumo do coração do rei, conforme dizem as palavras da escritura, mas no duro: foi paixão. Esther não achava que ficasse atrás, sabia-se bela mirando o sorriso nos olhos dos outros, eis algo que tinha tempo não fazia. Não queria saber disso, queria outras respostas, mesmo sem as esperar mais. Deseja ser tantas.

Fresca, escolhia as cores que espalhassem um pouco de si no entorno, vestia para mostrar. Sentia o sol se pondo, mais que isso os prédios não deixavam ver. Sufocante e frio aquele emaranhado de concreto, mas conforme o pêndulo, acolhedor. Tem nada não, hoje tinha a alma aberta para a rua, de par em par. Embora ouvisse também a parte que pedia casa, pouso, sossego para poder secar em paz as águas que verte. Ir ou ir? Parecia ser essa mesma a hora de dar cabo da distância escorregadia daquele corredor longuíssimo. Subamos, como sugeriu Vinícius, "Subamos acima, Subamos além, subamos! Acima do além, subamos!"

Acomodou na bolsa de pano o coração cansado, levavam os olhos pra passear. Quando não se sustenta querencias como quem tem direito, os ganhos ficam menos tímidos e se enxerga mais nitidamente o que as vistas tocam. Enfiou-se serpentina adentro, explodiu do outro lado em incontáveis confetes brilhantes, agarrou-se aos pés e aos copos dos foliões, passou pelos becos, saltou as avenidas, correu encruzilhadas, virava do avesso a cada golpe que levava no coro a percussão. Pediu para não acabar, mas estourou-se na adaga brilhante do amanhecer. Era imperativo voltar imediatamente. Visse Esther o Sol, naquelas condições, e pronto, estaria descoberta.

Esvaídas as forças, ouviu o pedido da outra nacionalidade, queria casa, já disse. Daí a pergunta inaudita: pra onde a levarei? Tinha o endereço, mas precisava de tanto mais. Buscando descanso espalhou-se pelas cinzas do carnaval. Amparo era o que tinha pra hoje, ainda não acumulara os pontos necessários para ter descanso. Esther mirava as estrelas, mas como não sabia ler, emprestaram-lhe uns olhos que, talvez por conhecer das coisas naturais e chamar as estrelas pelo primeiro nome, tornavam o céu tão mais próximo, coisa assim da altura do dedo mesmo. A voz amena da hora, que já ia avançadíssima, caminhava tranquila pelo rastro leitoso que certa via deixava ali ao fundo, passada por dentro da escuridão da noite, é ali que se esparramam as estrelas, o chão delas é muito longe daqui.

- Elis Barbosa


6 comentários:

  1. Fadada a ser `as claras: estrela. Contra o escuro. O brilho a define.

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  2. Saudade de tu que é comigo uma das Marias...Quando puder vem.

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  3. Muito bonito, digno do teu talento mesmo. Parabéns.

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  4. Muito bonito, muito mesmo Elis.

    "é ali que se esparramam as estrelas, o chão delas é muito longe daqui."

    Isso é demais.

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