sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Póstumo

Encontradas uma na outra, destilavam carinho as irmãs, e este escorria pelo entendimento mútuo, mesmo não sendo sinônimo de irrestrita concordância. Embora a compreensão fosse a presilha preferida para amarrarem-se as tranças, desenrolarem os novelos de assuntos graves, belos, quentes, fervorosos, leves e bobos. Cabia tanto no bojo daquele amor que era refrigério de Kibon em dia de verão.

Tratando dos assuntos pertinentes ao invisível, das abstrações comumente encontradas nas entranhas dos seres humanos, que quanto mais humanos mais entranhas, ou mais abstrações, não puderam concluir, chegaram à gênese tal qual biblicamente se sabe. 

- Criou Deus céus e terra, e viu que era bom.

- Sim.

- Criou Deus o homem, a mulher, e viu que era bom.

- Sim.

- Criou Deus a morte, e viu que era muito bom.

- Como?!

Metade ficou de conferir as letras mitológicas, que se realmente postas assim descompõem um pouco sua descrença conservada para manutenção de algo difícil de nomear. Lembrou-se de outras palavras, as ditas por aquele a quem cabe tudo explicar:

"(...) é muito provável que os mitos, por exemplo, sejam vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejos de nações inteiras, os sonhos seculares da humanidade jovem."

Vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejo. Se assim o for, importa pouco a referência que se busque, o fim é condição para a continuidade, e isso soa paradoxal. Não antagônico, como se pode deduzir caso a atenção seja só de superfícies. Então seria esse o devir do que se chama humanidade: vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejo. E há plenitude tangenciável na fantasia? Será condição para a plenitude o desejo? O contrário é tão raro que humano nenhum poderia.

Vestígio é indicação, indício de algo que não está mais, um dos dicionários diz ainda sobre "sinal deixado pelos pés no lugar por onde se passa, rasto", o resto da equação jamais fechada por inteiros. O exercício visa à tentativa de ajuntamento dessas peças, estendendo-se à medida exata da necessidade de não se perderem as indicações, pois são as marcas do caminho que circunscrevem quem trilha. 

Daqui as crianças juntam seus brinquedos, elas ainda podem consubstanciar suas fantasias. Aos maiores ficam os mitos, "o nada que é tudo" mesmo sendo só vestígios de fantasia. Fica também a vergonha e o constrangimento de ainda se querer a fantasia plena de desejo.

A morte e o mito, hoje são eles que vejo na praça a se olharem enquanto balançam na gangorra.

- Elis Barbosa

Revisão: Leandra Freitas

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Az

A repetição do caminho para o banco era religiosamente mensal. Aspásia fazia o mesmo caminho, sempre, pensava melhor não tendo de se orientar em mais essa geografia. Era tão sabida aquela rota, que fazia-se caminhar nela. Seus pés eram mais por ela que ela por eles, cultivados ao natural. Seus pensamentos não serviam a grandes propósitos, pouco se referiam a considerações de elevado valor moral ou material, pensava por mania, e percebia ter por protagonistas, como objeto primeiro das falas tecidas internamente, mais as falas dos sujeitos que faziam corola ao miolo perfumado de sua alma, que qualquer coisa original.

Ensimesmava-se de momento pela passagem dos dias e o mistério do tempo que se guardava neles para, num suposto anonimato, afligir melhor as alquimias mais díspares. Isso "a passagem dos dias" era tão repetitivo, soa tão surrada a expressão, se algum dia conteve poesia certamente a perdera, virara clichê, rasura. Mas Aspásia é modesta no pensar, e como quem mistura o refresco quente com o dedo indicador, suspira: Pobre de nós que sequer temos a chance de ser, posto que somos inexoravelmente acossados por ele a passar sem maiores explicações. O negócio é estar e pronto. E mudar e tentar enxergar o borro das imagens que passam rápidas demais para serem capturadas em seus contornos pela objetiva dos olhos. 

Aparentemente, nada pode ser capturado em linhas bem definidas, há um transbordamento. 

Tropeçando numa pedra conhecida Aspásia vê assomar na testa do horizonte, o outdoor inescapável, donde se lia: 

MESMO CAMINHO SABIDO DESENROLA SURPRESAS

Dinâmicas irregularidades no solo liberavam disparates de pensamentos assim: fosse o caminho pavimentado, enformado, alinhado e bem medido, não ficaria menos suscetível aos assaltos dessas novidades nascidas dele mesmo?

Coração disparado, constata, e logo vê a palavra perder o fim virando a esquina antes dela. Virava outra coisa díspar: díspar. Rodopiante no sentido anti-horário a diferença transcende em diáspora, que pode ter muitos sentidos, mas nasceu mesmo foi de uma separação. Talvez fosse bom parar um pouco para descansar, sol na cabeça embaça pensamento, e essas palavras à luz excessiva do meio do dia vão tecendo corrente traiçoeira de embolar visão.

- Elis Barbosa

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Incógnita


Denso, o nevoeiro de natureza desconhecida instaurou-se entre o bicho e sua casa. Nunca que tinha nevoeiro por aquelas bandas. A lua estava encoberta, os cheiros eram outros, o pelo eriçava-se por um frio também deslocado de outro lugar para aquele onde o bicho pertencia. O que antes havia sido sua casa era agora lugar de confusão.

Incerteza traz desacerto, que traz medo, que traz defesa, que traz precipitação. A resistência nascida da promiscuidade desses elementos cresce em mais confusão. O que era fluido congela. Sem movimento não há vida. O medo presente, não há movimento.

O bicho se encolhe onde lhe parece seguro e aguça os sentidos, busca harmonizar o som que vem de dentro com o que vem de fora, mas todo o som que lhe é familiar passa a código indecifrável. A agonia aumenta, não há vestígio de comunicação possível onde antes tudo fazia sentido. Mesmo a nuvem que cobria a lua, até pouco fazia, tivesse se dissipado. Seria esse um sinal? Contrito, apertado pela sensação de morte eminente, o animal ouve sair de dentro de si um urro desconhecido. Parecia  desesperança.

Espera uma resposta para a reverberação do som autoral. Recebe, tão somente, o vento carregado de significados embaralhados pela névoa insistente. Não pode voltar, não pode seguir, e guarda consigo a certeza, das mais absolutas, que aquele é o fim do caminho, mesmo não tendo escolhido um caminho sem saída.

Tudo ali lhe era estranhamente familiar, mas sua limitada lembrança de bicho não entregava o serviço. Tinha qualquer coisa de charada aquela obscuridade, qualquer coisa de lembrança, qualquer coisa de mentira. Por onde começar mãe? Por onde?

Deitou a barriga na terra sentindo o abraço que pode sustentar se estamos sobre, ou enterrar se estamos sob, sem se importar com a posição, tomando partido só do carinho que era o frescor de baixo passado para o resto do corpo. A lua voltava a se cobrir, a vigília rompia com o ciclo do sono de restabelecer lucidez, o tempo não dava sinais de mudança, tudo fixo, parado, o bicho sendo devorado pelos olhos dos que não via. 

Finda a naturalidade que antes fazia vicejar os pêlos, brilhar os olhos e afiar as unhas, o bicho seca por antecipação. Morta a beleza que lhe restituía as forças, exaure-se, restando forças só para entrega-se à luta insana que será sobreviver.

- Elis Barbosa