quinta-feira, 17 de julho de 2014

Partida



Achava bonito isso de ter um filho. Achava poético. Meu homem destilava bonito isso de ter um filho e falava poético de mulher. Dizia ser plural. “Mulher é divino, vira plural”. Foi metendo na língua uma beleza redonda, falava que casa era um mundo e o mundo podia ser como eu achasse bom. Dizia da beleza irrepetível do pôr-do-sol, igual quando a pessoa casa e acorda todo dia para os olhos da outra. Dizia da ousadia de se viver vintage, monogâmico-apaixonado-feliz, que não tinha rotina em vida assim. Emprenhou-me as ideias, encheu-as de ternura e fiquei acontecida.

Não me ocorria ainda o que já era, a metáfora ficava enquadrada na janela que, de vidro tão limpo, deixava dúvidas quanto à verossimilhança, parecia aberta. Tinha ou não vidro? E a vida, virava outra? A paisagem vibrava agora numa nitidez livre de interposições. Recostada ao portal de entrada, fingia a distância entre a bela vista e o instantâneo do momento, entre a ideia e o ventre. Fingia que era muita lonjura, fazia a inocente, esperava o grito do corpo, o encarnar da palavra. Positivo.

Multiplicar, virar dois, gerar outra pessoa, pocar. Muita magia, muito amor, só improvável, acontecimento exclusivo aos outros. Não ficava bem para geração dos idos 80’s entrar em contato com algo tão primitivo. A maternidade seria um obstáculo a ser minuciosamente evitado, acontecimento bom só em outros mundos, não no das mulheres-independentes-dessucessu. Então?! Verifiquei que o medo reservado especialmente para a ocasião era de safra indeterminada, mas com ingredientes que sublinhariam o sabor único de se estar vivendo um evento natural, grandes doses de excitação das coisas impossíveis e insegurança profunda perante abismo desconhecido.

Sem mais, o corpo gritou. Cuspiu fora o pito, embrulhou o bojo, rebentou com os nervos, alterou as vistas, amaciou as carnes, adoçou as lágrimas. Foi tanto barulho que se precipitaram os testes para formalizar a certeza. O excremento disse sim, o sangue disse sim, o moço vestindo branco, brandindo seu canudo disse sim, o verde dos olhos do meu homem brilhou, seu sorriso disse “verdade, multiplicou”. O medo agora é travoso, conta só com o abismo do desconhecido diante dos pés, só.

Daqui em diante não tem atrás, de modo que só se pode ir para frente e, correndo, precipita-se o abismo. Nessas circunstâncias, é possível, no auge do limite, recorrer a ele, abismo. Não há reverter, só o reverso a se transformar em casa pra outra pessoa. Não se desengravida, é grave. Mesmo quem não chega a termo, ou que o termo seja o óbito, escolhido ou imposto, a pergunta se repete quando pede a situação: “já engravidou alguma vez?”.

O medo abre os trabalhos para angústia, imediatamente, a vista, nada de partes, medianos, parcelas, metades, nada de indefinições ou talvez, sem meias palavras, a gravidez é um estado irremediável e sua gravidade sela a alma com a marca de quem passou por ali. Nunca mais será possível se eximir do fato gerador. A ambiguidade de se estar duo prolifera, se espalha, transformando tudo em novidades incertas, e não saber dói. Gravidez gera dor, faz cair a ficha, a máscara, a casa. Potencializa uma energia sem cabimento num corpo só, nunca mais o frio, nunca mais só pra mim, há que chegue pra dois, até mais, vira-se gerador.

Agora já estava, já sabia, já era... agora a caneca de café cheia como um todo, seu bom dia à vida, sua partida diária, virara ameaça. Corta. Começa agora uma outra vida, além da que se carrega no buxo, a de antes entra em fecunda transformação. Curioso, todavia, é que se começa pela subtração quando a sujeita está é multiplicada.

- Elis Barbosa

Revisão: Leandra Freitas
Imagem emprestada: http://cimitan.blogspot.com.br/2007_08_01_archive.html

segunda-feira, 13 de maio de 2013

"como quem diz: água."


Sede: das agonias que se pode viver o elenco é vastíssimo, mas o que lhe secava a voz era sede. As intempéries que despem a alma em coisa terrena vão ao número das estrelas lastreadas céu afora. Todavia há os que transcendem, arrebatam suas almas dos dentes da agonia, ventam-na e alçam voo para beber. Não era o seu caso.


Sem molhar a palavra agarrada à garganta arranhada pelo traiçoeiro golpe da voz do outro, seguia em destempero, ponderando: o que é dito importa menos, fica sendo só a confirmação do que os olhos evitaram tocar. O leito daquele rio não acolhe, e, portanto, não deve ser tocado. Pensando bem é um rio ingrato, não evade pra fora de si, rouba a vida da semente, deixa seca a terra, infértil, intransitiva. 

Trajar ignorância fingindo sabedoria é maldade. Hipócritas Fariseus, quem sois para apontar no outro a falta que suscitaste?!  Água, onde será que encontraria? É dos elementos sem o qual não se pode existir por tempo vasto, especialmente porque a vastidão do tempo é horrivelmente exponenciada pela sede, e a recíproca gera ciclo cruel. Não cabe sede no tempo, não cabe no tempo chance de sede sem que se perca a razão.

A sede é saciável. A sede é saciável? O tempo que escorreu é perdido. Delirante percebeu a saudade tracejando aquele caminho desde antes de ele virar bifurcação. Água desespera todo o resto à ausência do seu frescor vivificante, de seu gosto adaptável, de seu cheiro que chama a terra ao verter. Atravessa e é atravessada, percorre, corrói, corrompe, fura e passa, sempre passa, deixando no encalço suas pegadas rasgadas sem pontas, pegadas parecidas com as que marcam os lençóis depois do intercurso com outra matéria semblante.

O gargarejo da água que corre determinada e serena abrindo os sentidos não se fazia ouvir. Pensava em revisitar a caixa de Pandora. Os pés do pensamento correndo a molhar-se nela, precientes de que a espera contida no último elemento trará alívio, revisitaria o início do mundo. A preciosa e escassa coragem para revisitar o momento exato do primeiro sinal, vem com o que sobrou da caixa. Espera.

Os sinais vêm antes do começo. Antes do gemido da dor do nascimento sonha-se ouvir o timbre exato da voz que nascerá. A generosidade dos sinais avisa daquilo que lhe está reservado. O advento, linha de largada para a qual se caminha, ainda e sempre muito crente, e definitivamente. Dali, se divisa tão somente a linha do horizonte, os desafios do percurso ficam escarpados. 

A densidade do tempo vai pesando conforme a obstinação com que se caminha para lançar o espírito a viver. Quanto mais, maior. E disso nada se pode dizer, posto que não haja mais nada a dizer, ao menos nada novo, nada que possa tornar ameno o desenlace. Esgotou-se tudo. E é o recurso da fé escoado no último que esse ‘tudo’ leva. Vive-se por não se poder morrer, podendo o resto ser doce ou amargo, a depender do gosto que terá a água ainda na fonte, a se decidir quando brotará.

O silêncio, quando muito alto, aumenta a pressão e se faz urgente buscar ecos na própria voz. Se ao menos soubesse marulhar, quem sabe não passaria da água ao vinho e pudesse aliviar um pouco o peso do vazio numa ébria, quase religiosa, consumição. Foi quando pensou assim: Talvez, bebendo do sangue surta mais efeito à intenção de refresco da água que não vem. 

Buscava, em delirantes reverberações de ausência, pistas para voltar à fonte, queria estar representada de si ante o poço dos desejos. Sem mais. Nem media(dores). Olhos baixos diante do ibiri de Nanã, assume a reza ousada de filha relegada: Diga dos meus dividendos, mas sussurre só pra mim, que busco por conta e risco próprios a fonte que me restabelecerá.

- Elis Barbosa

Revisão: Leandra Freitas.
Imagem: http://varaldobrasil.blogspot.com.br/2012/11/valquiria-imperiano-pinturas.html 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Seta


Escreve leve, escreve simples, escreve direto. Não sai, não funciona assim, não sei fazer. Pense: como seria possível? Nada a que serve tal escrita peculiar é leve, simples e/ou direto. Compromisso sim. Parece que essa escrita submete-se ao compromisso de conceder palavras às imagens nascidas de muitos desejos. Entre a noite, sobre a qual me debruço precipitadamente, e o tempo em que vivo forjando dias com nomes e números, dentro de meses que se encontram dentro de anos, bóia essa escrita truncada, cujo sentido não pertence a ninguém, embora os significantes tenham nome e endereço.

O perigo de dizer, é justamente esse, abre-se, deliberada e descaradamente, espaço ao outro para que entre. Nem sempre ele o faz. São dos perigos.   

Os calendários sim são simples e diretos, de leveza atribuível a quem os for colorir. Sendo assim, não há como ser leve, simples e direto, nem para os calendários, concluo. Mas enfim, quem pode dizer que o tempo é, quando ele mais parece feitiço de passagem com rastos no seu eterno envergar dos homens.

Percebe, não é possível ir direto ao ponto, não é possível remover o véu que reveza, cobrindo ora os olhos ora o objeto. Ainda se faz elementar ver em partes, posto que o todo no tempo do agora dançaria inapreensível.

Repito sempre algumas palavras, algumas expressões, o olhar atento colhe minha assinatura e a legitima, inclusive ao sugerir que se faça diferente. Repito o modo, repito a estrutura, repito seu nome em silêncio nas preces que aprendemos justamente para repetir. Repetem-se as estações do ano, mas não sem intenção, ao invés de se repetirem inócuas elas trazem em suas cestas aqueles dias passados que mais queriam ficar. E nada disso pode ser leve, simples ou direto. Como poderia essa escrita o ser?

Responda ou... nada. Já fui devorada.

- Elis Barbosa

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Póstumo

Encontradas uma na outra, destilavam carinho as irmãs, e este escorria pelo entendimento mútuo, mesmo não sendo sinônimo de irrestrita concordância. Embora a compreensão fosse a presilha preferida para amarrarem-se as tranças, desenrolarem os novelos de assuntos graves, belos, quentes, fervorosos, leves e bobos. Cabia tanto no bojo daquele amor que era refrigério de Kibon em dia de verão.

Tratando dos assuntos pertinentes ao invisível, das abstrações comumente encontradas nas entranhas dos seres humanos, que quanto mais humanos mais entranhas, ou mais abstrações, não puderam concluir, chegaram à gênese tal qual biblicamente se sabe. 

- Criou Deus céus e terra, e viu que era bom.

- Sim.

- Criou Deus o homem, a mulher, e viu que era bom.

- Sim.

- Criou Deus a morte, e viu que era muito bom.

- Como?!

Metade ficou de conferir as letras mitológicas, que se realmente postas assim descompõem um pouco sua descrença conservada para manutenção de algo difícil de nomear. Lembrou-se de outras palavras, as ditas por aquele a quem cabe tudo explicar:

"(...) é muito provável que os mitos, por exemplo, sejam vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejos de nações inteiras, os sonhos seculares da humanidade jovem."

Vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejo. Se assim o for, importa pouco a referência que se busque, o fim é condição para a continuidade, e isso soa paradoxal. Não antagônico, como se pode deduzir caso a atenção seja só de superfícies. Então seria esse o devir do que se chama humanidade: vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejo. E há plenitude tangenciável na fantasia? Será condição para a plenitude o desejo? O contrário é tão raro que humano nenhum poderia.

Vestígio é indicação, indício de algo que não está mais, um dos dicionários diz ainda sobre "sinal deixado pelos pés no lugar por onde se passa, rasto", o resto da equação jamais fechada por inteiros. O exercício visa à tentativa de ajuntamento dessas peças, estendendo-se à medida exata da necessidade de não se perderem as indicações, pois são as marcas do caminho que circunscrevem quem trilha. 

Daqui as crianças juntam seus brinquedos, elas ainda podem consubstanciar suas fantasias. Aos maiores ficam os mitos, "o nada que é tudo" mesmo sendo só vestígios de fantasia. Fica também a vergonha e o constrangimento de ainda se querer a fantasia plena de desejo.

A morte e o mito, hoje são eles que vejo na praça a se olharem enquanto balançam na gangorra.

- Elis Barbosa

Revisão: Leandra Freitas

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Az

A repetição do caminho para o banco era religiosamente mensal. Aspásia fazia o mesmo caminho, sempre, pensava melhor não tendo de se orientar em mais essa geografia. Era tão sabida aquela rota, que fazia-se caminhar nela. Seus pés eram mais por ela que ela por eles, cultivados ao natural. Seus pensamentos não serviam a grandes propósitos, pouco se referiam a considerações de elevado valor moral ou material, pensava por mania, e percebia ter por protagonistas, como objeto primeiro das falas tecidas internamente, mais as falas dos sujeitos que faziam corola ao miolo perfumado de sua alma, que qualquer coisa original.

Ensimesmava-se de momento pela passagem dos dias e o mistério do tempo que se guardava neles para, num suposto anonimato, afligir melhor as alquimias mais díspares. Isso "a passagem dos dias" era tão repetitivo, soa tão surrada a expressão, se algum dia conteve poesia certamente a perdera, virara clichê, rasura. Mas Aspásia é modesta no pensar, e como quem mistura o refresco quente com o dedo indicador, suspira: Pobre de nós que sequer temos a chance de ser, posto que somos inexoravelmente acossados por ele a passar sem maiores explicações. O negócio é estar e pronto. E mudar e tentar enxergar o borro das imagens que passam rápidas demais para serem capturadas em seus contornos pela objetiva dos olhos. 

Aparentemente, nada pode ser capturado em linhas bem definidas, há um transbordamento. 

Tropeçando numa pedra conhecida Aspásia vê assomar na testa do horizonte, o outdoor inescapável, donde se lia: 

MESMO CAMINHO SABIDO DESENROLA SURPRESAS

Dinâmicas irregularidades no solo liberavam disparates de pensamentos assim: fosse o caminho pavimentado, enformado, alinhado e bem medido, não ficaria menos suscetível aos assaltos dessas novidades nascidas dele mesmo?

Coração disparado, constata, e logo vê a palavra perder o fim virando a esquina antes dela. Virava outra coisa díspar: díspar. Rodopiante no sentido anti-horário a diferença transcende em diáspora, que pode ter muitos sentidos, mas nasceu mesmo foi de uma separação. Talvez fosse bom parar um pouco para descansar, sol na cabeça embaça pensamento, e essas palavras à luz excessiva do meio do dia vão tecendo corrente traiçoeira de embolar visão.

- Elis Barbosa

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Incógnita


Denso, o nevoeiro de natureza desconhecida instaurou-se entre o bicho e sua casa. Nunca que tinha nevoeiro por aquelas bandas. A lua estava encoberta, os cheiros eram outros, o pelo eriçava-se por um frio também deslocado de outro lugar para aquele onde o bicho pertencia. O que antes havia sido sua casa era agora lugar de confusão.

Incerteza traz desacerto, que traz medo, que traz defesa, que traz precipitação. A resistência nascida da promiscuidade desses elementos cresce em mais confusão. O que era fluido congela. Sem movimento não há vida. O medo presente, não há movimento.

O bicho se encolhe onde lhe parece seguro e aguça os sentidos, busca harmonizar o som que vem de dentro com o que vem de fora, mas todo o som que lhe é familiar passa a código indecifrável. A agonia aumenta, não há vestígio de comunicação possível onde antes tudo fazia sentido. Mesmo a nuvem que cobria a lua, até pouco fazia, tivesse se dissipado. Seria esse um sinal? Contrito, apertado pela sensação de morte eminente, o animal ouve sair de dentro de si um urro desconhecido. Parecia  desesperança.

Espera uma resposta para a reverberação do som autoral. Recebe, tão somente, o vento carregado de significados embaralhados pela névoa insistente. Não pode voltar, não pode seguir, e guarda consigo a certeza, das mais absolutas, que aquele é o fim do caminho, mesmo não tendo escolhido um caminho sem saída.

Tudo ali lhe era estranhamente familiar, mas sua limitada lembrança de bicho não entregava o serviço. Tinha qualquer coisa de charada aquela obscuridade, qualquer coisa de lembrança, qualquer coisa de mentira. Por onde começar mãe? Por onde?

Deitou a barriga na terra sentindo o abraço que pode sustentar se estamos sobre, ou enterrar se estamos sob, sem se importar com a posição, tomando partido só do carinho que era o frescor de baixo passado para o resto do corpo. A lua voltava a se cobrir, a vigília rompia com o ciclo do sono de restabelecer lucidez, o tempo não dava sinais de mudança, tudo fixo, parado, o bicho sendo devorado pelos olhos dos que não via. 

Finda a naturalidade que antes fazia vicejar os pêlos, brilhar os olhos e afiar as unhas, o bicho seca por antecipação. Morta a beleza que lhe restituía as forças, exaure-se, restando forças só para entrega-se à luta insana que será sobreviver.

- Elis Barbosa

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Monções

Era tanta canseira, que o dia acordado resolve manter os olhos semi-serrados, e não brilha. A enchente fez de tudo resto, destruição pela metade, e por conta de as coisas não poderem ser senão em sua totalidade, foi tudo feito fim. Os móveis estavam cedidos no que lhes juntava dando forma e motivo, amargavam um ar imbecil de matéria enganosa, foram descobertos na sua falta de solidez. As paredes rachadas também mostravam o quanto não continham, fincavam-se ali, escondendo qualquer coisa que as rachaduras tratavam de denunciar. Surpreendeu-se ao identificar na casa as mesmas estrias do corpo advindas de crescimento acelerado, ocorrido antes da maturidade da pele. A pele pode até ser a última que morre, mas se precipita em ser a primeira que se ressente.

As janelas, ilusões de transparência, mostravam o que eram   

A casa transtornada representava desamparo e certeza amargos. Tudo molhado

Sem dúvida dilúvio é ciclo, e o arco-íris não passa de símbolo da promessa de que mais hora, menos hora todas as cores se farão brilhantes novamente (no céu, de modo inconfundivelmente etéreo, e jamais ao alcance de ser bálsamo) com o objetivo exclusivo de contrastar a imundície embaçada do barro que não passa de transitória matéria diluída em confusão.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Acácia


Olhos nublados pela melancolia aprendida com sua mãe, que achava romântico sofrer pela manhã e tinha muita disciplina ao chorar, pensava se não seria a música o elemento a desequilibrar-lhe da alienação.

Como era íntimo o cinza daquelas ruínas! Tanto, mais tanto, e com tanta propriedade, que indubitavelmente poderia deixar-se enegrecer naquele universo mesmo. Apesar da dor, do medo, do frio, e da falta de fé. Se bem que olhando com vagar, são consideráveis os pesares para uma temporada longa. 

A entrega para viver reflexão de tamanha monta aproximou-a do delírio, tentou ponderá-lo, nada. Avistou a ponte para a loucura e resolveu sentar sobre uma das tantas pedras que provavelmente teria de quebrar, na ânsia de tomar um fôlego, de ganhar mais tempo. Desejava voltar para onde sabia  respirar. 

O caminho trilhado até aqui era tão modelar exemplo do que ainda não havia sido aprendido que serviria bem ao entretenimento dos que gostassem de jogo dos muitos erros. Houve tanta boa intenção, tanto empenho, tanta entrega, tanta verdade, tanta reciprocidade, tanta beleza, que lançar-se mais uma vez no espaço parecia pegadinha. Será que não apressadar a dor acumula pontos? Será que assumir a própria incompetência daria a chave para umas pistas de como seguir sem cruzar a ponte? Faria diferença nenhuma, sabia que falhara. Quase certo de que se repetiria a lição quando menos esperasse. Melhor não saber? Talvez, por hora. 

Mas e se ela fosse o caminho e, morrendo de intensidades desde que nasceu, saísse maculando-o com o sangue que lhe brota no peito, vertendo pelas vazantes do desejo?

Havia saudade naquilo tudo, havia o começo, tudo com o que ficávamos desde até antes do encontro. Os começos nos remoçam toda vez que passomo-lhes na cara, no corpo (contra-indicação: vide suadade, confusão mental, incredulidade, dentre outros. Para mais detlhes vide vida). 

A despretensão com que se fingiu viver funcionou, e de repente dá-se a largada para a história. Temos a eternidade, ela ouve dos céus, indagando-se se está autorizada a achar isso péssimo de saber nesse momento. A falta é a morte da esperança, diz a música de antigamente. Ninguém protesta, parece que certo respeito se estabelece entre o caos dos olhos e placidez dos fatos.

Toca o telefone, engano. O disco trava no aparelho, a música passa a gaguejar angustiada. O gato derruba o vaso de planta perseguindo a borboleta mais desorienteada da história. Uma pena, é tão linda ela. O celular apita uma mensagem da operadora. Talvez fosse prudente levantar-se, agir, fazer jus ao nome que lhe fora impingido. Levante e anda, disse Jesus a Lázaro. Erguida, voltou pra trás.

- Elis Barbosa

quarta-feira, 7 de março de 2012

Estrela


Dedicado à Preta que eu tanto gosto, e que também atende por Essencial.

Refestelava-se à cada gota que o ventilador refrescava. Nesse calor de avidez sufocante não secava o banho, abria-se para o sopro contínuo da máquina. Deixava-se estalar conforme esticava a pele, gozava férias, carnaval, um quintal imenso de solidão consentida, o calor do sol da manhã amolecendo-lhe as carnes. E embora tudo atendesse ainda ao horário comercial vinha no cheiro das gentes qualquer coisa de suspenso, um quase manifesto sorriso diante da promessa, agora próxima, de gentios e judeus misturarem-se mascarados.

Era bom ser, entregava à festa mais que os sentidos, um saber ancestral do que podia o carnaval. A festa lhe aprazia pelo som que tinha, pelo cheiro de liberdade suada, pelo desnecessário que era ter destino, pelos disfarces possíveis. Lembrava sempre da história da mulher de quem herdara o nome, a Rainha Ester. Mulher de trajetória peculiar, pode-se dizer. Teve mais de um nome e dupla nacionalidade, vindo à público a judia no momento exato em que era a água do rei. Cumpriu a missão de salvar seu povo. Partiu-se para depois integrar-se em multidão.

Inquestionável era a beleza de Ester, juntava a estrela do segundo nome com a flor do primeiro, Hadassa. Foi o que determinou o rumo do coração do rei, conforme dizem as palavras da escritura, mas no duro: foi paixão. Esther não achava que ficasse atrás, sabia-se bela mirando o sorriso nos olhos dos outros, eis algo que tinha tempo não fazia. Não queria saber disso, queria outras respostas, mesmo sem as esperar mais. Deseja ser tantas.

Fresca, escolhia as cores que espalhassem um pouco de si no entorno, vestia para mostrar. Sentia o sol se pondo, mais que isso os prédios não deixavam ver. Sufocante e frio aquele emaranhado de concreto, mas conforme o pêndulo, acolhedor. Tem nada não, hoje tinha a alma aberta para a rua, de par em par. Embora ouvisse também a parte que pedia casa, pouso, sossego para poder secar em paz as águas que verte. Ir ou ir? Parecia ser essa mesma a hora de dar cabo da distância escorregadia daquele corredor longuíssimo. Subamos, como sugeriu Vinícius, "Subamos acima, Subamos além, subamos! Acima do além, subamos!"

Acomodou na bolsa de pano o coração cansado, levavam os olhos pra passear. Quando não se sustenta querencias como quem tem direito, os ganhos ficam menos tímidos e se enxerga mais nitidamente o que as vistas tocam. Enfiou-se serpentina adentro, explodiu do outro lado em incontáveis confetes brilhantes, agarrou-se aos pés e aos copos dos foliões, passou pelos becos, saltou as avenidas, correu encruzilhadas, virava do avesso a cada golpe que levava no coro a percussão. Pediu para não acabar, mas estourou-se na adaga brilhante do amanhecer. Era imperativo voltar imediatamente. Visse Esther o Sol, naquelas condições, e pronto, estaria descoberta.

Esvaídas as forças, ouviu o pedido da outra nacionalidade, queria casa, já disse. Daí a pergunta inaudita: pra onde a levarei? Tinha o endereço, mas precisava de tanto mais. Buscando descanso espalhou-se pelas cinzas do carnaval. Amparo era o que tinha pra hoje, ainda não acumulara os pontos necessários para ter descanso. Esther mirava as estrelas, mas como não sabia ler, emprestaram-lhe uns olhos que, talvez por conhecer das coisas naturais e chamar as estrelas pelo primeiro nome, tornavam o céu tão mais próximo, coisa assim da altura do dedo mesmo. A voz amena da hora, que já ia avançadíssima, caminhava tranquila pelo rastro leitoso que certa via deixava ali ao fundo, passada por dentro da escuridão da noite, é ali que se esparramam as estrelas, o chão delas é muito longe daqui.

- Elis Barbosa


domingo, 8 de janeiro de 2012

Clareira



Aqui na minha frente está essa folha virtual que esfrego sobre a mesa para me certificar de que está lisa, vazia, ausente de si, cedendo resignada e branda o espaço que preciso para preencher lacunas. Mas como preencher quando estou, eu mesma, um sem fim de lacunas pontuadas por interrogações piscantes. Posso contar uma história, me faz bem conta-las. Ressalva aqui para a grafia da palavra, história assim, se escrevia para o que convencionaram chamar fatos, e estória assim, se escrevia quando os fatos passavam por um rio de imaginação antes de transpor a fronteira dos lábios. Com as mudanças feitas ultimamente, não sei mais quem é quem, de modo que a veracidade desta narrativa fica a serviço do desejo de quem continuar por aqui.

Numa das dimensões em que vivem as pessoas, acontece de duas se encontrarem numa bifurcação de caminho. A que vinha de lá olhava a paisagem distraidamente, e quem vinha de cá fitava a terra regozijando-se na obscenidade de suas cores e texturas, ora vermelha e malemolente, ora preta e densa. Caminhavam tão absortos que olhar nos olhos parecia natural. Desarmados, sorriram polidamente. Ora, um sorriso dessa natureza pede, puxando de leve a barra da camisa, a troca de cumprimentos que correm a interromper o silêncio tagarela dos pensamentos de lado a lado. O que não se esperava, é que as vozes, carregando palavras tão rigorosamente previsíveis, se abraçassem como conhecidas de antes de muitos ontens. E não se pode ignorar quando as vozes se abraçam assim, porque é sinal de que compartilham algum segredo.

Segredo tem dupla nacionalidade, para os que conhecem sua intimidade ele se revela lúcido e firme, para os que o ignoram posa de mistério, deixando no entorno a sensação de se ter ouvido o próprio nome sussurrado mansinho pelo vento. É da natureza do segredo querer se revelar, mas só se revela a quem tem coragem de atender quando chamado. O segredo nunca assume forma de mentira, não lhe cabe, ou é sabido ou não é sabido. Toda vez ele faz questão que se repita isso, receoso que maculem sua reputação com interpretações desleais de sua natureza. 

Abraçadas as vozes, ficava um desconcerto no ar, plasmado nos sorrisos abertos só até a metade, sem permissão de gargalharem, sob pena de acordarem um afeto que ainda nem existe. Não é assim? A agitação que ambos sentem deve-se a alguma outra coisa para qual não encontram nome. E bem no meio da terceira respiração concordam, num aperto de mão, que o calor está de matar, que não há motivo para continuarem seus caminhos separadamente, não sem antes compartilharem algo. Decidem pela água, molham a palavra na água que traziam em si. E seguiram juntos, mesmo percorrendo trilhas diferentes, serenos na certeza de que começaram ali uma história, cujo o fim ainda é segredo.