sábado, 24 de dezembro de 2011

Retrospectante



Acaso não acaso, há encontros que só se explicam pela necessidade de sobrevivência das partes. Alimentam com o essencial. A construção do projeto inteiro de ser e estar compõe-se através dos encontros dessa natureza. Abre-se a porta para compartilhar. Mudanças de perspectiva e alterações de dimensões, como tempo ou espaço, acontecem nesses encontros e viciam, chegando a causar dependência. Quando se vai profundo assim, há abstinência, dói.

Portais que se abrem para novos entendimentos não seriam transpassados sem a mão que aperta a minha. E isso me faz lembrar de tantos gestos. Gentes cheias de significados e intenções, às vezes carregando o sentido de tudo, cuidadosamente encarado com uma relevância surpreendente.

Encontros de olhos que vêem as palavras e sabem da mensagem antes que cheguem à boca, que podem acompanhar a trajetória de um instantâneo à um passado de vida inteira. Para esses, fica pendurada sempre fresca, a sensação exata de ver, ser vista vendo, e poder então oferecer um gomo da fruta que acabou de abrir, dedicada com meio sorriso de ostensiva cumplicidade. E falando assim, flagro, fingindo surpresa, uma parede mais longa que a muralha da China, cheia de movimento.

Não há para vida em comum meio termo, o abraço é aberto, peito com peito, ignora que a carne treme ao ser transpassada pelo amor que aperta forte e respira fundo, aspirando o cheiro da intensidade do desejo de estar junto. Nesses abraços tudo é permitido, que o tempo passe, que se transbordem as lágrimas, que se arrepiem os pelos, que não se queiram largar jamais, que se gargalhe da alegria de completar-se no outro, transloucar-se seguro de que a união conterá sem limitar.

Acontece de escassearem. Encontros são de natureza passageira, veem num episódio e nada garante sua continuidade, nem a eternidade da marca cravada na carne viva dos sentidos, nem a necessidade visceral que pede repetições. Aceitar essa volubilidade, tão fundamental para outros arranjos, seja talvez, o maior dos desapegos. Fica plantada lá, na primeira despedida, uma resignação obstinada que espera pelo possível próximo encontro, raízes profundas, pede mais. Garante que, se devidamente alimentada, será a mais frondosa das árvores. Não se pode nem se quer duvidar, mas o depois nunca tem certeza de nada. Acaso não acaso, pode ser que sim, pode ser que não, mas em sendo, estamos alerta.

Sempre que posso, espalho lembranças no chão, e brincamos muito de viagem no tempo. Só pro caso de o acaso estar ouvindo, saiba que estão ávidas algumas saudades e que ficam a me beliscar querendo reforço para as lembranças. Pode? 

sábado, 19 de novembro de 2011

Ricocheteando


Aí, quando a gente não se entende as horas do dia se multiplicam e passam a caminhar muito devagar, olhando-nos na cara, de intervalo em intervalo, uma expressão de que também o tempo paga pelos impropérios de irritações tão desnecessariamente estendidas a assuntos que nem vem mais ao caso.

E fica aquela pseudo troca de acusações (porque nem a troca, nem as acusações são reais), girando a contornar um fogo frio e em torno do próprio eixo. Nessa hora já não há quem leve a mensagem para o outro lado da ponte. Não importa o que eu diga, o conteúdo será sempre afiado com o propósito único e exclusivo de atacar o outro, de acusá-lo, de estar certa. Sério? Não me reconheço nessa ciranda. Assim não.

Vem de tudo isso uma canseira enorme em me repetir tanto e tantas vezes. Não quero estar certa, aliás, fosse mútua a prática de se admitir a humanidade que nos faz ser ora bons, ora maus, até as desculpas seriam mais freqüentes. Contudo, tão logo se começa um debate recebo pelo ouvido interpretações embaçadas de meus objetivos mais recônditos, quais seriam: o de estar sempre certa, e o de ter a verdade sempre comigo, ou o de saber mais, fazer mais, sempre a melhor em tudo!

Posto dessa maneira fica a curiosidade em saber como se sente alguém que de fato pense tudo isso a respeito de si mesmo. Não tenho tão elevada auto-estima, embora considere que sejamos todos incríveis, capazes das maiores incoerências pelos motivos mais injustificáveis, todos passíveis de renegociação no que diz respeito ao dia de hoje, que não será como o de ontem, menos ainda como o de amanhã.

Então, o que vai ser?

Mas esse discurso não é realmente meu, é só um engodo, uma maneira de parecer que eu penso assim, mas no fundo o que eu realmente quero é que tudo aconteça e que todas as pessoas sejam exatamente do jeito que eu acho melhor. Então qual seria o meu discurso verdadeiro? Eu mesma não consigo formulá-lo.

Meus erros não têm servido ao propósito para o qual gosto de usá-los: lições. Têm servido mais como instrumento para aquela “coerção” cruel que cabe nas relações domésticas. Pequenos lembretes de como eu posso estar errando novamente, razão para que outros erros sejam aceitos em silêncio, justificados pelos anteriores.

Não gosto de competições, nem das ditas “saudáveis”, gosto quando todos trabalham para que todos ganhem. Por quê? Sou péssima perdedora, não tenho esportiva, nem sou capaz de negociar pacificamente com frustrações. Isso tudo é verdade. E me cansa, e seca meu cultivado bom-humor.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Cobertor curto


A vida repicada em afazeres, toda trabalhada no prazo, bordada de urgências de curtos, médios e longos fios. Onde já se viu? Urgências de pressas diferentes! O expoente do contra-senso na vitrine. Esse constante antecipar-se faz espólio em reservas de tempos tão mais vitais, murcha alegrias que nem nascem, pois os encontros não vêem.

Faz o que com isso?

A correria leva de mim o tempo de estar aqui, inteira, de poder olhar para dentro e estar para ser. A saudade, de penetra, vai ocupando cantos com porta-retratos mortos a mostrar os amados estáticos, sem poderem abraçar. E tudo vira falta, fica emperrado, meio bobo, só tenho vontade de fazer pirraça, pra ver quem vem acudir. Nem escrever tinha motivo próprio! Faz mais de mês que não escrevo com os dedos, fico passando a limpo mentalmente palavras cuja origem ignoro, e cuja existência ignoraria para meu próprio bem, fosse isso possível. Não é.

Cumpro fiel e dedicada minhas obrigações de educadora, amiga dos bichos e das gentes, mulher de mim e do Gabriel. Escrevo ou telefono ciente da obrigação feliz que é não guardar o amor que tenho dos e pelos outros. Estudo, fico atenta às atualizações essenciais dessa vida tentando manter sempre em foco meu lugar no mundo: de “onde vim”, “onde estou” e para “onde pretendo ir”.

Não está certo assim? É para fazer desse jeito, não?

Se sim, por que tão caro? Executando indefinidamente, olho em volta e encontro tudo certo, tudo bem. Mas nem é o que eu queria.

Nem tudo é como a gente quer, na hora que a gente quer minha filha, ouço a voz hoje amena de papai dizer, olhando através do pára-brisa do carro. Sei bem que há vezes em que ele olha através daquele vidro e vê para além da estrada. Não me conformo. Aceito, mas não me conformo.

Sabe o que eu queria? Beijar e abraçar vocês tão amados por mim, os que fazem razão para o meu empenho, são impulso para minha arte. Toda realização tem um vigia a postos, buscando pistas de orgulho, aprovação, sinais de congratulações. A coragem de continuar, o sentido orientador de mim são seus olhos dizendo que fiz bem. Preciso ver mais esses olhos.

Você não devia reclamar, ouço meu amor dizer, mas eu não sei querer o que é, ao que é me ocupo de viver, o que eu quero ainda está para acontecer. Nunca tive vocação para temperança. Calma minha filha, é mamãe que pede em tom de aviso, você nunca soube esperar. Fato, não tenho tempo. Preciso de vocês agora, imediatamente. De que me serve adiar o colo materno, o abraço fraterno, o beijo na boca, os olhares-espelhos a mostrarem quem eu fui, sou e quero ser. Idealização do sujeito que sofre de saudade? Pode ser, nem sempre foi assim, nem sempre é assim, talvez só hoje seja. Importa? Nada, todos continuam absolutamente incríveis.

Será mimo achar que a natureza real do importante é o indispensável?

Sei de tudo que tenho, amigos diversos, os que estão, os que foram, os que são, todos eternizados nos pedaços de vida que conto. Irmãs, eu tenho irmãs com quem e por quem irei sempre, o encontro com essas almas é a recompensa por esse vasto lutar, são minhas párias. Mãe, tenho também, a guardiã dos ungüentos consoladores, a pedra sobre a qual me levanto, a mulher contra a qual me fiz, a força singular a conquistar minhas reverências, mesmo quando o som é dissonante. E irmão? Daqui o vejo criado, digno, acho tão linda essa palavra, tanto quanto as pessoas que a têm impressa na testa, obstinado, mais amoroso do que ele mesmo supõe. Tenho pai, já disse, o homem por quem me tomam, tanto mais quanto se acomprida o caminho. Acho bom, que seja.

Homem, esse me tem, é o lugar onde me encontro sempre boquiaberta, diante do tamanho da coragem, da inconsequência dos planos plantados primeiro no desejo, depois a gente acerta os detalhes com a realidade. Pasmo ante o delírio que me tonteia quando sinto seus olhos postos em mim. Quero a receita de sua ingenuidade cultivada.

Guardem a certeza perene do quanto estou aqui, dos meus motivos. Sinto sua falta. A gente se encontra no fim de semana então?

Combinado.

Te amo,
Elis

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Histéreo

 Essa imagem é o elo entre tudo que eu te disse e você ouviu.


Histéreo


Abro um livro para conhecê-lo. Eis a desculpa mais ordinária para se abrir um livro. Tive por ele curiosidade e invadiria suas entranhas, vazia de nobreza, egoísta na intenção de saber o que lhe ia por dentro, mais nada. Olharia nos olhos mais um dos tantos habitantes dessa casa cheia de uma solidão movimentada pelas historias dos outros imiscuídas à minha. Queria saber o que lhe ia por dentro. Agora não quero mais nada.

Como uma bomba detonada de propósito, cada virada de página é um beliscão fino, doído no agudo, retorcedor de entranhas. O futuro deitou no chão com medo de ser atingido por todas as perguntas sem respostas que guardei, desde quando meu tempo era o da manhã, por tantos motivos. Nenhum legítimo o suficiente para fazer desaparecer a voz indagadora, insistente, empacada. E tudo nesse deflagrador de flagelos vem trançado numa poesia tão absolutamente doce, de uma potência toda delicada, macia, substancial. Fiquei miúda, imensamente miúda. A voz do livro deitou sobre as coisas mais essenciais deste imaginário devoto à beleza, à nobreza, à honra, às obrigações para com tudo que lhe envolve, devoto ao ideal primeiro, a saber, é dever tornar o mundo melhor. Deitou sua musicalidade contundente, e sacudiu seu cobertor quente sobre a indignidade egoísta de se poder tanta coisa, mas ainda assim tentar tão pouco, que sucumbi num pranto magoado.

A beleza da forma com que tudo é dito passa uma mão pelo meu rosto soluçante, e com a outra me abraça de modo a cativar minha lealdade irrestrita. Eu quero fazer também. Quero escrever ou ler, ou cozinhar, ou qualquer coisa que um dia faça de meu reflexo eco a estremecer no outro a voz que não pára de perguntar. Todo mundo tem uma voz dessa para si.

Soluço sufocado, eu no peito do livro, desconsolada, concluo pela minha inutilidade, minha ineficácia, assumo meu espírito de uma pobreza inefável, minha voz não faz eco, não tem peso, nem sentido. Minha existência mesma não vai nem vem, fica boiando nessa continuidade esquisita que nem parece continuidade. Ao que é que darei seqüência? Voluntariamente nego-me à reprodução de minha própria espécie, por desgosto e impossibilidade e confusão, a trindade que desorienta o momento histórico. Disseram que disseram: os homens modernos seriam “amantes de caminhos sem metas e de metas sem caminhos" e eu só faço repetir, desalentada na confirmação do óbvio sempre a me anteceder. Não acredito na modernidade, nem em sua pós, não acredito em nada que não tenha propósito, e dói no fundo dos olhos ser assim tão reta, tão linear, tão obtusa, tão limitada.

Será que fragmentada sente-se menos angústia? Nada há nessa casa que ecoe o que digo, menos ainda que me negue. Não tem criança aqui pedindo o elementar, não tem ninguém precisando ou querendo nem pingo de nada. Tem os bichos amados que já eram nascidos quando chegaram, nada aqui nasceu de mim ou me é continuidade. Não há obra, não há certezas, não há motivos, não há sequer o talento luminoso que a poucos transforma em necessidade para os que o têm.

E tenho vontade de parar de escrever, de parar de estar aqui e mudar-me para qualquer lugar onde os nomes das coisas correspondam aos seus significados. Sou tão absolutamente egoísta de minha infelicidade que digo isso fazendo exatamente o contrário, e por um momento me integro aos que me cercam nesse nonsense coletivo que se expande horrivelmente pelas ondas invisíveis da coisa virtual.

A resposta do livro? O que tens é na verdade uma solidão imensuravelmente humana, perene nessa busca pelo que adotou como utopia, mas à qual não pode pertencer, posto que a dita existe só aos que se permitem o direito de sonhar. Acalma-te, amanhã mando que te procure a dúvida, e confusa crerás uma vez mais que talvez não seja bem assim. 

- Elis Barbosa

sábado, 3 de setembro de 2011

Cancelamento


Aquele marulhar sem fim ao pé do ouvido enjoava por dentro. Nunca mais era pra já, mas esqueceram de avisar com um minimo de antecedência. Esqueceram não, nada era por acaso, diziam para lhe consolar. Pra quê consolo, não fazia sentido, o vazio em que agora o mundo ficava dentro sumia deixando só o rastro da dor. Dor propriamente dita ele não sentia mais, ele não sentia nada, só um pouco de curiosidade em relação a certa surdez que o acometia desde o acontecido. O que ficava fora dele fazia pouco eco, não se ouvia quase nada desde então, e com esse barulho de mar acabava por se ouvir menos ainda.



Tinha o menino, acordava sem saber de si no mundo, tateava pela casa encontrando em meio às sombras o vazio dos vazios, e o pobrezinho ainda nem falava direito. Sentia muita pena do filho, queria existir pra ele, mas sem a mediação de antes ficava tão confuso. Ele era completamente ignorante do que virara sua missão, de modo que, perplexo, esperava as horas passarem sem saber do que era feito.


Isso de precisar seguir, assim no tempo mundo, nunca lhe parecera estranho até então, mas agora como faria? Rotina nunca tinha sido algo sobre o que se demorasse, acontecia bem como esse barulho de mar, naturalmente, e tudo respondia num ritmo embalado por uma constância boa. Sem o almoço posto não vinha a fome, a ausência do cheiro de café deixava-o sonolento, nada começava nem terminava. Exceto pelo menino que chorava em intervalos precisos, ficava difícil divisar uma hora da outra.


A despeito do que lhe faltava por dentro, o ritual havia sido cumprido, mas outras providências pendiam e tinham de ser tomadas. Entrou no curso de idiomas observado pelas mulheres do recinto, sabia do impacto que sua aparência causava, era considerado um homem bonito. Percebeu quando procuraram a aliança para certificarem-se de seu estado civil, notou o pouso de um sorriso de canto na boca de uma delas, aprovavam-no sem saberem que não era mais nada, que o anel no dedo existia à revelia  dele.

- Boa tarde.
- Boa tarde senhor, posso ajudar?
- Sim, minha esposa estuda aqui e eu vim para cancelar a matrícula dela.
- Qual seria o motivo do cancelamento?
- Ela morreu no mês passado.      

Não era a primeira vez que repetia essa sentença, sabia que não seria a última, mas compartilhava sempre, de olhos vazios, com a perplexidade gerada nos que a ouviam.

- Como? Eu não entendi senhor.
- Eu preciso cancelar a matrícula da minha esposa, ela não virá mais, ela morreu no mês passado.     

A mocinha nem fechar a boca conseguia, ele também não entendia e por isso não pensou mau dela, aceitou seu aceno de cabeça e partiu, deixando no ar um episódio de morte. Carregava pesado e oco o fardo que era o abraço de uma morte precoce demais para ser anunciada.

- Elis Barbosa

sábado, 27 de agosto de 2011

Matéria

Estava eu aqui, estudando seriedades, quando repentinamente fui acometida por cócegas impossíveis de localizar. Fui arrebatada por uma vontade enorme de espreguiçar no chão, agora nu, da sala, de olhar por baixo dos móveis. Quem será que mora lá? Achei melhor não saber, são já tantos os isqueiros perdidos, as canetas desaparecidas, as palavras fujonas, vai que tramam contra mim bem debaixo do meu nariz?! Melhor não saber.

Tive uma vontade imensa, depois, de me desintegrar instantaneamente, dissolver sem angústia, numa bacia muito gorda de água quente e pelos curtos, que não me abafem. Dormir despreocupada com o movimento do mundo, esquecendo visceralmente que o minuto seguinte existe e que depois dele outros virão num cordão cuja finitude me escapa, mas a contundência dos afazeres por vezes me esmaga.

Nem tem sido tantas as restrições das horas, quando folheio os dias verifico contente que não há do que reclamar, mas gulosa, queria mais, queria calar por dentro para ouvir o discurso do corpo, e só. Daí fiquei imaginando a perfeição de sessenta minutos começados pelo despojamento de qualquer matéria sobre o corpo, que não fosse aquela água boa massageando as carnes, na boca um sabor que fosse três, café, chocolate e morango, nos olhos as lágrimas que por ventura ou desventura viessem a pesar mais tarde, para os ouvidos algo isento de palavras cujo compasso casasse com o de dentro, e terminados esses minutos encontrar-me-ia na secura morna, macia, de cama ocupada por Morfeu, cama cheirando suave a mel.

Revisitando a lista de exigências dou conta que, humilde, preciso de pouco para pagar meu próprio resgate, sorte minha ser assim tão rente ao chão.

- Elis Barbosa 

domingo, 21 de agosto de 2011

Bobinha

A primeira vida foi passada numa clausura terna de interiores sólidos. As manhãs tediosas eram contentes com sua dinâmica iluminada por um sol rigorosamente branco que nem havia lápis de cor possível para pintá-lo fidedignamente nos cantos das folhas dos cadernos, que por sua vez cumpriam a rotina de quebrar a continuidade de um ano inteiro quando se renovavam deliciosamente perfumados. Perguntava-se, de prazer, sem querer resposta: de onde será que vem esse cheiro de caderno novo? Todo início de ano letivo tinha o nariz enfiado nos cadernos e livros encantados, cujo perfume foi o primeiro dos alteradores de consciência que experimentaria ao longo do comprido caminho.

Depois vinham as tardes, igualmente repetidas através das semanas infinitas, sempre tendo como pano de fundo o bambuzal muito verde, muito alto, muito cabeludo. Os coqueiros triangulados ficavam por ali também, em outra sala, fazendo moldura para o céu que era a rede de então, a conectar os que ali pousavam os olhos. Tinha o riacho escuro, muito fino correndo num lugar sombrio, onde o sol achava apertado entrar inteiro e só o fazia em lascas. As amoreiras pesadas de frutinhas beliscadas pelos pássaros chamavam sempre para a brincadeira de colorir a cara das crianças que nunca resistiam à acidez doce daquele encarnado doído das amoras miúdas.

Ai, que rotina era aquela vida, os intervalos bem marcados por suspiros tediosos, de quem só continuava a vivê-la por curiosidade, pensava assim, com certo desdém daquela existência enfadonhamente possível, com distrações prazerosas e pesarosas. Havia tremores de coração, pequenas paixões como a hora do lanche da tarde nas casas das primas, que vinham anunciadas pelo cheiro de café fresco e mate. Elas sim eram felizes e não sabiam, caso estivessem em sua casa só viriam frutas, bananas amassadas com aveia e mel, vitaminas de abacate, maçãs, mamões, um festival natureba-hiponga orgulhosamente proporcionado pela mãe zelosa, que só aumentava-lhe a sensação de continuidade repetida com seu ritual deliciosamente guloso de bolos e biscoitos feitos por ela mesma toda sexta-feira. Tanta saúde chegava dar insônia.

Dormia-se sempre à mesma hora, acordava-se com carinhos, mimos e achocolatados, uma mesmice extensa e azul. Descobriu cedo os livros, a eterna fuga para todos os lugares, dentro de uma solidão confiável, dentro das histórias dos outros era possível viajar sem os olhos perscrutadores dos pais atentos. Teve o passaporte carimbado até as folhas terem de ser renovadas, e não parou nunca. Queria tanto a aventura de viver as coisas que só viriam depois que crescesse, mas tanto, que sentia ser melhor ignorar a vida de agora, limitando-se a reunir forças para o que viria quando tudo valesse à pena, quando fosse grande. Aconteceu que num dia de chuva forte, ouvindo a mãe cantar a música da chuva (muitas coisas tinham suas músicas naquela casa), repensou sua decisão e resolveu, por via das dúvidas, olhar os dias com atenção, passando a assumi-los intensamente. Sorte sua, haveria de recorrer a esses mesmos dias para matar a sede de sentido advinda da incoerência do mundo grande.

Cresceu em torno dos olhos curiosos por tudo que pudesse ter sentido maior ou diferente, desdobramentos inusitados, chances avessas. Conheceu pessoas sortidas, passou por lugares inesquecíveis, amou mais de uma vez a mesma pessoa, depois, quando acreditava não ter sobrado nada, amou outras pessoas. Mudou muitas vezes tantas coisas, que cansou e desejou não mudar mais, pediu para os dias passarem amenos, repetidos, sussurrantes, quem sabe a antiga serenidade das horas marcadas, da dieta programada, um pouco das antigas certezas, não lhe fizesse bem. Lembrou-se de quando queria tudo, olhou em volta e descobriu grata, feliz, que antes de qualquer lição havia aprendido a que precisaria depois para continuar, a de ir devagar, a de fazer rotina, a, tranqüila, recorrer às repetições delicadas dos dias olhados pelos outros como comuns, guardando o descanso morno nascido do conforto da rotina.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Prólogo


Havia ainda um filete de luz esmorecendo devagar, um pouco arrepiado pelos rumores vindos na respiração das rachaduras da construção condenada. Anunciavam noite sem lua. Depois não havia mais nada. A luz apagou anunciando a proximidade da hora do nascimento. A luz tem de morrer antes dos nascimentos para não cegar quem vem chegando. Suspendem o ar, estendem o suspense na janela para que fique reservado o momento íntimo da passagem, é hora de se lavar, de aprontar-se para receber a novidade que iluminará tudo diferente.

A gravidade do momento punha o indicador sobre os lábios pedindo silêncio, espaço à respiração de quem reúne forças para cortar a corda. Pausa. Vacila? Não, espera resignada acomodar-se a ciência da inexorabilidade do gesto prestes a ser, e no entanto, todos depois disso voltariam a ser, mais nada. Absoluta, a certeza aperta-lhe o braço lembrando de que é hora, o corte necessário tem de ser fundo para que venham tempos limpos do mofo acumulado com a umidade salina das lágrimas suadas.

Olhos cerrados, corpo retesado de conhecer o significado que o gesto carrega, era chegada a hora, avistava já o olho do furacão e ao ser alcançada não resistiu, procurou o lugar menos doído, conhecido de outras tempestades. Acomodou-se, e se deixou arrastar pelo momento, cuja urgência de vida fazia-se maior que o medo de abandonar o sonho morto. Estivera ali velando e chorando por ele desde quando, há tempos atrás, avisaram da contagem regressiva dos dias. Quando é assim, o aviso da morte antecede ao do nascimento, sem que essa ordem tenha nada que ver com um possível consolo, nada consola das despedidas abominadas, a ordem do aviso obedece as leis da natureza, só isso.

Partira. Olhos vazios, forças rasgadas, a certeza lhe dando a mão direita, a tristeza a esquerda, não havia espaço para mais nada além do susto diante da própria coragem de ter olhado nos olhos da verdade feia que amparava a decisão de partir a corda.

Perder para a morte não é novidade, o trágico do momento marca mais uma passagem, como tem de ser. Vai-se o sonho, fica o amor guardado nos alfarrábios a conter as histórias reais e as inventadas. O recomeço ficará a critério da continuidade inelutável imposta pela passagem comprida e eterna dos dias distribuídos nos pacotes semanais. O luto enche a escuridão da noite com sonhos confusos e tristes, as manhãs não querem acordar secas e chamam as lágrimas para umedecer o chão que virará tarde lentamente.

Isso também passará, e depois que a tempestade se for, voltará a ser terra fértil o que agora é fadiga exaurida. Abrir-se-ão portas e janelas e precipitar-se-á luz sobre o novo caminho de nuances conhecidas, haverá novo ânimo, será sentido afinal o propósito do movimento, como se a repetição do ato de cortar e sarar daquilo que não faz mais sentido servissem de prólogo para o que ainda será vivido.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ouvídia

Este texto, ora revisto, foi postado no site Trema Literatura, na coluna quinzenal de Elis Barbosa. 

Fora mais empenhada em manter um consumo mínimo de três nacos de ternura por dia, andava relapsa. Mas há que se pender para a compreensão, e até certa condescendência, sabemos, descuido vira vício de uma ausência para outra. Sabia que não era bom andar assim faminta – a falta da ração diária causava já perdas significativas –  tornava-a dispersa, inquieta, embaçava-lhe o entendimento, fazia-a abrupta.

Sabia da hora, estava atrasada, sem apetite para consumir o recheio do tempo subsequente, caminhava olhando para o chão, tinha saudades da lua, e certeza da perturbação que lhe causaria olhá-la nos olhos, por isso a evitava. Repassando os movimentos feitos naquele dia, constatou mais calma, que todos tinham sido no sentido de uma dieta mais equilibrada, e teve pena de perceber que precisava fazer mais, sempre mais. Manter em dia as quantidades necessárias de amor manifesto em carinho, de compreensão dos olhares trocados, de tempo desdobrado em entendimento dos mistérios guardados nas horas, de descanso nos abraços que cediam o calor essencial que sol nenhum pode render, era cada vez mais raro. A disponibilidade andava fugidia, danada.


Para quem precisa de um mínimo de três nacos de ternura por dia, os minutos são densos e passam multidões pelo buraco de uma hora. Acumulam-se enigmas insondáveis por todos os lados dos interiores, trazendo uma indolência ruim, espécie de fraqueza.  Como um banzo cuja seta negra aponta para uma falta essencial, fica insossa a alma carente. 

Envolta nesses pensamentos, cavando caminhos por onde escoar sua busca, ouviu o circo que estava na cidade, achou gozada a música que levantou seus olhos sorridentes ante as lembranças graciosas que os ouvidos auscultavam. Caminhava pelo canteiro central de uma avenida onde tudo era urbano, mesmo a cidade sendo pequena, carregava todas as palavras ditas até aqui, tentava ordená-las num sentido qualquer, quando o circo de música levantou-lhe suave o queixo para que visse o banquete servido bem ali, no meio da rua.

Sentadas no meio-fio, de frente para o circo, estavam uma velha e uma criança, tinham os ombros encolhidos, o pescoço enterrado entre eles buscando algum abrigo do vento que nunca pára. Olhavam conpenetradas e silênciosas para o mundo de cores musicais ali, do outro lado da rua. Mãos postas sobre o colo era a menina, a velha limitava a distância entre elas com o braço que envolvia a pequena. Ambas pertenciam-se, uma à outra, figuravam como duas flores geradas uma da outra naquele canteiro incerto. O abraço, esse sim era real e quente e substancioso. 

Envolvida naquele colo, ela que vinha tão realísticamente desprevenida, quase incrédula quanto à existência dessas gratuidades amorosas, vê a  menina começar a gesticular apontando para o circo, e falava muito, com mãos também tal qual é das meninas fazerem. Feito bailarinas malucas e muito libertas elas se movimentam muito e pra sempre. Muito atenta ela nota que a menina é ouvida atentamente pelos olhos da velha que a acolhia com amor de vó, cuja descrição não tem como ser transcrita, só sabe do que se trata quem já teve olhos embaçados de velho amoroso sobre si e mais nada.

A menina falava e a velha assentia toda. Será que era do circo que falavam? Será de quê que aquela menina precisava? Seja lá do que for ser ouvida já era tanto.

Agradecida, a esfaimada fartou-se, e renovada continuou seu caminho em direção ao mar, agora disponível, atenta, olhando a lua, derramando-se em precisão de amar mais para viver menos a aridez do resto que fica.
  
- Elis Barbosa 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

HeiGhT


Da pedra mais alta de todas abre-se, muito disponível, embora um tanto imprevisível, um cenário amplíssimo feito de todas as chances que tem quem resolver explorar o que adiante se apresenta. Tem de um tudo, mas grudada nos meus olhos sorridentes, a imagem que se destaca por todas as metáforas que guarda coerente e carinhosa, é a casa suspensa no ar por milhões de balões coloridos.


Mesmo aqui sendo isso tudo de alto, acho muita graça de não ter, agorinha mesmo, aquela agonia de pular, de não ter agonia com nada, de gostar de ficar e pronto.

E lá dentro, agora que a casa também é minha, posso inventar tudo de novo, posso contar a história que me der na telha.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 1 de junho de 2011

CRAYON

Eu podia falar do tempo mas, tenho medo que me ouça e de castigo passe ainda mais corrido. Saturno nunca teve fama de bondade. Falarei então de certas cores que vão esmaecendo sob o efeito das repetições.

Muda o tempo, conforme a virada das ampulhetas das estações. Quatro damas distintas que em procissão renovam as energias da natureza, de toda natureza. Trazem na barra dos vestidos mais ou menos: poeira, frio, lembranças, outras cores, calor, morte, regeneração, certos bichos que pousam nos quadros e se alimentam deles.

Tudo se passa sobre as telas cujas cores vão esmaecendo. 

As Estações passam, inexoráveis, acenando sua presença e despejando todos esses elementos sobre as cores das imagens que carregadas.

Cansadas de serem intensas, cada qual no seu grau, as cores pedem pra sentar, vão fechando os olhos aos poucos, querendo dormir, e a luz que outrora exibiam portentosas, vai cedendo até partir, deixando sobre tudo a morbidez pálida de vida que se despede demoradamente. 

Antes que chegue essa hora as cores pedem água, poucos escutam. Pedem retoque, restauração, brilho, luz, mais, sempre mais e de novo. Se é de repetição que morrem só lá encontram o antídoto. Todavia, discretas que são, pedem baixinho, não são de muito barulho as cores. O grito mudo que escandaliza os olhos, vem com força na Estação cujo maior volume é o da brisa branda a se esfregar sutil nos lóbulos desarmados.

Tudo elas fazem antes de pedirem pra sentar, avisando bastante que se não apreciadas mudam-se para outras alvoradas. Relegadas aos processos naturais as cores naturalmente morrem. Sem a dieta daqueles já mencionados três nacos de ternura, sem a repetição das palavras que encarnam sonhos, cheias da ausência dos rituais lustradores das íris, são os olhos o filtro a tornar as cores de dentro e de fora opacas e sem gosto, ou brilhantes e renovadas. 

As cores que as vistas observam desmaiarem pedem, numa ladainha rançosa que olhe para elas, que tome tua aquarela nas mãos e traga-as de volta, as cores de mim. Salve-as com o amarelo das declarações amorosas, olha nos meus olhos com a intensidade dos solventes mais poderosos e acaba com minhas dúvidas, toma a tela que compartilhamos e avermelhe-a com a língua despertadora da insensatez pura, querendo escorrer por todo o espaço, mais nada. Saca, discretamente do avental, um tempo para deter-se no carinho róseo-delicado arrepiador de nucas, tira de mim o modelo para tuas fantasias, faz brilhar meus cabelos com o viço do verde que é tua admiração. São tuas as cores que colorem metade das cores de mim. Se for ficar, volta logo, estou secando de saudade.

- Elis

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Noturna

 Este texto ora revisto, foi postado no site Trema Literatura sob o título "Memórias Noturnas", na coluna quinzenal de Elis Barbosa.

O verão dos trópicos convida sempre a muito, lateja pelo excesso. A noite convida mais nos verões tropicais e é para a festa que começará tardia. Nesses dias de malemolência febril o sol nunca quer se pôr, mas à moda da casa, cada qual na sua, dia com sol ou noite com lua, razão pela qual ele sempre cede.

 No Rio de Janeiro a noite vem parando pelo caminho, sorrindo melancólica, cariocamente atrasada ela começa, chegando sem pressa de acontecer, com suas estrelas miúdas penduradas ao vestido comprido, rasteirinha de nuvens frescas, cabelo de brisa sedosa, úmido ainda cheirando a Dama da Noite. Vem vindo para aliviar o castigo do sol diurno, ferrenho, marcante das peles que a ele se expõem por prazer ou necessidade. Traz unguento de hotelã nas mão de dedos potentes.

 A noite cortês recebe delicada e indiscriminadamente, envolve as confusões humanas em seu manto permissivo, venal, hedonista, ébrio. Acompanhada dos tambores tocadores do baixo ventre traz à baila desejos que só são se for noite, movimentando natureza, viva e morta. Há quem ressurja das imagens coladas nas paredes chamadas muros, acenando todo tipo de obscenidades em plena madrugada, distribuindo sustos pelas calçadas acidentadas da Lapa, a Velha que deixa saudosos os que dela gozaram a cumplicidade do anonimato subversivo concedido aos que dali fazia morada da própria história, circulando por todos os sítios.




A maresia deixa carregados os caminhos percorridos. Tal qual velhos suburbanos, sentados nas calçadas em frente a seus portões, o Vento conduz as histórias que ela conta, histórias das vidas dos outros, na serventia de iluminar as passagens dos ouvintes atentos, ilustrando tudo com os ais que repenicam ainda, para o bem ou para o mal, efeito de quem caminha por estas bandas. 

Tanto por lá vivido, contos e contas acumulando-se pela paisagem à francesa, já bem machucada e querendo mais como boa mulher de malandro que é, a noite na Lapa quer mais, ainda pode mais. Pede que venham todos com seus despojos e que ali se deleitem ao sabor do embotamento licoroso dos gestos escorrendo da dança da Noite com a Cidade, convida todos ao compromisso com o não querer saber do dia de amanhã.

- Elis Barbosa

domingo, 8 de maio de 2011

Trilha


Não coleciono fantasmas, desgosta-me deveras a idéia do sobrepeso considerando a lonjura da viagem.  Entedia-me a impressão de repetição infrutífera sobre uns assuntos mortos. Desagrada-me encontrar defuntos, não por temor ou desprezo, mas por gostar de encará-los como fatos, memórias acessíveis no museu das lembranças, se e quando me aprouver.

Tem que desconheço as regras aplicáveis aos sonhos, às lembraças e ao uso da crase, de modo que pode acontecer de as noites serem invadidas por imagens carregadas de cheiros e vozes que faz muito se foram. Acordar de sonhos que transformam o relegado ao ostracismo em obscenidades é constrangedor, como quando se molhava a cama da infância, o desconforto frio anunciando que tudo seria mais trabalhoso e irritantemente explícito. Melhor nessas ocasiões é acordar só, o amassado da cara de outras vidas, se temos acordada testemunha atenta é flagrante certo.

O enredo dessa noite foi especialmente intrigante, sugeria a vivência de uma maternidade adiada, com a participação especialíssima do príncipe da Branca de Neve, que, comprometido não podia estar presente naquele sonho, nem acompanhar o processo daquilo que estava em formação, fato celebrado por mim por achar que havia muito fora de lugar. Embora não admitisse ainda que era um sonho, algo dizia claro que a realidade não poderia ser assim tão fantástica e tão arbitrária. Afinal, que hisória é essa? De quem? Nossa é que não haveria de ser.

Tal qual todo o resto das coisas que se despem abruptas aos meus olhos, esse arroubos oníricos vêem sempre quando a guarda está baixa. A vida bem comportada, os problemas disciplinados, os prazeres bem distribuídos, e aquela sensação insana de eternidade. Tenho medo de mudar de fase, de estágio, tenho medo de subir mais um degrau, é quase instintivo saber que crescer, mudar, envelhecer (entre outros) é avassalador, de arrepiar as almas mais indiferentes. Penso em propor negócio, gostaria de entrar num acordo, acredito ter com o que barganhar, afinal, até aqui sigo obediente, embora não resignada, ao que vem sendo posto em pauta. A vida manda e eu obedeço, mereço uma pausa, recreio, uma aliviada na tensão. 

Resolvo não tomar em casa o café de amanhecer os dias, fazer recender seu cheiro ressuscitador de esperanças naquela atmosfera ainda indivisa poderia desgarrá-lo do lar a que pertence agora, sem falar na boca ainda amarga com o gosto do reencontro despropositado, vai que não é identificado o amigo resignificador de todas as emoções? Seria arriscar marcar desnecessáriamente uma relação imensamente prazerosa de uma vida inteira. Sendo assim, verificada a bolsa, parto em jejum para as expectativas marcadas na agenda do dia.

Comprada a passagem é hora de acordar, ainda pensando no sonho acho melhor ir de expresso, é impessoal, mais forte que o caseiro, chega com seu gosto executivo e sai fechando tampas, abrindo janelas, transitando pelo espaço com referências comerciais. Distraída com a imagem de duas senhoras que também tomam seu café, mas na mesa ao lado, debruço sobre a imagem e vejo que são mãe e filha, passadas no tempo, cuidando com carinho e silêncio uma da outra. Na caderneta mental que carrego para o que não pode ser dito tão logo seja concebido, passo a anotar os elementos que comporiam a equação, cuja incógnita seria algo sobre maternidade, very funny.

Sinto a gravidez do sonho e me irrito, lembro do bebê que visita minha casa toda semana e tenho saudade, toca o telefone e atendo. Minha própria mãe quer saber de mim, se, quando e pra onde vou hoje, domingo devemos passar juntas mas ela não liga de estar se antecipando em dois dias, ela é louca por mim, morre de saudade dos tempos em que morávamos juntas, e humana que é posso afirmar sem pudores que trapacearia se assim pudesse ter um pouco mais de nós como era antes. Mamãe assume hoje com certa tranquilidade suas incoerências e absurdos, o que alivia a todos nós da impressão de que o resto do mundo é que era louco.

No ônibus frio não durmo, cochilo, tenho encontros importantes, marcados por mim e pelo acaso, acostumei, a surpresa é com quem, se bem que nesse caso já nem isso é surpresa. Chegada ao lugar onde as imagens que alimentam meus sonhos estranhos nasceram, onde um encontro gratificante, elucidativo, e promissor se daria, e ainda onde o que não marquei sucederia acolhedor, acendo o intervalo consumido em fumaça mentolada, sento junto a um gato preto e espero que todos os elementos contidos em espaços de tempo tão diferentes sosseguem um pouco. 

Horas depois, cheia de novidades costumizadas, encontro minha irmã, minha mãe, meu eterno começo. Falamos das vidas dos outros, das nossas, e colocamos o pão do dia seguinte pra descansar. Acordo sem promessas, o dia passa e encontro minha tia, minha mãe, minha irmã, meu eterno começo. Volto a ser pequena, escorrego no sofá para caber naqueles colos que me suprem com o imprescindível para continuar. Assino a promissória da dívida que farei com certa ausência inadmissível e durmo, só um pouco, ao lado da irmã que ressona. Sinto a gravidez do sonho já quase esvaido, mas não me irrito, entendo. Somos todas prenhes do universo que vamos reproduzindo, algumas em gente, outras em palavras, algumas em gente e palavras.

Desperto brava, a promissória cobrada por telefone, abraço meu pai e meu irmão, olho nos olhos das mulheres que acompanho e compreendo a perenidade de tudo que é construído com amor. Abrando a rudeza, firmo no propósito de amar como me foi confiado. Toco de volta para a casa que venho construindo com tudo que levo desde sempre. Sinto a gravidez do sonho que se despede e tenho já saudade dele e dos vivos chamados fantasmas preventivamente, para que não me marejem os olhos, posto que são conservados por amor e gratidão, reconhecendo-os mais meus que nunca.

Grata e contente, seria desonesto furtar o sorrir advindo de se notar que tudo isso somaria só num monte de palavras não fosse a gula de quem se apropria de cada momento para saber mais, passatempo primordial dos que não têm nada de útil pra fazer.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Dormideira


Eu queria ser leve, eu queria ser leve de modo a não sentir meu próprio peso. Eu queria soar leve de modo que as palavras flutuassem de mim até se esvaírem. Eu queria um pensamento desanuviado, ponderações solúveis.  

Eu queria sentar na pedra mais alta para que o vento passasse através de mim, causando tão somente um frescor sutil de hortelã. Eu queria chorar todas as lágrimas do mundo, mas que elas não fossem salgadas para serem leves. E queria que nada disso fizesse qualquer diferença.

Seria bom se não houvesse começo ou fim, só a continuidade das coisas, isentas de processo, de mudanças dramáticas, ausentes de mim.

Saco vazio não pára em pé, e era isso mesmo que eu queria, ficar um tempo deitada em temperatura ambiente de mim, e mais nada.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dignidade


 Este texto foi postado no site Trema Literatura sob o título "Madura", na coluna quinzenal de Elis Barbosa.

No grande mercado, abrigo dos víveres e morteres que recheiam a geladeira aberta por compulsão quando é difícil tocar pensamentos fugidios, estava, na sessão do pão-nosso, entre os integrais, que a metáfora tinha de ser completa, uma esfinge de mulher erigida por prováveis sessenta anos. A moça, cujo olhar fora capturado pela encarnação do hipotético, tinha a alma anêmica do que a velha transpirava: dignidade. Suspirando gulosa, imobilizada, imagina que deveria passar a ter em casa vitrines expondo o que, de tão caro, não é possível etiquetar.

    O gesto com que examinava os pacotes de pão era como se soubesse do seu lugar no mundo, de quantas vezes mais teria de comer, caminhar, adormecer, chorar, conter, sustentar o mundo se fosse preciso, já o tinha feito antes. Sabia das trilhas secretas dos caminhos que a moça apenas adentrara. Tinha os cabelos prateados presos no alto da cabeça num penteado delicado e feminino, os olhos orientais não se apertavam, espelhos que eram de certezas nascidas dela mesma. A boca, cercada pelas marcas emocionadas do que chamamos tempo, guardavam palavras acenando. Era bonita, e estava pintada. Ora, se a dignidade não haveria de sair à rua sem se por bela, ela moça já devia saber.

    A estatura era bondosamente baixa, acessível, nas mãos de unhas cor de rosa carregava anéis, o esconderijo de segredos mortais que levaria consigo até não mais poder, de dramas ordinários da parte das dores particulares, de receitas de chás mágicos, de pedras protetoras. As flores, estampadas no pano leve que cobria o corpo esbelto tinham já notado que eram observadas, piscavam para a moça, adivinhando que se tratava de necessitada.

    Estar no mercado, a moça que era só, escolhendo encher carrinho, era figura de quem volta de longe, e pretende o recolhimento curativo. Era figura de quem ia consultar o silêncio sobre o que aconteceu, resignada em rever as contas que tinha a prestar consigo, a casa cobrando a indulgência dos últimos meses. A confusão de proporções ainda desconhecidas tinha de ser já organizada, havia cacos de amor pelo chão, despedidas penduradas na porta do quarto, mágoas úmidas em cima da cama, desaforos empilhados na pia da cozinha, vazio ocupando a geladeira.
 
    De modo que, especialmente depois do telefonema que a acordara, teve uma fome horrível amargando sua falta de apetite. Resolveu ir ao mercado, encher a geladeira, aumentar o acolhimento de seu agora precário eu. Tudo é ruim e nada presta, até se ver diante daquela figura eleita. Descobrindo de quê era a fome que tinha.

    A necessidade do olhar da moça cutuca a distinta senhora. O sorriso que se seguiu ao encontro dos olhos foi de uma ternura que ignorava motivos, mas sabia consolar. Confortou alimentando, religou os pontos dos sentidos, equilibrou o peso das lágrimas, dignificou enfim todo o esforço feito até ali.

- Elis Barbosa

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Entendeu – hum, hum.


Num suave rompante, quase uma coreografia, espalhou o palhaço da cara num chumaço de algodão da melhor qualidade, do tipo alvíssimo, embebido em desapego. Custara-lhe caro aquela unidade de desapego, textura quase etérea. O valor o produto correspondia à qualidade, verificada na vinda de elã levíssimo de saudade nascida da seridade com que se passava a cogitar o abrir da mão no aceno permissivo de “vai se embora”. Bastava uma aplicação. Talvez fosse essa a sensação do Douto que tentara lhe instruir quanto ao “vamemborismo”, movimento todo dele, universalizado no inédito verbete fugidio.

Dependia do desapego para que lhe voltassem as expressões do rosto, as rugas da alma. Era o que abria espaço no tempo dos dias destinado a se viver o caminho construído a despeito do desejo. Especialmente naquela hora, quando se via o movimento de certa rebeldia interna, nascendo à revelia das escolhas processadas na razão, contra a generosidade advinda de todo aquele abandonar contínuo. Talvez fosse necessário mais tempo para se conformar ao que lhe cabia, tinha o corpo cansado dos exercícios de moderação. Perpassavam-lhe ímpetos de desproporcionalidade, arroubos soluçantes avisando da iminente invasão do desespero.

Sentia sede de lágrimas correntes, do rosnar furioso vindo da desesperança de quem reconhecidamente ignora amanhã, tendia a abandonar-se no tombo necessário para “arranhar o asfalto com as unhas”, por tédio, raiva, frustração, impotência. E como para se limpar de toda a imundície que lhe foi arremessada na cara, quis rasgar o que o pano tentava cobrir, decidindo parcimoniosamente por rasgar o pano mesmo.

O excesso desconcertava a balança exata a medir o que só os olhos podiam provar, nascido do acúmulo de tantas idas e vindas, inventado, passional, covarde, levado debaixo do braço para ser usado quando o vigia dormisse, baixo demais para estar contido no conjunto do todo.

Dissimular o tamanho da angústia erigida no meio da encruzilhada com ponderações precedidas pelo pigarrear de pausas infinitas entre uma elaboração e outra, dava à máscara um ar patético. Melhor seria se pudesse mover-se em algum sentido, o que faria caso houvesse motivo de qualquer natureza.

Cada pedaço do outro que se lhe esvaia da cara para o algodão era sobrepeso voltando aos ombros cansados de fingir que não lhe custava nada despistar mais essa dor, engolir mais esse não despropositado, resgatar mais uma vez o sorriso infeliz de quem capitula enquanto arquiteta fuga. Até que o ritual se acabou ao extinguir-se toda a tinta, bem na hora em que a chaleira apitava.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

QuImErA


Cumprimentando o dia de lado, deixou o formato do corpo na cama e depois acordou. Esfregava muito os olhos para desmanchar as imagens do que ainda não secara o suficiente para se saber de ser só sonho. A noite não havia sido das mais generosas. Isso considerando o que é conveniente de se ter em fartura. O sonho insistente, a continuar entre um e outro despertar de consciência, teria sido de generosidade redentora fossem outros os tempos.

Os olhos inchados de não chorar reclamavam no espelho lhes ter sido negada a chance de entrega às lágrimas. Agora mais essa, o corpo ressentido de não ter podido viver às cegas um simulacro dos mais bestas! Era muito antiga a despedida, cujo processo arrastou o tempo e o resto, atravessado o pântano com o corpo e o espírito, cada qual embaixo de um braço, partiu quando julgava não haver mais saída, foi sofrido, todavia passado, portanto história, e das que não se fica mais a repetir o lado B. Honestamente, ela não ia passar aquilo tudo em revista de novo, o residual  fora já mais que processado.   

A falta de coerência é que irritava, mémoria traidora a ressuscitar fantasmas numa despropositada perspectiva de talvez, quando tudo, absolutamente tudo estava tão bem assentado. Havia inclusive um jardim esplêndido, cultivado com amor, boa vontade e alegria, onde antes era tudo luto. Ofendia a clareza com que ainda estavam guardadas imagens, vozes, sinestesias. Estava tudo ali por dentro, mas onde? 

Enquanto o cheiro do café passando pelo pó separava a noite do dia, lembrava-se da conversa que tivera com seu espelho espiritual, dando conta que, talvez, o teor do assunto tenha mesmo levantado certa poeira, eriçado sensibilidades adormecidas. Certo, mas daí a inventar discursos renovadores de votos?! Não foram essas as curvas percorridas na conversa, falamos sobre perdas, sobre resignação, sobre reconfiguração de impossibilidades antigas transformadas agora em vias passíveis de trânsito. Entende?

A tristeza de ter revisitado tantos lugares em um corpo só, e de tê-los desejado, era ofensiva à realidade de um presente cheio de outro amor, que participou do sonho tão somente em consciência de compromisso. Será verdade que amor multiplica sem substituir? A culpa de ter descoberto algo mais na dimensão de sua bagagem, dos desconhecidos componentes da banda que também participavam da composição de sua história, era violenta, mais amarga que o café que não podia adoçar. Acabara o acúcar sem que tivesse se dado conta. Muito engraçado.  

O tempo quase todo sabia estar sonhando, a intuição do melhor caminho despertara-a algumas vezes, mas adormecendo voltava ao ponto de onde saíra, e num reflexo curioso do que foi a realidade percorreu o caminho até o fim, sem que nada tenha sido concluído. Posso passar essa vida inteirinha sem desvendar o mistério que é esse não fechar de portas, essa inconclusão, fazendo o favor!  

O sonho estranho orquestrara seus símbolos com maestria, estavam representados os maiores medos, as frustrações mais irremediáveis, até o mar apareceu naquele delírio egoísta, mas foi diferente. Dessa vez, dessa única vez, o mar era tranquilo, embora em movimento. Havia ondas gigantes que ladeavam seus passos, sem respingar nela o sal, bem uniforme e comportadas elas passavam imensas, acenando tranquilas que não era hora de bater, que por agora não passavam para afogar.

- Elis Barbosa

fotografia por Edward Hopper, Morning Sun, 1952.