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domingo, 19 de dezembro de 2010

Brevidades Seculares - Parte I

Tento ordenar os afazeres preenche-dores dos dias que ainda não vieram. São muitos, mas de rápida solução, a cidade, agora pequena, apressa o tempo gasto no centro miúdo, embora o estique para quase todo o resto.

Agenda em punho, vejo finalmente se acabando o ano que começou há poucos meses, essas unidades de tempo passam cada vez mais relativas. Faz muito desde o início, o que não quer dizer que tenha de passar tão rápido agora. A ironia de o tempo não parar quando a lucidez acena do outro lado da rua (tão mais próxima!) tentando, em vão, atravessar no momento exato em que dela temos a maior avidez. Preciso listar compromissos, tomar nota do que não pode ser esquecido, organizar tudo de modo a nada faltar.

Lembro de ter anunciado minha ausência por dez dias, planejo esse regalo faz meses, como pode me doer pensar em partir da cidade que nem minha é. Só eu sei o quanto irrita sentir essa pena de não ser onipresente. Isso, além de maluquice é muito chato, só pessoas chatas pensam assim, às que falta espírito aventureiro. Tenho essa limitação, meu olhar é manco, lanço-o a imensidões, mas não vai longe, detém-se na primeira flor que lhe aparece, demora-se nela, e logo quer ficar ali para ver como será amanhã para a flor, quanto dura, se mudará de cor, se buscará o sol, como será a coreografia quando o fizer.

Hoje estou especialmente dispersa, não consigo concentração para nada, é respirar mais comprido e volto a olhar para dentro. Tem, que preciso listar essas coisas, preciso me organizar, afinal já não é possível viver assim, postergando a ordem expedida pela realidade. Vamos então à agenda, sem mais delongas!

Toca o telefone. Adio a agenda para ler na tela histérica do aparelho “chamada desconhecida”. Ótimo, essa foi boa. Talvez seja mesmo para melhor interromper o balanço enjoado desses pensamentos. Atendo ou não atendo? Atendo que não agüento sem saber quem chama, pois era uma moça mecânica contando a novidade de minha operadora telefônica ser agora amiga de um banco, e ambos muito atentos à satisfação de seus clientes, “estariam oferecendo” uma promoção vantajosa, de meu interesse. O pêndulo agora batia “desligo” ou “não desligo”. Fiquei na linha intuindo que a piada seria daquelas.

Confirmados os dados, ela sem brecha engata dizendo, muito atenciosa, a senhora sabe que hoje em dia existem muitas balas perdidas, os acidentes por balas perdidas têm aumentado cada vez mais e por isso estamos oferecendo um seguro de vida que retornará para a senhora em ligações. Desatei a rir silenciosamente, um pouco confusa com o benefício oferecido, perdida no rastro de números que a mocinha ia citando sem emoção. Serão ocupadas assim mesmo as intermitências da morte? Fazes-me falta querido, tu e a acuidade de tuas palavras!

Sacudido o momento, foi inevitável olhar o entorno, quis certificar-me de que não havia por ali movimentos de balas perdidas. Acho intrigante ser conferida tamanha naturalidade aos acidentes por balas perdidas. Não aceito isso, não posso morrer de bala perdida antes de parar de fumar, seria um disparate. Coerência em primeiro lugar.

Sim, ano que vem devo parar de fumar, mas isso não entra na agenda. Preciso completar essa agenda, fazer uma lista de compras, não posso esquecer os panetones, que, diga-se de passagem,  não gosto. Só dos de chocolate, aliás, como puderam demorar tanto para inventar os de chocolate? 

Não sou nenhuma autoridade em precisar a tempestividade das coisas, comumente tropeço sobre os acontecimentos, se os antevejo então, falta só dar de completar seus pensamentos. Todavia, isso de os dias felizes serem raros e caros, repito sem qualquer convicção, a troco de ver outro dizendo diferente do que se gastaram em me ensinar. Diziam ainda, que além de raros os tais dias só se dariam em condições de pressão e temperatura perfeitas. Pois nem com as informações assim postas, de modo tão claro, me furtei eu de buscar ser feliz.

- Elis Barbosa

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Delirante


Dentre tantos e todos os sabores que estar aqui inclui, consolam minha perturbada não matéria (a qual me nego nomear, cansada da repetição dos nomes de sempre) duas vistas de janelas, a do possível regresso, e aquela donde não se vê muito, posto que pertencendo ao imprevisível os movimentos ali são rápidos, guardam surpresas.

Vê como a perturbação é real? Isso de a saciedade não passar de brevidades, e cultivar a fome (sem qualificá-la para que não se limite) ser considerada mesmo uma arte necessária à resignificação de si, e para tanto do entorno. Será salutar essa atenção ao que sequer está ali?

Sem querer resposta sugiro propositalmente despretensiosa que desdobrar-se e passear por horizontes ausentes é absolutamente usual e até razoável, uma vez que nada. Não há razão nenhuma para se cultivar imaginação, dar-se ao prazer da brincadeira de faz de conta é só conseqüência das estórias contadas cheias de encantamento fazendo brilhar os olhos da criança, imprimindo no que se carrega ao eterno o desejo pelo sonho.

Renego solene e teimosa abandonar o presente, o passado, e o futuro à naturalidade de serem tão somente passagens. Ficam todos comigo o tempo todo em imagens sempre redecoradas pela fantasia, são estórias reinventadas ao gosto da hora, à necessidade da saudade, ao desejo do que projeto no que seja o por vir. Ardil perigoso é a imaginação, especialmente se temperada à atenção constante do que pode estar por detrás da neblina risonha que se compraz na traquinagem do esconde-esconde.

Ardil perigoso imaginar, sonhar, mais perigosa ainda é a coragem que, de mãos dadas à excitação de sentir mais e de novo, confere ímpetos de liberdade aos que, então, se lançam a viajar. Ora, mas se estar aqui já não é em si tarefa de grandes riscos?! De modo que se não há saída (nem eu a desejo) resta a integridade na conduta comprometida em ser inteira.

Sem as travas de segurança, seguindo o cheiro do vento, que é viajante por natureza, anseio nervosamente pelos insondáveis caminhos e inevitáveis acontecimentos rompedores de previsões feitas pelo velho maltrapilho e fedorento que é o Tédio. Todavia, não se enganem, ele nem é velho de verdade, é criança sem estórias a fim de provocar malcriação certa por parte dos que lhe desprezam.

Anseio pelo que ignoro para enfim sabê-lo, e sabendo-o poder colorir fantasias, espalhar no chão imagens e dispô-las de modo que a cada vez configurem invenções diferentes, inesgotáveis estórias, fontes lindas de chocolate, chás, cafés, e água do tipo fresca e insipidamente doce como são as águas boas. Lugares que alimentem aquelas fomes que nunca passam, servindo igualmente ao propósito de cenário dos encontros que já foram, mas por pertencerem à eternidade se repetem ali, dos que estão sendo nesse exato momento e enchem os olhos de muitas coisas, e dos que serão sem nunca, jamais suspeitarmos disso.

Agora preciso ir, meus animais me esperam para uma mesa redonda sobre novas rotas para os passeios vespertinos.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Clichê Refresco


Negra carvão que era, brilhava suando das lambidas que o sol lhe passava pelo corpo firme. Caminhava pela rua de vento segurando o vestido vindo agarrado às formas todas dela. Queria voar.

Pensava, como devia ser, na vida pra levar. Coroada de força pedia saber, tinha sede de sossego. Os mundos queriam sua atenção. Cansava canseira resignada sorrindo esperança, olhava sabida o fim da rua que ia dar no infinito.

A passagem de um sujeito homem lhe distraiu por pouco com suas palavras sujas, carregadas pra longe do corpo puro, como espelho torto não refletiam a beleza que era. Acariciou deliciosamente os cabelos pretos que não branqueavam, crescendo em cachos doidos, macios, encorpados. A pele não marcava com o peso do tempo trepado ali nas costas. Preto é feito assim, pra durar lindo.

A noite chegava mansa, o sol despedia dela a contragosto, refletindo seu protesto em mil cores quentes no céu que guardava ainda alguma suavidade do azul do dia. Condescendente, a preta arreganhou os lábios de morder escandalizando com a brancura dos dentes-concha-de-mar, claros como lhe ia a alma.

Longe se ouvia os tambores a dissipar restos de realidade. Já não dava mais conta do que a havia levado à rua, lembrava só de fazer muito tempo desde que se derretera em regalo de si e nada mais. E o tambor chamando, e ela indo.

Acaba que se deixou pintar no quadro antecipado, acertando lá mesmo suas contas, sambando tudo que a vida lhe devia.

- Elis Barbosa

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Saída à francesa

Fuga é, por definição (minha, baseada na observação obsessiva e viciada de tudo que alcanço), procedimento padrão no complexo mecanismo de sobrevivência animal. Inclusive para os que sabem ler e têm a bondade do o fazer neste modesto canto do infinito cibernético que virou a so called realidade. Fugir é necessidade funda e espalhada, do topo ao talo, manifesta do razoável ao delirante.

Jogada há muito na fogueira, seu fantasma vive preso num quarto de fundos, junto com os outros despojos que não queremos aparentes pela casa. Foi marcada no lombo, a ferro quente, de coisa feia, fraqueza, relegada como privilégio desgracento dos chamados covardes, desertores etc. Maldade de todas as partes. Ingênuo enredo querendo nossa cara à tapa. Levante a mão quem nunca fugiu à luta.

Vomito meus parcos pensamentos vendo daqui acenar Pessoa naquele desabafo poético-clássico, em linha reta, que nunca conheceu quem tivesse levado porrada, que todos os seus conhecidos têm sido campeões em tudo. O poeta é a exceção. Eu me repetir é detalhe, curioso é o assunto rendendo até hoje. Talvez Pessoa não estivesse tão só, provável sermos todos exceção inconfessa.

Feio é sempre quem foge.

Fuga dita assim à luz da tela de todos, pode parecer indelicado a tais e quais humores, logo, para não melindrar os que acham cruas as palavras sem composto – delicada que estou e a propósito de devanear acompanhada – posso passar a chamar fuga de recuo-estratégico. Pronto, eis dois nomes dando a mão pelo hífen, acabando com a descompostura da palavra só. Atinge em cheio aqueles não admitem fuga, assim nua. Porquanto, importante ressaltar, o recuo-estratégico não seria considerado por seus praticantes como fuga, que é coisa de rompante, impulsiva, covardia, ou ainda desespero. Não, não. O recuo-estratégico é postura de quem mantém o controle, analisa cientificamente sua impotência, optando por agir para evitar reagir. Recua estrategicamente. São, bem dizer, os primeiros a correr.

Outro procedimento adotado para os que não querem carregar de sobrenome “Covardia” é resignificação. Coisa sofisticada, elaborada toda na mente criativa de seus adeptos, o mais lúdico de todos. A impotência lá, se rebolando toda no meio do salão, constrangimento fazendo a contra dança. Cenário se esvaindo, construção derretendo. Raiva da boa, apostando corrida na corrente sanguínea com o bom senso, e nada de enfiar as mãos onde gostaria. Vem a ordem: CORRE!

O resignificador não corre! Acredita poder mais que isso, conta com sua mente supersônica para alterar a realidade medonha em cinco segundos. A cara blasé dos que levam o soco na boca do estomago, mas não correm, e ainda fingem, despudorados,  que nem doeu. Assisto a hipocrisia desse proceder também conhecido como auto-engano. Abstenho-me de emitir juízo de valor. Resignificar é fugir sem correr, é inventar para si uma outra realidade que, possível ou não, tira o sujeito da cena do crime.

Tudo lustração da idéia de fuga. A inescapável fuga à qual recorremos e acabamos redimidos. Ausentar-se pode não ficar bem, mas ela nem liga, é preciso. A covardia mantém a integridade dos animais obedientes ao seu comando.

Para clarear idéias, dissolver impossibilidades, e poder então, talvez, voltar ali, nada como uma fuga honesta de animal que, bravamente, reconhece os medos que ainda não pode enfrentar.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ladainha


Espreguiçou-se hoje sobre o dia uma melancolia que resolveu não levantar e por isso o sol nosso de (quase) todo dia, para não atrapalhar, resolveu guardar sua luz de espantar nostalgias e criar contrastes, resolveu folgar a plenitude. Logo ficou esse cinza jogado pra lá e pra cá pelo vento que venta no ritmo de um passear. O desenho desta manhã ficou parecido com o de tarde.

Hoje é dia de me ocupar dos afazeres domésticos, dos detritos do lar, restos de comida, louças por lavar, roupas batendo-se na máquina que demora uma eternidade para ajudar. Quarta-feira em que até a modernidade está reflexiva e toma um tempo diferente do que costuma para agilizar a vida, para acelerar o dia.

É uma agonia fina engrossando o ar, uma insatisfação parecida com dor de barriga, amolação distante, mas constante, acontecendo umas pontadas aqui e ali, sem previsão de passar. Precisando me limpar um pouco, escrevo, recorrendo ao caminho conhecido, mas que hoje está aborrecido, porque não consigo me livrar dessa coisa de rimar em texto que é prosa.

Será que perdi a mão?! Tudo saindo com cara de coisa requentada, uma ladainha enjoada, essa rima que não me larga!

Redescobri a poesia nos últimos tempos e essa reaproximação tem enchido meus sonhos de palavras, e eu precisando dormir, descansar, desconectar dessa realidade sozinha de quem não pára de pensar. Isso assim desse jeito me cansa, mas estou em casa, aos outros é que incomoda com mais vontade e esse defeito ainda não descobri como concertar. A fluidez do cotidiano fica atrapalhada com o estorvo que pode ser a constância da palavra surgida rápida, precisa, pontual.

Vira fardo o tipo da fala, cansa o constante externar de uma intensidade cuja lógica (essa tara por racionalizar!) funciona sempre pra mais, desconsiderando limites ou medidas entre os muros da intimidade possível. Ouço a voz dos anciãos desfolhando alfarrábios antiqüíssimos que discursam sobre o valor da temperança, vejo Comte medindo, calculando, chegando a fórmulas conceituais que nos levarão ao progresso ordenado de uma modernidade funcional, eu conheço essa lição tão bem, já há tanto tempo proclamei minha independência, adotei o escândalo de assumir meu eu, tal qualzinho ele é, de conduzir-me pelo mundo do meu jeito inclusive sendo mulher.

Pesa muito sobre mim isso das medidas, apesar de não ser nenhuma anarquista, sigo as regras absolutamente fundamentais ao bom viver, mas do meu jeito. Cansa muito isso do constante explicar, de ter sempre de justificar, se desculpar, se adaptar. Circulo pela casa querida, espelho bagunçado de mim, e a desordem do escritório se arruma de modo a me irritar expondo uma fita métrica com seus pontinhos inventados. Essa conspiração metafórica fazendo humor às minhas custas é de matar!

Pelo visto hoje não vai ser mesmo dia de passar, está mais com cara de castigo, de cantinho para pensar. Pelo visto o ciclo vai é recomeçar.
- Elis Barbosa

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Encontro Causal


As palavras dos outros, estão carcomendo minhas idéias, estalando meus ossos. São poetas convidados que eu, desavisada de suas intensidades, abrigo em minha casa, eles dormindo comigo, sempre dormiram, e sem serem lidos repousam, repousávamos todos.

Só tem que foram lidos, e quando do acontecido me engasgaram de estupefação por conterem tanto de tudo sem se conterem em nada. Fiquei como a cobra que engoliu o sapo, digerindo em gozo o que me serviram em horário fora dos de refeição. Antropofagia difícil, prazerosa, complexa, arredia, que de vez em quando chega dá azia.

A Elisa (Lucinda) vinha já me aliciando, me amolecendo, sugerindo, introduzindo de leve o Manoel de Barros, que resolvi, consultaria quando fosse propício. E continuo minhas leituras da hora.

Vêm então ela e o Rubem (Alves) papeando em A Poesia do Encontro, sem perigos aparentes, orgias evidentes, ou transtornos eminentes, falando de coisas lindas, curiosas, engraçadas, espalhafatosas, de um jeito tão possível que me senti em casa. Fiquei foi à vontade, tanto que quando novamente foi mencionado o Manoel na história, levantei, tire-o da prateleira sem saber que era preciso cerimônia, e li.

Ele por sua vez me estreou, suas imagens vararam minha alma inteira, sem que houvesse tempo de sequer saber por qual buraco entraram, se pela razão, pelos sentidos, pelas sensações. Susto, frio na barriga, gargalhada descompensada, louca, arrepiada. Manoel disse, dentre tanto, coisas sobre o sol que eu nunca tinha visto mesmo sendo espectadora cotidiana de sua passagem, “No amanhecer o sol põe glória no meu olho”. Disse “o rio encosta margens na minha voz”, e eu emudeci. E sem que mais pudéssemos, sussurrou com a firmeza que a natureza lhe dá, “Sei que meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.”

Parei, fechei o livro lindo, como se fosse um segredo. Deixo-o por perto, olho-o de soslaio, deixo que me olhe de volta. Adio de caso pensado a entrega, sabendo já que é coisa certa.

- Elis Barbosa

domingo, 25 de outubro de 2009

O Gato



Ouço o ininterrupto miar de um gatinho que não sei se está abandonado, gatos quando bebês choram, mesmo que abrigados. Sei disso porque os meus tentavam, mas sufocados por uma mãe carente desistiam de chorar, entediados de tanto amor.

Acho que não vou conseguir dormir se ele continuar, culpada que estou pela falta de coragem de sair de casa para procurá-lo. É noite, chove lá fora, seu miado vem de um lugar onde quem passa costuma ser assaltado, meio de um mato. O que não me exime de culpa nem um mindinho!

Meus gatos estão agitados com o choro do pequeno que acaba de se calar, e eu, tenho certeza, sou a pior mãe do mundo, por ter feito pelos meus filhotes o que não vou fazer por um outro que é igual a eles. Carrego agora a culpa do abandono dos outros e da covardia de todos nós, não sei se por hábito ou gosto, mas carrego.

Teria sido eu mais corajosa há dez anos atrás? Teria sido mais pura, mais próxima da verdade, mesmo que a ação fosse irresponsável ou ineficaz. Talvez.

Penso em ligar para uma amiga, quem sabe juntas não somos mais fortes? Acontece que ele realmente calou e nunca mais vou saber de que...

Volta a miar e aliviada por um lado, continuo empacada na frente da máquina descrevendo o desespero que assisto sem ver. Mórbido? A impotência dá mesmo essa sensação.

Calou-se mais uma vez, ele espera que alguém faça alguma coisa, mas ninguém, inclusive eu, faz nada.

Acontece desse mesmo jeito, com gente também. Não está certo acontecer assim nem com um nem com outro, mas há momentos em que realmente ninguém pode, ninguém faz, ninguém vem. Só tem que, algumas gentes conseguem encontrar jeito para o azar, outras não. Há quem diga que é seleção natural, e naturalmente há quem acredite, para mim fica a dúvida, posto que fomos nós que inventamos essa idéia, e como humanos não somos lá das criaturas mais generosas. Eu queria, acho que com um pouco mais de vergonha na cara, eu iria, mas não vou.

Enquanto isso, acaba de chegar em casa o namorado da Rosa, meus vizinhos e frente. Esse sim, devia ir ver onde o filhote está. O miado vem do meio do mato que dá para o quintal deles. Mas entendo que ele não vá, deve pensar que o pequeno agüenta momentos de não-pertencimento agudo como ele, que outro dia foi enxotado de casa e, recusando-se a ir embora foi deixado do lado de fora do portão. Chorou, gritou, como faz o gatinho agora, mas dele não tive muita pena não, só compaixão.

Calou-se outra vez o filhote. Acho que de sono, ele agora vai dormir, está alimentado e quentinho, fazendo manha na certa. Pare já com isso e dorme filhinho.
- Elis Barbosa

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sufoca

e o diafragma está agora apertado pela mão que seguraria a minha durante a travessia… e a dor do aperto se mistura à de não respirar… e as reticências são os intervalos necessários para que se articule algum raciocínio linear em meio a todo esse caos…

O elemento surpresa pode ser a coisa mais assustadora de todo o mundo inteiro, particularmente quando se trata de o chão ser sacudido justo quando só a Impotência está na sala, sempre sentada, lamentando-se de nada poder fazer. E de cenho franzido, expressão que empresta algum (senão o único) sentido à perplexidade, repetem-se as tentativas de entender, faz-se o caminho de volta, sozinho, pasmado, investigativo, na tentativa de encontrar o que se perdeu, pois decerto que algo se perdeu!
Mas o quê, o que poderá ter sido?

Ao fim, começa-se a reviver tudo novamente, daí talvez a má digestão... Todo fim inaugura um processo de transformação, mas sendo abrupto o fim instaura-se ainda outro processo, o de acreditar que não, não é um sonho mal, é verdade, acabou!

É justo isso?

Mesmo não sendo, é ao fim que tem início o laborioso exercício de pinçar-se dali, de recolher-se para si, de revisitar minuciosamente tudo, do começo ao... Sim, só que agora como expectador que, além de não poder interferir, já conhece o desfecho da história que lhe abafa o peito!

Não respirar dói, mas respirar dói também, pior, faz chorar. Pensando bem, não é isso que fazem os bebês para nascer? Talvez respirando eu chore, e quem sabe, chorando,acabe por renascer…

- Elis Barbosa

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Trilha

Trilhando o caminho fantástico que se abriu desde que aquela trilha sonora a atingira, perseguia, sem saber, a si mesma… buscava no outro, que sem nome próprio havia sido até então sua mais emocionante aventura, o destino que talvez desejasse para si, ou com o qual, talvez, andasse de flertes.

Ilusão, tudo ilusão! Não que a busca não fosse boa, não que o outro não fosse bom, não que a trilha não fosse encantadora, era tudo bem bom! Mas conhecia-se já um tanto para saber que no início da criação foi imprescindível o fogo, como o era a paixão, e que bom para paixão não é suficiente, e que para o bem viver do depois ficar ao ponto era preciso paixão em fogo alto!

Pobre! Era tão pobre de alternativas afetivas... Dona de coração obtuso, terrivelmente carente e assumidamente romanesco. Ouve fado sorrindo como quem se diverte muito ante o espetáculo do rasgado coração passional, deleita-se com o teatro sugerido por tão dramático estilo musical, compadece-se do lusitano sofrido e amargurado pelo amor não correspondido. Parece-lhe imprescindível que a realidade fique todinha salpicada com a intensidade das cenas dos começos arrebatadores!

Racional, todavia, sabe que nada disso é para sempre, aliás, sabe que nada de nada é para sempre, desejava apenas tomar partido do que os ciclos tinham a oferecer, cada um no seu tempo.

Decidido isso, era suspirar demorado e seguir em frente.

Havia que se pensar num outro mind set daqui por diante, concentrar-se-ia em si para, quem sabe um dia, estar apta a viver coisas diferentes, de maneiras diferentes. Sim, porque hoje só sabe fazer de um jeito, ou é inteiro, intenso, entregue, profundo, ou fica tudo com cara de paisagem, sem ritmo, anacrônico. Ou não...dependeria do que fosse mais bom!

Gozado como há práticas que mudam, mas a essência romântica, onírica, continua a mesma, o drama do sangue latino, o derramamento sensual mal disfarçado em singelas saias compridas, para não matar de vergonha quem tão marotamente se admite brega!!!

Brega! Bate no peito e diz, com a classe de quem sabe que é, e que em sendo há que ter público que agrade...

- Elis Barbosa

domingo, 5 de julho de 2009

Indefinivel

Time is a misterious thing… transforma tudo sem que percebamos o quê ou o quanto, por mais atentos que estejamos. Sempre alerta, sempre alerta é o lema dos escoteiros, e o meu também. Contudo, dou conta, de tempos em tempos, que olhar em volta não basta para reconhecer a mim e a tudo que me cerca como meu mesmo! Os ciclos parecem concluir-se antes que possa dar conta deles...

A janela da minha sala dá para a rua, entrega muitas vezes minha atenção à vida dos que por aqui passam deixando sempre um pouco de si pelas calçadas íngremes que levam à Santa (Teresa). Falam, incautos, de suas próprias vidas como se não houvesse quem os ouvisse, falam das vidas dos que conhecem, desafiam-se, odeiam-se, amam-se, como se por alguma razão essa rua oferecesse o abrigo da invisibilidade! Talvez o faça, talvez por isso mesmo eu a tenha escolhido para aqui ser acolhida com o tanto e o tudo que minha estreita percepção é capaz de captar. Passo aqui, de frente para esta janela, a maior parte dos domingos que me sobrevêm, ruminando o que não passa despercebido.

Os domingos, confesso, têm se tornado dos meus dias preferidos, a despeito de toda sua nostalgia característica. E isso do tempo, aqui na janela dos domingos, é tão claro, tão marcado, que posso quase passar seu ritmo e melodia para o caderno de música, como quando dos ditados musicais na casa da professora de piano. Vejo o dia passar todo, enquanto atualizo minhas leituras periódicas, fingindo ao tempo que passa minha indiferença mal disfarçada... vejo o dia adormecer preguiçoso, despedindo-se lentamente, como quem não quer ir! Com o canto dos olhos, vejo da minha janela sua tentativa inútil e letárgica de seduzir a noite trajando o pôr-do-sol mais exuberante, enquanto a escuridão fria e delicada expulsa-o sem remorso.

São incontáveis domingos, e histórias que não se pode narrar, só se pode viver, vivem-nas quem as conta, quem as ouve e quem as protagoniza, passam pela minha janela pululando obviedades, repetindo-se do começo ao fim, dando-se ao luxo de apresentar diversos atores a cada vez que se repete, sempre com os mesmo papeis... as mesmas inquietações, as mesmas surpreendentes alegrias, os mesmo encontros inusitados, as mesmas frases de efeito, sempre tão impactantes aos seus protagonistas!

Há vezes em que até eu, espectadora atenta dessa repetição inédita de todo dia, quero ver novamente aquele mesmo final feliz... O tempo é um elemento curioso, o mais paradoxal que conheço, é absoluto, mas relativo; ameniza dores, mas aumenta saudades; envelhece o corpo, mas engrossa a coragem; marca o rosto, mas apaga mágoas; passa, mas nem sempre... há ainda o que fica suspenso no tempo e no espaço, indefinidamente, a ser vivido.

- Elis Barbosa

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dia dos Namorados


Senhoras e Senhores, estamos reunidos aqui hoje para celebrar a união entre o dia dos namorados e ...!

Fica a completar... fica à critério de quem elegeu hoje – a despeito de ontem estar ali tão disponível, e o o amanhã, nem se fala – como o dia de unir. Unamos, prezados, o dia dos namorados à paixão, ao amor, à saudade, à beleza, à surpresa, à fantasia... só não unamos o dia de hoje à ilusão, posto que esta pode não durar até a próxima celebração!

Todavia, se só a ela pudermos recorrer, que seja, pois antes o frenesi da ilusão à inutilidade da covardia! Atentai prezados, a que vos fala já fez os dois e decide por unir hoje, todas as possibilidades, paixões, amores (presentes e ausentes), desejos, fantasias, alegrias, e, porque não as despedidas, ao dia dos namorados!

Apaixonados de todo o mundo, uni-vos!!!

Sim, sim, eis o dia perfeito para a informalidade de quem quer compartilhar mais de um significado! Eis a oportunidade perfeita para borrifar clichês por toda a página virtual que se abre nesta tela luminosa!

Então, senta, que era uma vez...

Um dia em que corria de um lado para o outro a Expectativa, tentando freneticamente encontrar a indumentária adequada para elevar à última potência as sensações da paixão. A Euforia ligou cedo e deixou o recado da Ansiedade... é hoje!!!
O nosso primeiro dia dos namorados...

Um dia como outro qualquer, queria que esse fosse um dia como outro qualquer, já que, como sempre, acordava sentindo o peso de uma tonelada no peito vazio... o amor se havia ido, levando na bagagem os sentidos, os motivos, a razão... o céu nublava para combinar com o nada que lhe restava, e as reticências se impunham ao final, desenhando o último degrau para o abismo que ficou... pulo?

Que dia é hoje? pergunta a deusa enquanto morde a maçã da Branca de Neve.
Dia 12 de junho, diz ele num tom fingindo despretensão.
Jura?
Sim, por que?
Levantando os olhos negros e oblíquos do jornal dispara brincalhona, por que o quê?
Olhando-a com a paixão de rendido que era, amando-a ainda mais por, como sempre, não estar nesse mundo, sorriu.
Hoje é dia dos namorados!
Flechando-lhe com uma risadinha traquina, ela mente surpresa, Noossa, é verdade! Bom, já que não temos namorado ou namorada (diz enquanto abraça-o pela cintura) podíamos comemorar o dia dos sem-namorado, o que acha? Amigo não é para essas coisas?
Achou de beija-la para sempre.
Por mim tudo bem! Onde?
Lá em casa, vamos ouvir Beatles, comer da minha comida, regada de muito vinho e se quiser pode dormir no sofá! Fechado?
Às oito?
Te espero!

Plano, precisava era de um bom plano! Como podia um homem apenas guardar em si todas as qualidades que havia idealizado? Não é todo dia que se vê encarnado, andando por aí, o seu ideal! Irrepreensivelmente TUDO!

Traição, a natureza lhe traia! Coloca-lo assim, amigo disponível, homem inalcançável! Amanhã será dia dos namorados e a possibilidade do convite desinteressado para, quem sabe, uma cervejinha com o resto dos amigos, embrulhava-lhe o estômago! Mas qual, que amigos o que? Eram apenas iguais, mas amigos... contigência, não duvide, trata-se apenas de uma contingência desleal!

Não, definitivamente não era possível ficar ali, precisava sair, viajar, mudar de planeta! Quem dera!!! Mas ao que serviria mudar de planeta? Verdade seja dita, muito mais profícuo seria se pudesse mudar de sexo!

Acordava já com um leve sorriso curvando-lhe os lábios de boneca! Não tinha que trabalhar aquele dia, a chuva caia torrencialmente lá fora, o edredom a envolvia num abraço preguiçoso! Não há lugar como o lar!

Enamorada que estava de seu novo apartamento, fez questão de levantar bem devagar e enquanto afagava os gatos respirou profundamente o silêncio delicado que enchia a sala. Olhou em volta e encontrou-se consigo... com uma xícara de café fresco, fumegando, acariciou de leve os universos contidos na estante, constelações em forma de livros, escolheu a trilha sonora e se pôs a amar o dia, o dia que seria só seu!

O pensamento sussurrando-lhe carinhosamente: que dia é hoje? É o meu dia!
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E foram todos felizes para sempre! Encontrando a felicidade onde é possível, deixando que o Sempre more nos momentos que vem e vão...

Convoco-lhes assim, no dia de hoje, a enamorar-se, seja lá do que for... Afinal hoje é o dia dos enamorados! Amemos prezados, amemos muito, porque só o amor constrói :O), supera, perdoa, reabilita, fortalece, suaviza, prevalece, perde para ganhar, insiste, teima, convence, mobiliza, alivia e....

Mais uma vez exorto, não espere pelo dia de hoje, que só há de se repetir daqui a um ano, para autoriza-se a se deixar levar!

Afinal, o que pode ter hoje de diferente de ontem ou de amanhã que ficamos a esperar e não dissemos ontem o quanto amamos desde sempre?

NADA!

Aproveito então hoje para dizer que naquele anel, Querido, há amor, naquele telefonema irmã há saudade (amor na ausência), naquela mensagem mãe há amor (escrito para a posteridade de quem me deu começo), naquele sorriso pai há amor (amor primeiro), naquela saída irmão há amor (amor de cumplicidade), naquele torpedo amiga há amor (o amor que faz a alma estender-se para alcançar a humanidade necessária)!

- Elis Barbosa

terça-feira, 2 de junho de 2009

Encontro Casual



Quantas e quantas vezes virá o passado nos assaltar logo ao raiar do dia? Isso quando não o faz durante o que deveria ser sono reparador, trazendo à baila nos sonhos, imagens que de tão antigas valsam em sépia....

Hum, hum, hum... pigarreia ele, pois pigarreia sempre que nervoso, punho cerrado próximo à boca, igualzinho quando... reproduzindo – nosso destino necessário esse o da reprodução!? Temendo, tremendo. E se a voz não soasse como devia? E se sequer soasse? Suava, muito. Respirava apertado, tentando com a razão dissuadir o impulso, o desejo inconteste de falar-lhe. Fazia já tanto tempo, para quê expor-se assim desavisado a olhar e ser olhado? E o olhar seria nos olhos, pois não conhecia ela outra forma de falar que não fosse olhando nos olhos, ele bem o sabia!

Para quê?

Abriu os olhos e capturou-o a imagem dela, que num movimento distraído do mundo, tal qual sempre havia sido, coçava a cocha esquerda, levava a mão ao brinco e depois ao queixo, divagando imersa naqueles pensamentos que só corriam na cabeça dela, de mais ninguém! Tão cheia de manias, tão vazia de hábitos, vivia variando, sorriu...

Avariando, isso sim!!! Mas que tanto tem de mudar os móveis dessa casa pra lá, pra cá?! É bom, lindo! Senão a gente esquece que pode mudar, e depois acho que essa arrumação deixou mais arejado, não achou amor? Toda vez você diz a mesma coisa, toda vez você acha que ficou melhor dessa que da última! Quem não muda é você!

Aquela acusação final, aplicada a tantas e quantas coisas, trazia sempre ao rosto moreno, miúdo, um ar de rebeldia sabida de pessoa doce. Sabe como?

Sacudiu de leve a cabeça, como quem espana pensamentos, mas o máximo que pôde foi embaralhá-los... podia falar com ela, como podia não falar. Não falando ficaria esmagado sob a acusação grave de covardia, falando não sabia! Como assim não vai falar com ela, lindo? Não vou, eu disse que depois daquilo não falava mais com ela?! Pois então, não falo e ponto final! Mas querido, isso já faz tanto tempo, e ela faz aniversário semana que vem, e vocês são tão amigos?! Não somos mais. Homem, deeeeixa de covardia e assume logo que o amor, a amizade e a saudade não ligam para promessas feitas assim de pirraça!

Afinal, eram velhos conhecidos, íntimos até, tão íntimos... milhares de imagens invadiram suas retinas de dentro para fora, como num arrastão, e começava a sentir os cheiros... sacudiu mais uma vez a cabeça, respirou fundo e olhou para ela pretendendo indiferença, de si para si mesmo, já que ela estava de costas. Sentiu vontade de sorrir, mas neste revés os olhos é que se manifestavam umedecendo, ao timbre da voz amorosa... Pode virar, pode fingir que não está nem aí, eu não ligo, te amo mesmo assim, tá?

Melhor não falar... sabia que raciocinava debilmente.

Meu Deus, é você mesmo?! O sorriso mais lindo, os olhos mais brilhantes de apertar lágrimas, e os braços abertos sacudiram-no de uma só vez, era um assalto! Ela o descobrira depois mas o invadira primeiro, como sempre... Olá! Sua alma querendo desencarnar naquele cumprimento sussurrado. Tentou mais uma vez... Olá!

- Elis Barbosa

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sonho



Era uma casa grande e velha, de arquitetura palaciana, feito as que ainda se deixam ver incrustadas nas encostas de Santa Teresa, relíquias silenciosas que olhadas de longe dão a impressão de tempo que não passou... Era um sonho, e à casa misturava-se uma árvore imensa, cujos galhos estendiam-se por todos os cômodos que não vi, pois não me foi dada a alternativa de adentrá-la.


O sonho era meu, a casa era minha, mas não era permitido apropriar-me dela, apenas ao quintal tinha acesso irrestrito. Logo numa tarde tão nublada, o vento achando de sacudir violentamente tudo que encontrava pelo caminho, ficara desabrigada, desamparada, desprovida da proteção do concreto. Todavia, o coração pulava em folia desordenada pois que no horizonte surgia um ser, que de tão humano que era, foi o companheiro eleito para, de mãos dadas, acompanhá-la nas primeiras incursões ao mundo real. Eis que de tão plena a aventura foram imiscuindo-se um no outro de tal maneira, e teve o amor tal magnitude, que mesmo depois do fim absoluto e necessário guardaram ainda o sonho como único ponto de encontro possível.


Então, mais uma vez encontravam-se!


Seguia o vento a revoltar as folhas das árvores, os cabelos de ambos, a poeira de tudo que houve e de tudo que há, carregando-a para um futuro que ainda não foi e que ninguém pode saber como será! Não importa, já fazia tanto tempo que não se encontravam, bastava já o bálsamo que era saber que lhe sabiam, o alívio do abraço apertado que levava embora toda a solidão, a renovação da cumplicidade ao olharem-se mais uma vez nos olhos, bastava já poder arrefecer um tanto a aridez que traz a distância, abrandar a sede de reconhecer e ser reconhecida naquele lugar que havia mesmo sido o lugar de todo dia!


Conversamos longamente sobre todas as coisas, sentados num banco de praça branco, aliás, tudo que não era verde ou cinza, ou preto, era branco. Até o amarelo dos gatos, sempre tão vivo apareceu pálido, e eles tinham pulgas, muitas e muitas pulgas surgiam da terra no quintal e ficou decidido que uma solução deveria ser encontrada rapidamente para tal questão, questão de ordem sanitária! Os gatos deveriam ser limpos, o quintal deveria ser limpo, eu deveria ser limpa... decidido isso, passamos a nos olhar novamente.


Sorrimos os sorrisos mais marotos, de quem sabia da arte que fazia! Beijamo-nos longamente e aprofundamos ainda mais nossos laços de eternidade, pois logo seria chegada a hora da despedida, era certo. Tentei entrar na casa, como se lá pudéssemos nos esconder de acordar, todavia, o caminho para chegar até a porta alongava-se tanto mais quanto me esforçava eu, trazendo o amado pela mão, em percorrê-lo todo.


Dói sempre a despedida, pela sua natureza mesma de afastar, mas nesses encontros doía especialmente, pois no mundo dos sonhos a verdade se apresenta clara, pungente, desavergonhada de si... dessa vez expôs-se no lençol que se solta do varal, sacudido freneticamente pelo vento: soltar-se-iam no mundo novamente, daqui a pouco, e talvez nunca mais se vissem, este pode ser o último encontro, nada é garantido, nada é certeza.


Acordei doída, sentindo os olhos pesados de lágrimas que não derramei, o rosto tenso pelos sorrisos que não dei, a alma ressentindo-se do assalto sofrido na madrugada, tantos arroubos e eu nem estava acordada!!! E as palavras? Onde estão as palavras que trocamos? Jazem em algum lugar do qual não saberei nada, jamais, pois foram por aquele vento levadas!

- Elis Barbosa

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ainda...



Te amo, sabe... os olhos amendoados e muito negros dela acompanham as palavras, umedecendo-as com o mel do seu carinho mais entregue! Ele, atingido em cheio por aquele banho de calor amoroso, sentindo na boca toda doçura da mulher mais doce do mundo todo, comove-se. Seus olhos pequenos, igualmente negros, de cílios muito compridos marejam... toma em suas mãos enormes o rosto delicado da mulher que era completa e absolutamente sua, cheira-lhe os cabelos (como quem urge por sentir-lhe todas as essências) olha-a nos olhos, incrédulo, e liberta o Eu também te amo que pululava na ponta da língua já fazia era tempo! Eu também te amo, muito.

Permaneceram então abraçados pela eternidade que durou o amor.

Mas um dia, daqueles que ninguém espera, sobrevieram as tumultuadas ondas do desentendimento, das dúvidas, das hesitações, uma tempestade. E o balanço começado com aquele alvoroço trouxe de lugares longínquos e perigosos águas-vivas e algas venenosas que misturaram-se ao amor. Veio daí dor, mágoa, ressentimento. Palavras amargas ditas sob o sol quente do desespero. Raios e trovões revezendo-se no ditado ritmico que prenunciava perigo.
E quando tudo passou a água outrora doce mostrou-se salobra, ruim para a alma, e via-se na praia então o corpo estendido na areia, o Amor, quase afogado, cheio de queimaduras, envenenado, moribundo!

Domingo – foi selada num dia de nome próprio a aura do silêncio odiento que nortearia a partir de então suas condutas um para com o outro. Nunca mais haveriam de trocar palavra, ou olhar, ou abraço, ou nada. Nunca mais!
O telefone tocou e tocou, fazendo coro com os soluços que sacudiam seu corpo feito tão mais para o amor que para o sofrimento... as lágrimas, palavra feminina, tinham bem o sabor daquela água ruim que os contaminou.

Não houve resposta à sua chamada.

Sim, a despeito de tudo e por todo o resto ela o chamou, precisava que a história ficasse intacta, que ambos a contassem como se fossem um, já que era a história dos dois juntos! E precisava disso por ainda ama-lo, por amar a história, por guardar como tesouro de primeira grandeza os sonhos que embalaram juntos, por acreditar que muito mais que homem e mulher eram humanos.
Não houve resposta.

Ficou com aquela pedra pesando-lhe na alma, sem saber o que fazer... deparava-se com um vazio cheio de coisas que não conseguia identificar, sombras, tudo etéreo mas real. Chamou-lhe uma vez mais, bradou seu nome e em seguida a pergunta que ficará para sempre sem resposta: por quê?

O amor não estava morto, o que ela sabia e queria dizer, para dividir ainda mais esta última cumplicidade, é que aquele amor não morreria nunca. Havia marcado um tempo, um espaço e duas vidas. A dor vinha daí, a dor vinha da insubordinação diante da continuidade do amor a despeito do fim.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Pessoa humana



“Existe a novidade, uma coisa que acontece de novo, e existe a coisa completamente nova, que estréia, que acontece pela primeira vez com a pessoa”... A voz acolhedora que vinha de dentro do aparelho cinza e feio amenizava o arrepio de estranhamento que lhe recobria o corpo. Era mesmo um momento novo, tudo estranho ao que sempre havia sido, tudo como devia ser se considerados os seus esforços, mas quem haveria de prever que seria assim?

Desabalada a chuva lavadeira caia lá fora, queixo na mão direita recobrindo-lhe a boca pequena e bem desenhada, andava pelo apartamento também pequeno pondo-se a tentar a alquimia de pensar e sentir ao mesmo tempo, buscando... Sim, queria mesmo ter sabido como era aquilo, e por pura gulodice de saber. Seria pecado essa gula? Seria pecado esse salivar constante ante as possibilidades não só de ler ou ouvir, mas também de (corpo presente) sentir?

Pois sempre quisera ser só, sem saber bem como seria... e pela primeira vez experimentava uma solidão curiosa... não era mais mulher.

Não era mais mulher, repetia sorrindo. Era isso! Era isso que talvez viesse buscando, uma humanidade mais plena, destituída do ímpeto de fazer valer o fato de ter nascido mulher! Será?

Havia uma magia especial naqueles dias, estava mais bela, mais serena, mais delicada, mais sensível, mais atenta, mais amorosa, e tudo isso agora sem ser mulher, pois adquirira uma certa invisibilidade para os homens. Não havia ninguém, como se uma névoa rosa-alaranjada recobrisse seu corpo moreno, disfarçasse como um véu seu rosto harmonioso, transformando o que se via em nada, deixando à mostra apenas a energia que ali pulsava. Some o sorriso, aparece o sentido.

De tudo isso sorria, misteriosa de si mesma, com o olhar enviesado que às vezes tinha aqueles olhos amendoados e muito pretos, tão femininos...

- Elis Barbosa

terça-feira, 21 de abril de 2009

Confusão



Era uma vez um mundo que era bonito, mas triste e outro que era triste, mas bonito... era uma vez lugares que pareciam diferentes, mas que era iguais, iguais, porque em ambos, o que havia dentro era gente e quando tem gente, por mais que os lugares sejam diferentes, fica tudo igual, assim, passível de se acontecer até o impossível!

Mistério, não há mistério maior do que a certeza de que tudo pode acontecer, e não há lugar onde tal certeza crie raízes mais profundas que no coração do homem.


- Elis Barbosa

terça-feira, 24 de março de 2009

Possibilidades literarias


Diante dos seus olhos um espetáculo espontâneo apresentava-se obsceno. Tamanha exclusividade lhe atava um nó na garganta, sensação de desigualdade espalhada sobre o chão, deslumbramento, desejo doendo na segunda costela que ela nem sabia que estava lá... tudo tão repentino e inevitável!

Parecia haver, contudo, uma memória encantada, distante, que denunciava não ser aquela sua primeira vez! Mas era, era... seu coração não mentia e seus olhos puros, infantis, jamais tocaram aquilo antes... não tinha certeza, não tinha ainda tempo de vida para tais abstrações demoníacas... que coisa mais linda, misteriosa, mais linda do mundo todo!!!

Flagrava-a o sol da tarde, suave, muito acompanhado de uma brisa amorosa que emaranhava os cabelos e fazia farfalhar tão lindamente o objeto mágico que contemplava de todos os sentidos!

Será que ela pode ser minha? Eu queria tanto que fosse minha, só minha! As mãozinhas apertando uma a outra, postou-as sobre a barriguinha, fazendo como quem quer muito uma coisa que tinha bem muito que ser sua... Eu cuidava de você, te dava a minha casinha de boneca para morar e, e, e... deixava você voar pelo quarto, mas só pelo quarto (dedinho em riste), porque você é muito pequenininha e pode se machucar e se perder! Ah... levou as mãos à boca. Mas eu não ia deixar! Caminhou devagar, esticou-se a não mais poder e voou..........................................................................................................................................

A borboleta azul turquesa voou para um perto longe, como fazem as borboletas, e de repente o vazio deu-lhe um beliscão tão forte, sufocou. Correu em direção à ela e seu pequeno corpo vibrava raiva, medo e desejo. Vem ser minha, vem. Eu cuido de você! Agora para bem longe, mas ainda perto o suficiente para ser vista, a borboleta voou. Era muito alto, voou exibida! Tinha uma vontade grande de pisar na borboleta, tão linda e não quer ser minha... o vazio sufocou e a distância cegou-lhe os olhos com uma tempestade de lágrimas!

Era sua primeira incursão de todas que a vida ainda traria com a passagem de suas estações...


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Há vinte e quatro horas a doçura de tua aparição fez com que a distância passasse a existir.

Pois tem as mãos firmes, e os olhos doces, com cílios muito, muito compridos... Sua tez morena de açúcar mascavo e o sorriso que lhe escapa quando me escapam os modos torna tudo tão proposital! Ser noite, ser sexta, ser verão, sermos nós, ser ali...

Fazia já algum tempo que não havia surpresas e por isso mesmo sinceramente despretensiosa achei que não havia risco, e por isso mesmo achei de chegar junto, só para ter certeza de que estava, mais uma vez, certa... ora que prazer, não estava!

O desejo surge antes da invenção, o sentimento antes das palavras e fico desconcertada ante sua firmeza sensual, viril, e me toma e cola tua boca na minha e beija-a como eu mesma queria ser beijada. As palavras então, que sempre me amparam, resolvem sumir para ver como fica a minha cara sem elas, mas não falo de mais nada porque agora só beijo e sussurro coisas que nem eu mesma sei o que são!

É vinte e quatro o número das horas que separam o ainda desconhecido você, de mim, mas como o tempo não se deixa contar nas voltas que faz o sangue ao correr louco pelo corpo vibrando de desejo não o sinto tão curto, o sinto longo e fico sem dormir para vê-lo passar. Conto e reconto por teima da memória, por pura fidelidade, o número de vezes em que quis tocar e neguei, em que te quis cheirar e neguei, que quis que fosse o que acabou sendo... ligou-se o rec e de repente, sem razão, ao som da sua voz em harmoniosa entrega com teu corpo exortou-me: “olha para mim!”

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Enquanto ouço, bem à porta da minha sala o chiado dos seus “ésisx” – e resta-me apenas esses resíduos da voz metálica e doce que tantas e tantas vezes fez transbordar minha alma de acolhimento, de alegria, pelo simples fato de poder estar ali e ser alegremente acolhida – sinto o perfume que exala de ti e vem cá pra dentro, como um deboche sorrindo de canto de boca do irremediável, de estarmos tão perto e tão, definitivamente longe, de hoje ser sexta-feira, último dia útil de todos os dias de semana, dia em que... inútil dizer!

E gritou ao bom samaritano: “Um abraço, por caridade!” Abraços? Estes não tenho, mas se quiser ofereço algum concreto. Tenho apenas alimento para o corpo, a alma extraviou-se de tanto ficar de castigo... sinto muito! O outro, corado de saúde e robusto de corpo chora. Morria à mingua necessitando de calor, de humanidade, de reconhecimento de um igual, de poder olhar no olho de um outro onde de alguma forma pudesse ser refletido, pudesse contemplar sua própria humanidade a lhe sorrir.

Seus olhos pequenos e fugidios inquietam-se ao ouvir minha voz, ao perceber minha presença... e a despeito de toda a altura és pequeno, um pequenino... e talvez por isso ainda resvale em ti um bocado da minha ternura. Não é possível, não é permitido na lei do amor que se odeie o mesmo a quem se prometeu o mundo, a quem se prometeu um filho. Portanto, longe de te odiar, ainda te amo de alguma forma.

As possibilidades literárias desse texto são minhas, todas pertencem única e exclusivamente a quem faz correr os dedos frenéticos pelos teclados na busca incansável de transbordar o que não cabe dentro... contudo são possibilidades apenas literárias... ainda assim não sai de mim a inconformidade de não poder ter de ti a cumplicidade fraterna de quem por tantos dias entregou-se comigo à inconsciência do sono reparador, para ser despertado pelo sol dos olhos amorosos de quem te dizia “bom dia!”.


- Elis Barbosa

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Tentando



And I keep on making up stories, hoping that through them I might finally find one that makes sense, giving me the possibility to then, put my heart at rest…

Eu gosto daquele da carta, sabe qual é? “Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas!” como não? Olhavam-se, partilhavam um segredo público...

Mas essa história não é como as outras, teve um final horrível... você sabe, você estava lá! VOCÊ viu, sabe exatamente como tudo foi destruído! Quebrado, aparelhos domésticos, minha cara! Tudo na véspera do meu aniversário! "Nunca conheci quem tivesse levado porrada, todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, esse é outro bem bom! Segunda chance, cara: você não ia gostar que houvesse uma segunda chance?

Não!!! Não, me interessou a época e não me interessa agora!!! Rindo o outro joga, digo em geral, na vida, ideologicamente? A recobrar-se do embaraço segue o balaço, na vida, no mundo das idéias sim, mas para isso não, é tão passado que me deixa enjoado...

Tudo bem, não esta mais aqui quem falou, esquece...
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“Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra...”

O que?

Nada, estava me lembrando do poema daquele cara, como é mesmo o nome dele? O Carlos Drumond de Andrade?

Isso! Isso, genial ele! Não foi esse cara mesmo que escreveu aquele: E agora José?

Laughs

Foi cara, foi esse mesmo!

Pois é, como diria ela mesma: a pertinência temática é coisa muito curiosa!

Como assim, como diria ela? Sabe dela?

Eyebrows up.

Que?

Que o que cara, responde... sabe dela? Pausa dramática!

Sei, sei sim.

Cara de espanto, eyes wide open, seguida de lábios apertados. Pausa dramática e indefinida... Bom, vou indo nessa, ele diz levantando-se de braços abertos para o abraço de despedida.

Espera, sabe dela? Eu sei, mas você não. Além do mais, vamos manter aqui uma ética, certo?

Sim, sim, claro.

Valeu então cara! Valeu!

Te ligo para avisar da festa da minha festa, e vê se não esquece o presente! Risos nervosos.

Beleza, fica com deus! Não, obrigado, melhor levar ele com você.

Abraço apertado, com direito aos tradicionais tapinhas nas costas.

O outro, enfim a sós consigo mesmo, senta de frente para a máquina que, fria, não lhe deixa opção que não a de ser manipulada...

Entra, abre................. fade out.
- Elis Barbosa

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Interior - esquentando




Foi no dia de ontem, abateu-se sobre mim, como carinho de malícia, uma febre brejeira.

Não era febre terçã, nem amarela, não era febre de gripe nem de amor mal curado, era uma febre brejeira, isso que era!

Vírus, foi vírus que entrou pelos ouvidos, e as músicas que não paravam de tocar iam fazendo tudo ferver dentro de mim, amolecendo as crostas do tempo que cismou em fazer parecer remoto aquele passado.
Passado, só se for no calendário, remoto nem para ser de escrita bonita serve, porque nunca vão deixar de ser presença aqueles dias que aconteceram no seu tempo natural de sóis e luas, com as estações divididas entra a roça e a rua, entre a praça e o pasto, entre os caminhos de paralelepípedo e os de terra batida – pela sol quente, pela chuva densa, pela neblina gelada da matina, pela gente insistente que por ali pisava – entre o corpo, que se fazia absolutamente necessário, e a alma que se descomplicava toda naquela imensidão de céu nas estrelas.

O mundo de então era pequeno no que tinha de construído, mas infinito no que era ancestral, no que era da terra, no que era daquela Terra. Tirava-se ainda o sustento da natureza, diretamente às vezes. Plantava-se, colhia-se. As galinhas servidas à mesa eram cria dali mesmo (para desespero dos que lhes tinham afeto), pescava-se nos rios que serviam de esconderijo para os amores nascidos bem ali dentro d'água (como tudo que é vivo!) em brincadeiras de mergulhar até o fundo.
As árvores eram frondosas e místicas, algumas davam frutos, algumas davam histórias. Havia mangueiras que serviam frutos suculentos, chupados com gulodice entre gargalhadas amarelas, mas só podia quem limpasse a cara com as costas da mão! Outras igualmente gostosas davam a goiaba que podia ser amarela ou branca, só descobria quem se aventurava. Havia árvores que não davam era mais nada depois que o moço escreveu a canivete o nome da amada e jurou vingança por terem internado a pobre num convento que ele nunca mais achou, ou ainda, depois de ter sido regada com o sangue da moça que se mata quando acredita, enganada, que seu amado foi-se embora com outra de quem ninguém sabia. Havia árvores que guardavam as almas de quem por ali se havia perdido em alguma noite de tormenta!
(e passávamos de mãos dadas, olhando só para o chão, rezando bem de com força, sentindo arrepios tremendos se lhe balançavam as folhas...)

E acalentava nossos corpos em seu regaço fresco e fértil, à sombra do ócio que alimentava os anseios e as fantasias, que tornavam mais belas as ocasiões que faziam os ladrões de beijos e... corações!

- Elis Barbosa

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fechando malas, abrindo portas




Acabo de fechar a mala que venho desarrumando faz uns dias e dou pelo fim de uma viagem ao contrário, fiz uma viagem de volta. Chego agora de longe, de um tempo que não afastei do coração. Fecho a mala e tomo um susto ao me deparar com o presente.

Evitei tanto quanto pude o amontoado de palavras que havia guardado naquela mala, já que nunca me pertenceram, foram palavras emprestadas num tempo em que era tênue e transponivel a linha que nos dividia um do outro e nós do mundo. A mala que guardava os últimos resquícios materiais, as últimas pistas, os últimos recados deixados em papeis que diziam tão menos quando não tinham sua assinatura.

Não tenho mais melancolia, tenho saudade, guardo o desejo de podermos um dia, quem sabe, trocar sorriso e nos cumprimentar, pois foi uma luta justa.

Dividir novamente, talvez, tudo aquilo que só pode ser dividido naquela configuração, e em nenhuma outra. Sou grata por tudo.

A mala, descomposta, continua existindo, as palavras se foram, quase todas dispensadas. Mas algumas, decido que ficam, inclusive e especialmente aquelas sobre as quais seu nome foi rabiscado, não resisto, essas tiveram sua redenção marcada no dia mesmo que queimou teu duplo no meu peito!

Brega! Vejo tua cara linda se retorcendo enquanto fantasio que me lês, mas como sempre, nem ligo! Ora, também como poderia eu ligar se não tenho seu número? Não, esta não é uma mensagem subliminar, é um grito de saudade da amizade resistiu.

Todas as cartas de amor são ridículas, senão já sabe, o que seria de mim e de todos aqueles fulgurantes seres epistolares que até em cartas deixaram legados literários (não me incluindo nessa coisa de seres fulgurantes), que tiraram corações do saco, descascando-os impiedosamente com todas aquelas palavras de entrega!

Amores, melhor não tê-los, mas se não temos, já sabe de novo.
Quem lê entre linhas? Quem lê as letras miúdas anyway?

A verborragia acima exposta se deu ao som de muita Bethânia. Sim prezados, ando ouvindo Bethânia e respirando horrores, gozando Ney para ver se consigo, nem que seja por osmose, uma pitadinha daquela graça andrógina, e nesse momento o Monobloco (ao vivo) chama minhas cadeiras para o baile!

E ela disse que tinha o seu próprio gosto musical agora! Deus me livre! Ups, ainda sou ateu.

Fechei a mala, mas não as portas.

Beijos querido,
- Elis Barbosa