quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Frango à Passarinho


Rodando pela casa, recém chegada de mim, procuro por algo muito novo que abra os olhos de dentro, que traga uma boa nova a estrear com ares fresquíssimos um desconhecido misterioso inclusive a quem supostamente lhe trará à luz.

Encontro poeira e animais carentes, uma fome de comida doméstica, do tipo “a minha”. Invento que cozinhando pode ser que nos entendamos. Troco de lugar as palavras flutuantes, muito soltas elas bóiam no ar, imagino se assim não se revelarão num contexto absolutamente novo. Observo acomodarem-se ao espaço dividido com o cheiro dos temperos sendo refogados.

Acendo um cigarro, bebo água, ouço o coqueiro lá de fora estapear o muro, magoado com o vento. Ligo a TV como quem abre a geladeira, mecanicamente, para desligá-la num susto. Desisto de escrever, passo a ler, e coincidentemente encontro muito desse assunto de falta do que dizer. Nem para me darem a mão nessa hora, meus amigos escrivinhadores parecem temporariamente fora da área de cobertura.

Decido por aquiescer ao ululante, já foi tudo escrito, assumo que as palavras foram já flexibilizadas, redimensionadas, alongadas, substituídas, estilizadas, desestruturas, contempladas pelos virtuoses no manipular de seus sentidos, aliciadas por quem delas precisou e só a elas lhes restou recorrer. Impressas em formas e fôrmas das mais diversas, tudo isso antecedendo em muito essa minha pífia existência construída precariamente na paixão pelos melindres das palavras e seus discursos.

Não há nada de novo a ser dito, nem maneira inovadora de dizer aquilo que se repete atravessado no tempo a me dimensionar. Se te queres matar, disse Pessoa, porque não te queres matar? Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, Se ousasse matar-me, também me mataria (...). Dito assim, nesse deboche de quem não ousa, mas autoriza, ele me leva ao desleixado suicídio de quem vive a buscar a coisa mais certa a comunicar: o clichê!

Cedo (do verbo deixar o corpo escorregar do sofá para o chão, amolecido à língua alheia do colo ao pescoço) então à narrativa de fragmentos, legitimada inclusive pelo momento histórico. Despudoradamente descrevo a delícia do encontro de casal adolescente numa tarde de tempestade, em praça de cidade histórica. Ele, corpo recém rebentado em músculos juvenis exibe portentoso a despretensão de qualquer compromisso para além do banco de praça onde finge descansar enquanto espera. Ela, de proporções justas, cabelos com vida própria, lança-se sobre o moço, pernas de tesoura, encaixada, nem se demorando na poesia que seria ter olhado nos olhos dele, enfia a língua ávida na boca aberta do rapaz, cujo reflexo responde todo rápido e contundente. Meu café esfriou.
  
Na mesma praça há um punhado de homens cuja reunião temática é dissipada pela água que cai aos borbotões. São músicos reivindicando lugar que os caiba, nomeiam a possibilidade de corredor cultural, mas são tantos e tão grandes, de tanta energia que me pergunto se caberiam mesmo num corredor. Assisti-los em movimento incita o desejo de experimentar do masculino, será bom ser homem?

Sob a proteção do bar aonde água não chega peco pedindo uma limonada servida com ares de desdém pelo garçom afeminado, azeda de contrair almas não há açúcar que lhe quebrante a rigidez ácida. A noite encontra o dia já escuro, chegando portanto sem causar impacto. Passamos a caminhar pela estrias da cidade desconhecida procurando para comer precisamente a coisa da qual tenho fome, cujo nome permanecerá oculto, para que não se revele a porção vagabunda que tem a natureza de quem gosta mesmo é da rua para passar as horas do dia. Pelo menos isso poderá causar alguma penumbra nesse amontoado de obviedades.

- Elis Barbosa

6 comentários:

  1. Oi Querida como vai? Pelo que tem "rabiscado" da pra ver que essa mistura de sol-vento-sal fizerão muito bem a você. Adorei o coqueiro estapeando o muro, quando deixamos de escutar a nossa cabeça ouvimos os sons dos objetos como um sinfonia, pena que aqui a sonfonia é de buzinas, sirenes, pega ladrão!! etc.

    Continuo aqui de olho em você e nas suas "travessuras", parabens pelo prêmio e continue soltando a sua imaginação para que possamos pegar uma carona nela.

    Um bom ano, Bjos
    Marcelo

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  2. Parabéns pela postagem! Amei! Já sou fã. Estive por aqui e voltarei sempre! Abraços, Luciana
    www.lupoesias.blogspot.com

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  3. Você e suas palavras-tatuagens, escritas do corpo, no corpo, assanhando a alma da gente para possibilidades. São sensações percebidas ou percepções que se fazem sentir? Ai ai...o bom que é conversarmos na copa da sua casa.

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  4. Meu Sonho
    “O meu sonho na vida era ter o poder de ser um videocassete de mim mesmo. Ter o controle remoto que me permitisse renascer experiências vividas. Eu poderia voltar no tempo, acelerar, pular cenas dos próximos capítulos. Parar a imagem num momento que me tivesse sido glorioso, vivê-lo outra vez. Talvez, eternizar um orgasmo.
    Eu poderia correr a fita de modo a entrar na percepção do futuro ou recuar para consertar, corrigir, para confirmar. Ah, com esse aparelhinho eu poderia criar o ideal.
    Ah, o ideal.
    O ideal seria que o homem nascesse com 80 anos, fosse ficando mais moço, mais moço, até morrer de infância. Nascendo com 80 anos, aos 60 ele casaria com uma mulher de 59. Mas com uma vantagem: A cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano, ela ia ficando mais nova, mais nova, até se transformar numa gata de 20.
    Depois ficariam noivos, namorados.
    A bicicleta.
    O velocípede.
    Desaprendiam a andar, esqueciam como engatinhar,
    O voador, o cercadinho.
    Do cercadinho para o berço.
    As fraldas molhadas.
    O peito da mãe.
    Até que, num dia qualquer, pararia de respirar.
    Seria o tempo correndo para trás até aparecer o último homem: Adão.
    O último primeiro, a quem Deus colocaria sobre a mão e, em vez de soprar para ele,
    inspiraria o homem outra vez para dentro de sí mesmo.”

    Chico Anysio.
    Adptação Elcias Junior

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  5. beijo meigo como um passarinho sabe dar!

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  6. Presente de leitora:
    http://tcarlotti.blogspot.com/2011/02/aquele-abraco.html

    Beijo!

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